sexta-feira, 11 de junho de 2010

Imprensa e diplomacia




O artigo do Zezinho de Caetés (“Dilma acredita em Deus?” – 27.5.2010) mexeu com a minha curiosidade. Fui ao mural da CIT. Lá estavam seu Severino Araújo (que não deve ser o da Orquestra Tabajara), e seu Alexandre Correntão. Não conheço nenhum dos dois. Mas fico com as idéias do Severino.

A imprensa só publica o que lhe interessa. Toda "grande" imprensa, sempre viveu às nossas custas, por meio dos favores dos governantes. Não confundam liberdade de imprensa com as sujeiras da imprensa. Há bem poucos dias, um secretário da Prefeitura de Recife, já cheio com as provocações do Diario de Pernambuco, disse que aquele jornal é um balcão de negócios. Ou os jornais em geral. Assim foram os comentários no próprio jornal. E foi um deus nos acuda. Todo o dia era uma carta ou um artigo ou uma matéria espinafrando o secretário e elogiando o jornal. Por caiporismo, o secretário é gaúcho. Não faltou quem o mandasse ir embora pra sua terra. Tudo isso o jornal publicou.

Eu não gostei daquele blá-blá-blá. Mandei uma carta ao jornal, perguntando por que tanta celeuma por nada. Também perguntei por que o Diario estampa, todos os dias, o retrato de Assis Chateaubriand, na página do editorial, quando sabemos que Chateaubriand foi tudo de ruim na imprensa nacional. Recomendei que lessem "Chatô o rei do Brasil", de Fernando Morais; "Minha razão de viver", de Samuel Wainer, e "O Anjo pornográfico", de Ruy Castro. Bastam essas três obras, pra saber o que é a "grande" imprensa. É evidente que o Diario não publicou o meu texto. Engoliu calado e passou a me retaliar, mesmo eu escrevendo sobre assuntos de utilidade pública.

No cenário nacional, ainda podemos relembrar Carlos Lacerda e sua "Tribuna da Imprensa". Quando a UDN quis acabar com Getúlio, Carlos Lacerda, o corvo, encarnou o bom moço e liquidou Getúlio. E por aí vai. São tantos os exemplos, que bastaria Assis Chateaubriand para ilustrar toda a sujeira dessa "grande" imprensa. Notem que até os desastres em família, quando acontecem com gente sem eira nem beira, a imprensa escancara. Quando é no meio de gente de "prestígio", tudo é abafado! Aqui mesmo, na nossa província, ocorreu isso muito recentemente. Ludmila Myrelle morreu num acidente de trânsito, causado por um médico irresponsável e bêbado. Ele levava cocaína, uma garrafa de uísque quase vazia e duas caixas de Viagra no carro. Antes do crime, havia dado uma “carteirada” nos policiais, saindo numa boa. O outro caso, também com morte, convém não lembrar. Basta dizer que a imprensa igualmente silenciou.

Rede Globo, revista Veja, Estadão, Correio Brazliense etc., etc., são gatos do mesmo saco. A "grande" imprensa elegeu Fernando Collor, pra não ver um operário governando o Brasil. Depois de Collor eleito, a imprensa o descartou. Porque sabia que, com o descarte, o presidente a ser empossado não seria Lula; seria Itamar Franco. Mas quanto a terem descartado Collor, era só o que ele merecia, por ser um mau caráter. Assim, o grande pecado dessa imprensa suja foi ter concorrido tanto para eleger o Collor.

De outro modo, considero de gosto duvidoso, quem dar valor ao "Manual do perfeito idiota latino-americano". Quem é esse trio que o escreveu, para falar tão mal dos latino-americanos? Todos eles são da América Latina. E ainda fazem chacota com o escritor Eduardo Galeano (*) e o seu "As veias abertas da América Latina"! Os autores do Manual - Plinio Apuleyo de Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Varga Llosa descobriram boa maneira de ganhar dinheiro com a venda do “manual”.

Plinio Apuleyo é veterano escritor colombiano, com curso de Ciências Políticas em Paris. Foi embaixador da Colômbia em Paris, além de ter exercido outros cargos no governo colombiano. Deve ser o mais matreiro dos três. Possivelmente é o mentor desse livro zombeteiro. Não digo que Apuleyo seja o mais sacana, porque os três são igualmente sacanas.

Carlos Montaner é jornalista e escritor, fugitivo de Cuba. Dedica-se a falar mal dos latino-americanos. É “sabido” e sarcástico. “Sabido”, porque soube ganhar a vida, falando mal da América Latina, do Caribe e do seu povo. Revela-se um grande mercenário. E há notícias de que ele é agente da CIA estadunidense.

Numa entrevista à revista Veja, em 23.8.2000, Montaner, que desqualifica Fidel Castro, por todo o tempo, diz que, após o desaparecimento de Castro, Cuba, num prazo de dez anos estaria entre os quatro países mais desenvolvidos da América Latina. Se é assim, ele reconhece os méritos de Fidel. Se Cuba está preparada para se tornar um grande país em dez anos, fica claro que o que está acabando com o povo cubano são as patas dos EUA, impondo o embargo econômico, além de outros males. Em outras palavras: sem os Castros, acabaria o embargo e Cuba estaria nas nuvens. Voltariam os Fulgêncios Batista da vida. - Pura balela e contradições desse aproveitador. E Cuba também não tem, no seu povo, os idiotas latinos de quem tanto Montaner fala? Ou os idiotas são só os Castros?

Álvaro Varga Llosa seria um ilustre desconhecido, se não fosse filho do escritor peruano Mario Varga Llosa. Contudo, não tem nenhuma expressão como escritor. E não é nenhum estudioso de problemas sociais nas Américas, nem em outro país. Apenas pegou carona nesse livro debochado. É um aprendiz de mercenário.

2. E a diplomacia? Sabemos que diplomacia é uma rua de mão dupla. Os EUA e a Inglaterra têm uma diplomacia para Israel e a União Européia. E outra, muito diferente, para o Irã, Coréia do Norte, palestinos, árabes, sul-americanos etc. Israel tem a bomba atômica, mas não sofre sanção por isso. A Coréia do Norte tem a bomba, mas muito artesanal. Incapaz de ser posta num míssil. O Irã nem a bomba tem, mas fica proibido de enriquecer o seu urânio. Porque o mundo “civilizado” assim quer.

No dia 31 de maio p. findo, Israel assassinou cerca de dez integrantes de uma frota em missão humanitária, que se dirigia à Faixa de Gaza, levando víveres em um navio. E deixou mais de 40 feridos. Os prisioneiros, para ter o direito de ser deportados, teriam de assinar um termo, afirmando que haviam sido presos quando estavam em águas de Israel. Mentira. Eles foram surpreendidos em águas internacionais. Uma brasileira, que mora nos EUA, fazia parte do grupo, mas escapou com vida. Foi para a prisão e se negou a assinar o tal termo. Permaneceu presa.

Os EUA chamaram o massacre perpetrado por Israel de “incidente”. E a ONU foi chamada. Seu Conselho de Segurança fez reunião. Pra quê? A ONU não consegue aprovar nada contra Israel ou outro país aliado dos Estados Unidos e Inglaterra. Nem contra os comparsas destes. E, se aprovar alguma medida restritiva, Israel estará se lixando. Não cumpre nada, nem sofre nada por isso! Tanto que já capturou outro navio de ajuda humanitária para os palestinos.

Quando os Estados Unidos da América do Norte quiseram assassinar metade do povo do Iraque, não pediram autorização à ONU, nem a nenhum corpo diplomático de algum país. Foram lá, invadiram e disseram que se tratava de “profilaxia”. Destruíram o Iraque. Depois, mataram Saddam Hussein e seus filhos, todos sanguinários, tanto quanto os EUA. Mas houve tempo que Saddam era bom para os Estados Unidos. Recebia armamentos e outros tipos de ajuda para atacar os iranianos. Quando isso não mais interessava, os EUA resolveram acabar com o que ainda restava do Iraque e, ao final, mataram Saddam Hussein.

Então, por que o Brasil deve baixar ainda mais a cabeça para os Estados Unidos da América do Norte? Mais do que já se abaixou! Por que ser inferior durante a vida inteira? Por que tanta submissão, que nos impossibilitaria de dar uma palavra em favor de um povo? - Em troca de uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas? Será que vale a pena?

Eu sei que o povo cubano esperava do Lula palavras firmes de condenação aos Castros, no episódio da morte de Orlando Zapata e em outros episódios. Isso são coisas que as relações internacionais nem a “diplomacia” explicam. Nem a nossa diplomacia, nem a do resto do mundo. Não se explica hoje, nem explicavam no tempo de FHC. Determinadas atitudes da “diplomacia” mundial, nunca serão explicadas.

Agora mesmo está havendo um imenso e desastroso derramamento de óleo no Golfo do México, de responsabilidade dos EUA e da Inglaterra. Se esse vazamento houvesse sido no Brasil ou na Venezuela, seria o maior escândalo do mundo. Seria motivo para uma invasão territorial, por parte dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Mas, como foram os dois “grandes aliados” que causaram e estão causando o desastre, eu não li nenhuma crítica na “grande” imprensa. A “grande” imprensa apenas dá a notícia, sem tecer qualquer comentário. E notem que o Irã se ofereceu para ajudar aos Estados Unidos a deter esse vazamento. Porém, os EUA não deram resposta ao Irã.

Numa noite dessas, vinha eu ouvindo a Rádio CBN, como o faço todas as noites, durante a semana, das 22 às 23. Pois bem, a Fabíola Cidral, em “Papo de viajante”, entrevista brasileiros que fazem viagens mundo afora. Naquela noite, o entrevistado foi Danilo Perrotti.

Perrotti é de Minas Gerais. Ele saiu de Minas, de bicicleta, no dia 8.8.2008. Naquela noite, estava no Vietnã, o 39º país a percorrer na sua bicicleta. Havia passado pelo Irã. E vai continuar pedalando por outros países. Pretende chegar a Belo Horizonte, no dia 11.11.2011. Perrotti fez muitos elogios ao povo iraniano. Ele ficou admirado com a cultura daquele povo. Diz que o iraniano é amigo, acolhedor, hospitaleiro etc. etc.

E me havia chegado, dias antes, um artigo (O Irã que eu conheci) da jornalista Sonia Bonzi, que foi morar em Teerã, capital do Irã. Ela saíra de Londres com muito receio. Seus temores eram por conta das notícias da “grande” imprensa do mundo “civilizado”, que condena o Irã e os iranianos. Mandei esse artigo para o Zezinho de Caetés. E, pela sua gentileza, ele pediu que a CIT o publicasse. E foi publicado. Quem quiser, pode lê-lo. A articulista faz uma bela defesa do povo iraniano. Por ter morado lá, Sonia se debruçou sobre os costumes e a cultura daquele país. E só tem elogios para o Irã e o seu povo.

Então, se um país tem um governo discricionário, e eu tenho o poder de chegar aos governantes desse país para negociar um acordo visando ao bem comum, por que não devo fazê-lo? Só porque os anti-Lula mandam jogar bombas nesse povo? Tal como os EUA fizeram, quando se aliaram a Saddam Hussein, na guerra que este travou contra o Irã!

Eu raciocino de outro modo. Devemos conversar com esses governantes, sem subserviência. Com altivez. Sempre tentando evitar que as coisas fiquem piores para o seu povo que não nos fez nenhum mal. Nem não nos quer nenhum mal. Foi o que Lula fez.

Que culpa tem o povo iraniano, por ter um regime político inflexível? Eles têm a República deles, como nós temos a nossa. Por que devemos só jogar pedras nesse povo? Não é mais aconselhável que procuremos conversar com tais mandatários, tentando torná-los mais flexíveis. Ao menos, os governantes do Irã aceitam conversar. Os de Israel não querem conversas com governos de outros países. E muito menos se são sul-americanos!

Ainda pretendo falar sobre o jornalista e escritor Eduardo Galeano. E um pouco sobre Cuba. Mas o espaço hoje acabou. – É ISSO./.

José Fernandes Costajfc1937@yahoo.com.br

Nenhum comentário: