terça-feira, 15 de junho de 2010

Copas do Mundo



Hoje o Brasil faz sua estreia na Copa do Mundo da África do Sul. Já fiz, em outro artigo (http://www.citltda.com/2010/05/dunga-e-os-nossos-craques.html), minhas considerações sobre nossa seleção atual. Hoje tentarei reviver as emoções de copas passadas e inesquecíveis para nós brasileiros.

Eu tinha 10 anos de idade e a noção de futebol para mim era apenas uma bola de borracha bem pequena e um meio fio de calçada, ou um chão de terra batida, com duas pedras formando a barra. Isto era em 1958, e neste ano comecei a ouvir falar que havia futebol em outros lugares. Além disto, o Brasil participava.

Para mim era tudo muito vago ainda. De concreto mesmo, sobre futebol, só havia a pelada de dois contra dois, e eu, mesmo levando jeito, ainda não sabia o que era um “banho de cuia”. Certo dia, ao adentrar no bar de João Jararaca, escondido de meus familiares, que não me queriam que descobrisse a mesa de sinuca, eu descobri os jogos da seleção. Isto aconteceu pela balbúrdia que se formou no primeiro gol marcado contra a Áustria, que não lembro por quem. Só sei que o placar final foi 3 x 0 para o Brasil.

Gostei daquela alegria toda e daí prá frente não perdi mais um jogo. Me informei sobre os dias da partida e na hora exata estava lá eu olhando o jogo de sinuca e escutando o jogo de futebol. Veio Brasil x Rússia, 2 x 0 para o Brasil, empatamos em 0 x 0 com Inglaterra e nos classificamos para as quartas de finais. Enquanto isto acontecia o público do bar crescia e aumentava o lucro do estabelecimento. Igualzinho ocorre hoje em dia com as TV,s digitais e telões, usados para este fim. Acabou a chiadeira do rádio mas também diminuiu nossa imaginação.

Eu ficava pensando como era o Garrincha, o Pelé, o Mazzola, o Zagallo, o Didi, e outros, pois nem acesso a revistas e jornais eu tinha. Como poderia eu aprender a driblar como eles, cabecear como eles, jogar como eles.?Teria que esperar algum dia ir ao cinema e vê-los, mas minhas condições financeiras eram precárias para este luxo. Apenas imaginava e tentava colocar em prática a imaginação. Isto fazia com que ela se desenvolvesse, além do que permite os “vídeo-games” de hoje, é o que penso.

Não recordo muito dos outros jogos do Brasil. Apenas lembro da partida final contra a Suécia. Ao chegarmos a ela os outros estabelecimentos de lazer já haviam descoberto o filão do rádio e não havia mais necessidade de eu ficar vendo a mesa de sinuca. Mesmo assim permaneci no Bar do João Jararaca, até o último gol. Ouvido os gritos das pessoas em toda Praça Pedro II, o que me lembro foi de uma cachaçada enorme e de um carnaval espontâneo e maravilhoso onde imperava o “roxo-rei”. Este era um pó de tinta que servia para fazer as barras das pinturas das casas, de cor vermelha escuro.

Lembro de uma cena da qual nunca mais esquecerei. Homens conhecidos da nossa sociedade pela sua sisudez brincando carnaval em pleno centro de Bom Conselho. Vi sair do Hotel na Rua da Cadeia, entre outros, Arnaldo Amaral, Zé Eudóxio, Vitinho, Zé Galdino, e outros que a memória me falha. E a festa rolou até a tarde.

Esta copa marca o meu encontro inicial com o futebol. Lembro que após esta conquista o interesse pelo futebol cresceu entre a molecada de nossa terra. Tive acesso a uma revista O Cruzeiro, penso que arranjada não sei onde, pelo Zé Praxedes, onde havia fotos dos jogadores. Foi aí que minha imaginação começou a diminuir pois agora não era mais preciso exercitá-la. Inicialmente, eu queria ser Gilmar, e no fim tentei ser Garrincha, terminei já num futuro próximo, sendo meia-armador de um time de Bom Conselho. Talvez tenha nascido para Didi, a vida me levou a ser um bom operário em São Paulo e agora um operário da informática.

Entretanto, ainda hoje sinto uma saudade danada daquela minha primeira copa. Vamos ver se podemos ainda cantar:

“A Copa do Mundo é nossa,
Com brasileiro, não há quem possa.
Eitaaaa esquadrão de ouro,
É bom no samba, é bom no couro!”


Talvez neste 2010, a história se repita para algumas crianças neste Brasil e espero que alguns deles queiram ser iguais a Kaká, Robinho, Júlio Cézar ou mesmo Alano e esquecerem que um dia, algum deles quis ser o Dunga, a não ser como técnico, se o Brasil for hexa.

Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com

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