domingo, 20 de junho de 2010

AÇUDE DA NAÇÃO



Desde que nasci ouvi dizer que o açude da nação iria estourar, hoje estou com 49 anos e neste dia 18 de junho 2010 a profecia se realizou, o açude da nação estourou.


Pretendo em poucas palavras fazer um histórico do açude e das conseqüências que resultaram do seu desaparecimento.


O açude da nação foi feito no leito do rio papacacinha, por isto quando chove na mata ele pega água ligeiro, nunca ficou completamente vazio, nos períodos de longas estiagens em nossa cidade ele foi o redentor dos agricultores, embora tenha suas águas escuras e com um pouco de sal, serve tanto para irrigação como para o gado beber, um açude com uma grande capacidade de criação de peixe, embora não tenha sido até hoje explorado este lado dele, o que sempre tivemos foi a pesca artesanal.


No primeiro governo de Audálio Ferreira ouve uma seca muito grande e ele baixou consideravelmente então Audálio teve a ousadia de fazer um trabalho de dragagem da sua lama, e com isto conseguiu dobrar a sua capacidade de acumulação que hoje é em torno de 800 milhões de metros cúbicos.


Para os senhores terem a dimensão do trabalho, a lama que foi retirada do açude foi usada na rua da lama na qual aumentou em mais de um metro sua altura em toda sua extensão e foi feito o aterramento que deu origem a avenida Ten. Raul de Holanda, a mais importante via de escoamento de nossa cidade.


Com a sua capacidade aumentada foi possível fazer nas suas margens um grande plantio de hortaliça, chamada de hortas comunitárias.


Durante o período de chuva que vai de junho a agosto, a comporta é sempre deixada aberta para que não haja transbordamento de suas águas, bem como a constante limpeza das baronesas que se acumulam no sangradouro, estas práticas fizeram ao longo dos anos com que por mais que chovesse não houvesse perigo de arrombamento do açude.


Com a chegada da Perdigão e o projeto que iriam construir uma barragem acima do açude da nação fez com que nós tivéssemos certeza que realmente nunca mais iria haver cheias do Papacacinha e também perigo de rompimento do açude, pois o novo açude iria fazer com que houvesse a regulagem da vazão para ele.


Para supressa geral a Perdigão não fez a barragem que era prá fazer e sim começou a fazer uma casa de capitação da água do açude, essa casa foi feita logo abaixo do sangradouro do açude e com isto diminuiu consideravelmente a capacidade de sangramento do açude.


Iniciou-se o mês de junho e nada da comporta ser aberta, pois soubemos que a Perdigão não permitiu que isto fosse feito, e o açude começou a acumular água acima do normal, pois não estava havendo escoamento da grande quantidade de água que estava entrando no açude, embora a chuva fosse chuva de inverno o açude estava com sua capacidade chegando aos 100% do limite, então no ultimo dia 18 depois de cinco dias de chuva o açude começou a jogar água por cima do paredão, e para os senhores que não sabem o que isto significa, eu vou lhes dizer, qualquer açude feito de barro que tenha água passando por cima do seu paredão ele estoura, e nosso açude não foi diferente, por uma irresponsabilidade dos responsáveis pela manutenção do açude ele estourou e a tragédia não foi maior porque foi durante o dia, se tivesse sido a noite a bagaceira teria sido feia, pois além do prejuízo material teríamos perdas humanas.

Alexandre Tenório Vieira - tenoriovieira@uol.com.br

----------
(*) As fotos são do Açude da Nação e nos foram gentilmente enviadas pelo Zé Carlos, que as recebeu por e-mail enviado por Mábio Tenório. Agradecemos aos dois ilustres bom-conselhenses nesta hora triste para nossa cidade. Diretor Presidente - CIT Ltda.

Nenhum comentário: