quarta-feira, 23 de junho de 2010

OS DIABINHOS


Lembro-me das visitas que fazia todas as tardes o Padre Alfredo, por volta das quatro horas, as casas de famílias e a Casa da Caridade onde os velhinhos recebiam a sua visita com muita alegria, pois o “homem de Deus” levava seu carinho a aquelas pessoas necessitadas.

Saia normalmente, quando o sol esfriava um pouco, mas não dispensava o seu guarda-sol, nos tempos de verão e no inverno o seu guarda-chuva. Subia devagarzinho pela minha Rua do Caborge, onde ele mesmo morava no fundo da Matriz da Sagrada Família. Cumprimentava a todos os moradores, que nas tardes quentes do verão colocava suas cadeiras e espreguiçadeiras, tamboretes nas calçadas e ali ficavam a tagarelar contanto as noticias do cotidiano. Os meninos brincavam de acordo com a época, chimbre no pátio da meia-água de Dona Luiza, rendeira de mão cheia no controle e movimento dos bilros em uma almofada forrada de uma toalha branca e ela sentada e mexer com uma velocidade o seu material de trabalho, os bilros. Zangava-se às vezes com o barulho dos meninos, mandando todos sair do “terreiro” da sua casa; Nestas ocasiões lá vinha Padre Alfredo, subindo a rua indo visitar os seus “velhinhos”, depois desta visita retornava para a Matriz e se preparava para o “ângelus”. As crianças quando o via, corriam ao seu encontro, gritando, todos em sua volta “benção pade” “Deus te abençoe” acariciando a cabeça de cada um e, ai pediamos, “Pade, me dá um santinho”, todos de uma só vez. O Padre Alfredo sorria e colocava a mão dentro da “batina” e trazia alguns santinhos com as imagens da Sagrada Família, N.S. de Fátima e N. S. do Bom Conselho, São José e tantos outros santos e distribuía para cada um. Os meninos corriam para sua casa para mostrar aos seus pais o presente de Padre Alfredo, de saudosa memória.

O que me fez lembrar deste episodio, foi uma narrativa contada por seu Biu da cidade de Bezerros/PE.

Estava no shopinng Tacaruna, tomando um sorvete. Sentei-me em um dos bancos ali posto, em uma tarde de sexta feira. Sempre vou à shopinng, principalmente “namorar” os livros na Livraria Imperatriz. Ali passo um bom tempo, e, muitas das vezes saio sem comprar nenhum exemplar. Cadê o dinheiro? Os livros estão caríssimos, principalmente, dos grandes escritores.

Aproxima-se o Sr. Benedito da Silva, tomando sorvete com a sua esposa Dona Amélia, senta-se ao meu lado. Apresenta-se, dizendo que é de um distrito do Município de Bezerra/Pe, e que esta na casa de um filho no bairro de Torreão. Tinha ele, 85 anos enquanto a sua mulher Dona Melinha tinha 77 anos, mas que vivia muito bem em seu interior convivendo com os seus animais de estimação e seus amigos de bata-papo na pequena praça do lugarejo. Puxou conversa. E conversa vai e conversa vem, disse-lhe que também era homem do interior por nasci na cidade de Bom Conselho/PE. Sabia ele contar muitos “causos” acontecidos no interior e muitos deles verídicos; Então contou este que conto para vocês:

“Arupenba era uma cidadezinha muito pequena, com pouco mais de dez mil habitantes. Como todo povoado, tinha o comercio, a delegacia e a igreja. Morava na rua central, o Seu João, sapateiro de mão cheia onde todos o procuravam para conserto dos sapatos. Casado com Dona Margarida, mulher prendada no fazer doces caseiros para vender na feira, que acontecia todos os sábados no comercio ao lado da Praça Hilário Gomes. Mormente, o Seu João quando saiam da sua oficina todas as tardes ia conversar com os seus amigos na bodega do Seu Amâncio no final da sua rua, enquanto a sua mulher na janela, o esperava indignado com aquele comportamento diário, de chegar à casa bêbado. Este casal tinha três meninos, o João Filho, o Amaro e o Ananias, com a idade de 10, 8 e 7 anos. Os pequenos brincavam pela rua com os outros meninos. Corriam de “pega” ou de “esconde-esconde” Na hora de entrar para tomar banho e se preparar para tomar “café”, a mãe os chamava sempre de “diabinhos” aos berros na janela. A vizinhança achava um absurdo este tratamento. Denunciou ao Padre Josué este fato, o qual ficou indignado com o tratamento dados pelos pais as crianças.

Como o bom pastor resolveu tomar as dores. Saindo de uma visita ao abrigo dos velhinhos, resolveu retornar para sua casa pela rua onde os “diabinhos” moravam. Em passo lento, desceu a rua com o sol já se pondo, e chegando perto da casa deste morador as crianças o rodearam para pedir a “benção” e “santinhos”.

Aproveitando a oportunidade, perguntou ao menino mais velho:

Como é o seu nome?

O menino respondeu: Diabinho.

E ao outro menino menorzinho, e o seu?

Respondeu o pequeno: Diabinho

O terceiro ainda bem pequeno beirando os seus sete anos, perguntou alisando-lhe os cabelos - e o seu meu filho:

Menorzinho de todos, respondeu quase miando, Diabinho.

O Padre Josué, olhou para o sacristão que o acompanhava nestas visitas, levando-lhe a sua sacola com os seus paramentos e óleos sagrados - disse:

Sebastião esta tudo errado. Vou convidar os pais destas crianças para falar comigo na igreja.

Chamou o maiorzinho de todos e perguntou-lhe, porque os seus pais os chamavam assim.

O menino respondeu imediatamente, de olhos baixo olhando para terra batida da rua poeirenta.

Pois, é Pade. Todos os dias meu pai vem lá de cima – e apontou para o final da rua – bebo se agarrando pelas paredes ou trazido por algum homem para casa. Quando aponta lá em cima, a minha mãe da janela grita para nós, dizendo - Lá vem o Diabo em forma de gente e se retirava da janela indo para a cozinha.

Quando chegava o meu pai, perto de casa, olhava para gente – Cadê o diabo de tua mãe.
Todos nós corríamos para a cozinha para avisar a minha mãe e ela dizia o que é que os diabinhos querem.

Veja seu pade se não nos chamamos de Diabinhos.

O padre e o sacristão se olharam e disse para o menino maiorzinho como é o nome de vocês – Eu me chamo Amaro, este aqui, João e este pequenino Amâncio.

O padre disse para o menino Amaro - diga ao seu pai e a sua mãe que amanhã eu quero ter uma conversa com eles na Igreja às quatro da tarde. Diga que não falte.

E saiu com o sacristão resmungando.

No dia seguinte, à tarde, por volta das quatro horas, atendendo ao chamado do Padre Josué, a família foi até a Igreja, entrando pela porta lateral, ingressando na sacristia, onde o padre rezava as vésperas no breviário. Levantou a vista, e viu aquela família humilde ali na sua frente. Conversou com eles e orientou que não chamasse os seus filhos de Diabinhos, e sim pelos nomes verdadeiros. Disse que a partir daquele dia queria ver toda a família na missa das oito horas da manhã do domingo.

Todos saíram cabisbaixo. No domingo seguinte lá estavam eles no primeiro banco da Igreja, e o padre Josué sorriu.


José Antonio Taveira Belo / Zetinhotaveirabelo@hotmail.com - Olinda.

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