segunda-feira, 12 de julho de 2010

Chegando no Recife...



Um dos pontos altos de qualquer viagem é a chegada. Afinal de contas foi com este fim que vivemos no inferno de um ônibus por quase três dias. Para mim, matuta do Pau Grande foi diferente. Descobri que a matutice que caracteriza os meninos tímidos da zona rural não se perde com a passagem por um grande centro. Aquela sensação de insegurança, de ansiedade, de medo ao encontrar pessoas ou fatos inusitados nos perseguem sempre, até que o vencemos pela razão quando ficamos mais velhos.

Eu poderia dizer que me diverti toda a viagem, com exceções de acessos de raiva do motorista no caso do Toninho. Quando eu ia chegando ao Recife, ou melhor a sua região metropolitana, bateu-me um baita de um ataque de insegurança e de medo do que poderia estar além do horizonte. Não conhecia a cidade, não sabia se minha prima Francisquinha estaria me esperando, nem tampouco onde iria chegar. Ao notar a mudança da paisagem de terra quase vermelha e algumas árvores um pouco amareladas, para uma selva de construções, vi, pelo tempo de viagem que estava chegando ao destino. Ao destino da viagem, porque o meu destino pertencia a Deus, e como ele não fala todo dia conosco, eu não sabia qual era, mais confiava em seu fiel depositário.

Os pés ficaram gelados, a boca seca e nem pitomba eu quis comprar numa das paradas do ônibus muito perto do Recife. A cabeça quase rodava com as voltas do pensamento sobre o que me esperava, e as dúvidas que me angustiavam. Será que a Francisquinha está me esperando? Será que a reconhecerei com esta foto tirada Deus sabe quando que ela me enviou? Será que ela mora longe? Estas, junto com outras eram as dúvidas para aquele momento. Outras também apareciam quando esticava minha mente para o futuro mais distante. Será que arranjarei emprego? Será que poderei me sustentar sozinha pela primeira vez na vida, ou como minha mãe dizia: “...se coser com as próprias linhas’? Afastava estes pensamentos lembrando um conselho que meu pai me deu muito tempo atrás, lá em São Paulo:

- Eliúde, nunca pense que o futuro não existe, mas quando ele lhe preocupar demais, tente esquecê-lo, lembre do passado e viva o presente.

Descobri que suas palavras ditas de forma mais simples do que as transcrevi eram sábias, e passei a pensar na experiência que tinha para enfrentar aquela nova situação. Hoje posso dizer que tudo deu certo, pois estou escrevendo sobre isto. Naquela ocasião não daria um pirulito por certeza nenhuma.

Vi que o ônibus se aproximava de uma baia de um rodoviária. Hoje, se olhasse em volta viria um viaduto e o Forte de Cinco Pontas, e nem sei se veria a própria Rodoviária Antiga, que não sei nem com o que agora funciona, ou mesmo se existe. Naquele momento olhava pelo vidro com o retrato de minha prima na mão. Não vendo ninguém que com ela parecesse o coração ficava cada vez mais acelerado, como que a antever minha solidão, que parecia ir durar cem anos. O ônibus parou. Todos começaram a levantar-se, minha vizinha de viagem, ainda cheirando a mortadela, se despediu de mim, passando o cheiro para minhas mãos, e isto aconteceu com todos, pois já os conhecia. Quem conhece as pessoas no céu, não lembra muito delas, tocar harpa é mais interessante, mas, quando as conhecemos no inferno, temos que ficar amigos, nem que seja para falar do diabo.

Desci do ônibus, enquanto o motorista me olhava de soslaio (sempre quis usar esta palavra) devido aos nossos desentendimentos durante a viagem, mas era sua obrigação abrir aquele bagageiro e tirar minhas malas, onde trazia algumas lembrancinhas paulistas para os parentes. Lembro que trouxe uma N. S. Aparecida e dei para a Francisquinha. Eu menti, dizendo que a teria comprado em Aparecida. Até hoje me arrependo desta mentira, mas foi por uma boa causa, até hoje ela tem esta santa e, segundo ela, alcançou muitas graças pedidas àquela imagem. Ainda disse que o Padre Bernardo a benzeu, quando a verdade era que a comprei um pouco antes de viajar lá numa rua do Brás (será que os filhos da Francisquinha já lêem o Blog da CIT, espero que não.).

Peguei minhas duas malas e, parecendo que a santa começou a fazer milagres ali mesmo de dentro dela, vi uma moça parecida com Francisquinha. Nunca me alegrei tanto ao ver alguém como naquele momento, nem mesmo ao ver o papa João Paulo II, um tempo depois, no viaduto Joana Bezerra, pois era mesmo minha prima. Nos abraçamos e falamos pouco devido aos afazeres que tínhamos para chegar em casa. Hoje lembro que tivemos de andar muito para pegar um ônibus para Paulista, era um ônibus de Pau Amarelo. Senti ali que tinha agido corretamente ao voltar, pois a afluência de lugares que tem Pau no nome em minha vida me levava à crença de que nunca deveria ter saído do Pau Grande. Não sei se foi por isso que tempos depois o destino me levou a morar onde moro: Paudalho.

Descobri logo que Recife era maior do que Guarulhos mas menor do que São Paulo. Sei que passei pela primeira vez na Avenida Guararapes, depois de andar por ruas que foram bater no Mercado de São José. Lembro de alguns nomes, como Rua da Calçadas, Rua da Penha, Av. Dantas Barreto e vendo placas de outras que a da memória passou para a bexiga e já foram. O movimento era pequeno naquela época. Poucos carros e poucas pessoas. Ainda era possível vê-las de longe andando a pé, o que é impossível hoje devido ao comércio informal e as montanhas de lixo. Atravessamos todas estas ruas com minhas malas e, pasmem pessoas que hoje lá passam, não fomos assaltadas nenhuma vez. Até pouco tempo ainda gostava de andar por lá, até o dia em que fui assaltada duas vezes no trajeto. São os tempos modernos.

Depois de passar por ruas do Recife e de Olinda, chegamos ao nosso destino, Paulista, mais propriamente, Praia do Janga. Minha prima morava lá, com o marido e três filhos. A casa era simples, mas não tanto, e um pouco isolada, mas, quase na beira da praia e com muitos coqueiros a sua volta. Um local bonito. Havia até um quarto de hóspede no qual me aboletei de armas e bagagens, como se diz.

Enfim cheguei a Recife, o que considero a terceira etapa de minha vida. A primeira era a que vivi no Pau Grande. A segundo a que passei em São Paulo. Será que todo mundo tem esta minha mania de dividir a vida em etapas? Quando alguém me pergunta o que eu fazia quando tinha certa idade, a primeira coisa que penso é onde estava naquela época e tudo fica mais claro. O local por onde passamos deixa marcas profundas que nos dão a perspectiva de ter vivido mais do que um átimo do tempo universal.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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