terça-feira, 27 de julho de 2010

Aquele que Veio do Mar (MARLOS)




“É bem certo que o difícil não é viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las.” (José Saramago)



Um ano se passou. Não pretendo revelar tristeza nem esconder afetos. Esta escrevinhação não tem outro objetivo a não ser o de rememorar algumas vivências com o amigo-irmão Marlos Urquiza. Nossos sonhos, nossos projetos e nossas crenças nos levaram a uma convivência pessoal e familiar irmanada, com base na compreensão e aceitação mútua, tanto nas nossas diferenças como nas nossas parecenças.

A história das nossas vidas teve origem em Bom Conselho. Em abril de 1941, iniciou a trajetória de vida do Marlos e, em maio de 1948, a minha. Sete anos de diferença em nossas idades distanciava nossas infâncias e adolescências. Assim, o interesse próprio de cada idade não nos aproximou naquela época. Acrescente-se ainda o fato que da infância para a adolescência fui morar em Caruaru e quando retornei a Bom Conselho o Marlos já tinha ido residir em Recife. A foto ao lado, no desfile de 7 setembro de 1959, é o único registro que assinala nossa ”aproximação” naquela época.

Sete anos depois do referido desfile, somando dezoito anos, fui morar em Recife. Logo mudei para o edifício Califórnia, em Boa Viagem, onde o Marlos já residia dividindo um apartamento com o Zé Oião. Cinco andares abaixo do apê deles, eu e o João Nelson passamos a dividir um kitinete. É nessa oportunidade de fato que me aproximei do Marlos. Portanto, nas minhas reminiscências, esse é o 1º tempo do jogo da nossa convivência. Ele estudava Odontologia e era funcionário da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), enquanto eu trabalhava na empresa White Martins e estudava com o objetivo de fazer o vestibular para Engenharia. A proximidade das nossas moradas aumentava o nosso convívio ainda que tivéssemos interesses e, principalmente, comportamentos distintos. Ele era introvertido, caseiro e sonhador, sua mente estava voltada para escrevinhar poesias e devanear nas ideologias políticas. Eu era farrista, femeeiro e irreflexivo. Mesmo assim, por vezes compartilhávamos momentos de lazer. Em alguns sábados íamos dançar e tomar uns gorós numa boate chamada Cancela, lá nos confins da praia de Piedade. Ele, sempre em companhia de sua namorada Graça, que seria sua eterna companheira, enquanto eu me disponibilizava para dançar ou levar um lero-lero com qualquer uma que arriscasse um olhar para o lado da nossa mesa.

E assim, levávamos nostra dolce vita na juventude em (ah!)Recife.

Minha tentativa de ingressar na Universidade foi frustrada, mas a vida seguia... Num belo dia, o Marlos me apresentou uma alternativa para nossos projetos de mudança em nossa vida profissional: iríamos estudar Engenharia Florestal na Suíça. Faríamos isso como parte de um convênio entre a SUDENE e o consulado daquele país. Depois de algumas entrevistas, tivemos a promessa que estávamos entre os bolsistas selecionados. De imediato, passamos a fazer um curso básico de alemão, que seria necessário para a empreitada e, também, começamos a fazer um enxovalzinho para enfrentar o intenso frio que falavam fazer na Suíça. Depois de muita ralação e sonhos esperançosos, uma bomba caiu em nossas cabeças, o consulado suíço se desentendeu com a SUDENE e cancelou o tal convênio. Lá se foram nossos sonhos de estudar na Europa. O Marlos, mesmo sendo um sonhador, resolveu pragmaticamente seu projeto de vida, iria terminar o curso de odontologia e constituir uma família. Eu, não vendo grandes perspectivas profissionais em Recife, resolvi aventurar a vida em São Paulo. Transcorria, então, o ano de 1968.

Passados dez anos, retornei à Recife. Começava então o 2º tempo do jogo da nossa convivência. Novamente, o destino me conduz a morar no mesmo prédio que o Marlos. Desta vez, em um prediozinho no final da praia de Piedade. Os nossos apartamentos ficavam no mesmo andar. As portas viviam abertas, era como se fosse um único apartamento. Nessa época, estávamos casados. Minha prole com a Kayo somava três filhos, o Tommaso, a Tatiana e a Tarita, com respectivamente quatro, três e um ano de idade. A prole do Marlos com a Graça contava com duas meninas, a Marcelle e a Marlla com cinco e três anos. A fraternização entre os membros das duas famílias foi imediata. Meus filhos desde essa época passaram a chamar a Graça e o Marlos de tio Marlos e de tia Gracinha. A empatia entre os meninos foi tal que houve até mimetismo no vocabulário deles. Os meninos do Marlos e da Graça passaram a chamar os pais de paiê e manhê, enquanto os meus assumiram o vocabulário dos novos primos nordestinhos e começaram a chamar Kayo e eu de mãinha e painho. Portanto, passamos de fato a formar uma família.

Profissionalmente, estávamos estabelecidos. Marlos como dentista na UFPE e como professor na Escola Técnica Federal de Pernambuco (ETFPE). A Graça era funcionária no DETRAN. Eu lecionava no Departamento de Educação Física da UFPE e atuava como técnico de natação no Colégio Salesiano do Recife. A Kayo trabalhava como nutricionista no Serviço Social do Comércio (SESC).

Quanto aos nossos interesses pessoais naquela época, tínhamos em comum o gosto pela leitura espiritualista e a participação no mesmo movimento espírita. Concordávamos quanto à crença sobrenaturalista, mas discordávamos sobre a possibilidade de curas espirituais nas doenças físicas. Ele era crédulo nessas curas e eu cético quanto ao fato. O Marlos vivia escrevinhando suas poesias e seus contos, eu só escrevinhava o estritamente necessário para atender as exigências profissionais. Nos momentos que ficávamos proseando sobre os problemas existenciais, não sobrava pra ninguém, nós dois falávamos mais do que o homem da cobra.

Nos finais de semana, quando íamos à praia com a criançada, eu deixava os meus brincando na areia e me mandava a correr praia acima, praia abaixo. O Marlos ficava vigiando os filhos dele e também os meus, mas não deixava de pegar no meu pé, por eu ser despreocupado com os meus filhos na praia. Eu falava pra ele: vou correr por mim e por você, para garantir nossa saúde (atividade física sistemática – exercícios – não era com ele) e você toma conta dos meninos por mim e por você, para garantir a “saúde” (integridade) deles.

Em nosso dia a dia, reclamávamos da distância que era para nos locomover de casa para o trabalho, ou seja, do final de Piedade para Cidade Universitária e vice-versa. Dizíamos que morávamos “onde o vento faz a curva”. Tendo isso em vista, optamos por morar mais perto do trabalho. Marlos adquiriu um apartamento na Cidade Universitária e eu uma casa no bairro Monsenhor Fabrício. Após algum tempo, resolvemos comprar uma chácara em Aldeia, onde seria possível concretizar nosso projeto de levar uma vida “a lá natureba”. Compramos a chácara em sociedade e o Marlos logo construiu sua casa na parte que lhe cabia no terreno e mudou para Aldeia. Eu continuei na planície, mas impreterivelmente aos domingos, ia com toda a família passar o dia lá na chácara. Enquanto as mulheres preparavam alguns tira-gostos e o almoço e as crianças se esbaldavam naquele mundão de terreno cheio de árvores e fruteiras, nós dois púnhamos em dia nossa falação. Assunto: espiritualismo e problemas existenciais.

O tempo foi passando e nossas famílias aumentando. Do meu lado nasceram a Taisa e a Tâmara, da parte do Marlos nasceu o Marlley. Agora era muito mais gente para cuidar, UFA! Passei a observar o sacrifício do Marlos no leva e trás diário da sua família entre Aldeia e Recife e ao me colocar no lugar dele nessa tarefa, desanimei, não tinha aptidão nem coragem para esse sacrifício. Passei a viver com o dilema de ir ou não morar em Aldeia. Conversa vai, conversa vem, acabamos encontrando uma solução para o meu dilema, fizemos uma permuta: minha parte na chácara em troca do apartamento que ele tinha deixado na Cidade Universitária. Ele ficou satisfeito e eu também, pois ao mudar para o apartamento facilitou ainda mais o serviço de transfer dos meus filhos.

Passava-se o ano de 1991. Na época, alguns incidentes de violência com a família (vários assaltos na rua aos filhos e esposa) me fizeram começar a pensar numa transferência, para alguma cidade de interior na Região Sudeste, onde talvez pudéssemos levar uma vida mais tranquila. Quando comentava com o Marlos essa minha intenção de mudar de cidade, sentia que ele ficava entristecido (a foto ao lado, registra um desses momentos). Enfim, decidido, nesse mesmo ano consegui minha transferência para Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a Kayo, que na época era nutricionista na FEBEM de Pernambuco, requereu sua aposentadoria. Final do 2º tempo do jogo da nossa convivência. Teria prorrogação?

Dois anos depois, o Marlos foi nos visitar em Uberlândia e se encantou com a comodidade e tranquilidade da cidade. Ao tomar conhecimento que na UFU havia uma Escola Técnica de Saúde, decidiu mexer os pauzinhos para também conseguir transferência para Uberlândia. Nessa época, o Marlos já estava aposentado da UFPE, mas continuava dando aulas na ETFPE. A Graça tinha saído do DETRAN e agora era, também, professora na ETFPE e isso era um complicador, pois a transferência de dois professores ao mesmo tempo criava algumas dificuldades para ser concretizada. Depois de muita batalha junto às duas instituições, por fim conseguimos as transferências. Aí começa de fato a prorrogação do jogo da nossa convivência, ou melhor, nosso 3º tempo.

Início do 3º tempo... Quando o Marlos e sua família chegaram a Uberlândia, amontoamos as duas famílias em nossa casa e o Marlos se apressou em comprar sua casa antes que a mudança chegasse do Recife. Instalados em sua nova casa, passamos a curtir a cidade e a dar continuidade aos nossos intercâmbios. Nesse tempo, os interesses pessoais do Marlos continuavam os mesmos: espiritualismo, espiritismo, escrevinhação e nada de atividade física. Os meus interesses tinham sofrido algumas adaptações. Na área espiritual, deixei de lado o espiritismo e a leitura dos livros teosóficos e ingressei na Fundação Logosófica. No lazer, abandonei compulsoriamente o Windsurf (infelizmente “Berlandia” não tem mar) e me concentrei no Tênis de Campo.

E a vida seguia... Continuávamos, amiúde, nossos persistentes intercâmbios e por vezes tínhamos compreensões distintas. O Marlos refletidamente ou devido a minha persistência, em algumas ocasiões, consentia com meus argumentos. Desse modo, passado algum tempo, ele também ingressou na Fundação Logosófica. Agora, sob os auspícios dos ensinamentos de Carlos Bernardes Gonzáles Pecotche, fundador da Logosofia, nossos intercâmbios se ampliaram. Alguns anos depois, eu me afastei do movimento logosófico para tentar realizar, por conta própria, meu processo evolutivo. O Marlos continuou na Fundação Logosófica e eu o estimulava para que lá permanecesse, pois via na Fundação Logosófica o ambiente ideal para ele realizar o seu processo, ademais manter ampliada sua rede social.

Durante esses anos consolidamos, penso eu, grandes realizações. Nossas compreensões se ampliaram. O amadurecimento nos tornou mais complacentes em nossos relacionamentos familiar, profissional e social. Rejubilávamos com as realizações de nossos filhos. Estes formados e encaminhados na vida, nos deram a liberdade para, aposentados, passarmos a dedicar maior atenção ao nosso bem estar. Até por atividade física o Marlos se interessou. Começou a fazer hidroginástica, mas reclamava que só do “esforço” empregue. Nos finais de semana, geralmente, ele ia com a Graça dançar e/ou tomar uns gorós no Praia Clube de Uberlândia (clube maravilhoso). Às vezes, eu e a Kayo acompanhávamos o casal nesse “sacrifício” de final de semana e os gorozinhos, na medida certa, certamente soltavam ainda mais nossas línguas, que já não eram presas.

Hoje, dia 25, completou um ano do nosso último encontro (a foto ao lado registra esse momento). No próximo dia 30, completa um ano do jogo final do campeonato da nossa convivência nessa etapa de vida, em que o vencedor foi nossa compreensão mútua. O Marlos sempre foi um reencarnacionista convicto. Também fui reencarnacionista convicto, hoje, paira sobre minha mente algumas dúvidas sobre essa crença. Tenho simpatia por ela e torço para que seja verdadeira. Se sim, com certeza terei outros campeonatos de convivência com o Marlos. Nessa etapa de vida, fomos amigos-irmãos de fato. Quem sabe o destino enseje sermos num próximo (?) campeonato irmãos e amigos de fato e de direito.

Acabei de reler o livro “CRIAÇÃO IMPERFEITA: Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza”, de Marcelo Gleizer. Marlos foi meu grande ouvidor nos assuntos existenciais. Ele não está mais presente fisicamente para ratificar, mas com certeza esse livro motivaria inúmeros intercâmbios em nossos finais de semana. VIXE! Parece que a coisa não terminou, por vezes me pego discutindo mentalmente com o Marlos, como se ele estivesse aqui. Não é que o “humanocentrismo”, a nova corrente de pensamento que o Gleizer propõe nesse livro, para se contrapor as idéias dos “sobrenaturalistas” e dos “naturalistas”, foi o tema das nossas últimas “videoconferências”. Estas requereram uma interconexão especial, digo mental, pena que sem vídeo e sem áudio.

Saudades desse nordestino, MAS A VIDA SEGUE...

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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