quarta-feira, 14 de julho de 2010

Conhecimento, Crenças e Opiniões



Em algumas oportunidades, recordo da fábula intitulada “As Roupas Novas Do Rei” do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. Para desenvolver o raciocínio nesta escrevinhação, vou sintetizá-la.

A fábula conta a historia de um rei que é enganado por dois mercenários, os quais se dizem tecelões capazes de fazer o tecido mais bonito que se pode imaginar, e a roupa feita com este tecido, tem a maravilhosa propriedade de ser invisível aos olhos de quem não é competente no seu ofício ou de quem é particularmente estúpido. Custeados pelo rei, os falsos tecelões fingem realizar o processo de fiação que é acompanhado pelo monarca e seus principais auxiliares. Ainda que não vissem o produto do trabalho dos vigaristas, o rei e seus cortesãos fazem elogios ao belo “tecido”, ou seja, mentiam uns para os outros afim de não passar por tolos. Quando os trajes ficam prontos, o rei se diz maravilhado com a roupa e condecora os “tecelões” pela pseudo-obra. Nessa oportunidade, é realizada uma procissão onde o rei desfila entre os súditos com sua nova vestimenta. Durante o cortejo, todos que o acompanhavam exclamam quão maravilhosa é a roupa nova do rei. Os camareiros acompanhantes fingem segurar na cauda da roupa para não passar a idéia de que nada veem, pois isso significaria demonstrar o quão são estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. No transcorrer da procissão, uma inocente criança exclama: O REI ESTÁ NÚ! O pai da criança se apressa em pedir desculpas pela inocência do seu filho. O rei, embora no íntimo soubesse que a criança tinha razão, mantém-se firme até o fim da procissão, não querendo ver sua tolice desmascarada. (Uma versão na integra desta fábula está disponível no site: http://verticalizar.wordpress.com/2007/10/04/as-roupas-novas-do-imperador-autenticidade/)

As fábulas permitem um sem-número de interpretações. A fábula em pauta, ao meu juízo, nos ensina a questionar as verdades estabelecidas por quantas “autoridades” existam e se manifestam. Quando olhamos para uma questão sem um “juízo” preconcebido, como à criança da fábula, poderemos desenvolver além de um olhar crítico sobre as coisas com as quais nos relacionamos, um olhar próprio, contextualizado. Quantas vezes não levamos adiante uma “verdade” sem compreendermos a lógica que nos fez aceitá-la, tão somente pelo fato desta “verdade” ter sido estabelecida por uma “autoridade” no assunto?

Por vezes propagamos algumas “verdades”, confundindo crença com conhecimento. Saber e crer são coisas bem distintas. A crença é um ato de fé que nos faz admitir uma idéia, uma opinião, uma explicação ou uma doutrina, independente de nossa vontade, portanto, inconsciente. O conhecimento, por sua vez, é uma aquisição consciente, realizada por métodos exclusivamente racionais, tais como a experiência e a observação. Assim, crença e conhecimento constituem dois processos mentais distintos e de origens muito diferentes.

Já manifestei em outras ocasiões minha aspiração em compreender os problemas relacionados com o nosso viver. Nessa temática, algo que continua me intrigando na conduta humana é o problema relativo às crenças. Observo que mesmo frente aos grandes avanços científicos dos últimos séculos, o ser humano continua a crer em muitas coisas, mesmo na ausência de qualquer evidência que as torne verossímil. Observo, ainda, indivíduos que, apesar da elevadíssima inteligência, conservam crenças muito ingênuas, onde a razão parece não modificar suas convicções sentimentais. Frente a isso, tento encontrar uma explicação de por que alguns aceitam sem questionar “verdades” propagadas por “autoridades” e outros não? Por que uns se consagram a ideologias políticas e outros não? Por que uns são religiosos, outros agnósticos, outros ateus e, ainda, outros “à toa”?

Na oportunidade, tento extrair resposta para estas e outras questões nos escritos de Gustave Le Bon intitulado “As opiniões e as Crenças” (esta obra completa pode ser vista na biblioteca do Blog da CIT). Nessa extraordinária obra, Le Bon apresenta de forma brilhante várias formas para a lógica que até então era considerada apenas como a arte de racionar e demonstrar. No capítulo sobre “As Diversas Formas de Lógica que Regem as Opiniões e as Crenças”, ele classifica como cinco formas:

1. Lógica Biológica – Esta forma de lógica preside à substância dos seres e à criação das suas formas, produzindo adaptações por forças que não conhecemos;
2. Lógica Afetiva – Também chamada de Lógica dos Sentimentos, dirige a maior parte das nossas ações. Nesta e na lógica anterior, as associações intelectuais permanecem inconscientes;
3. Lógica Coletiva – Nesta lógica o homem procede diferentemente do homem isolado. Os elementos dessa lógica somente são observáveis em multidões;
4. Lógica Mística – Esta forma de lógica é o resultado de um estado particular do espírito, chamado místico. Universal nos primeiros tempos da humanidade, parece ainda muito vulgar. Para as mentalidades místicas, o encadeamento das coisas não oferece nenhuma regularidade, mas depende de seres ou de forças superiores, cujas vontades nos são simplesmente impostas. A lógica mística determinou e determina sempre grande número de atos da imensa maioria dos homens;
5. Lógica Racional – Esta lógica é a arte de associar voluntariamente representações mentais e de perceber as suas analogias e as suas diferenças, isto é, as suas relações.

Para Le Bon, todas essas formas de lógica podem coexistir num mesmo indivíduo, sobrepondo-se, fundindo-se ou contraindo-se, sem que nunca uma delas elimine inteiramente as outras. No cotidiano, há uma espécie de equilíbrio entre os impulsos advindos das diversas lógicas e, dependendo da época, do meio e do momento, a mente se deixa dominar por uma ou outra lógica. Esse equilíbrio não é uma fusão e sim uma superposição das distintas formas de lógica, onde cada uma mantém independente sua ação.

A questão que surge é: como o complicado problema da superposição das diferentes lógicas, no mesmo indivíduo, encontra de imediato uma solução? E ainda, como explicar que indivíduos familiarizados com os rigorosos métodos científicos adotem crenças políticas, religiosas, espíritas, etc., as quais frente à lógica racional não se sustentam a um mínimo exame?

Para Le Bon a resposta é simples.

Esses indivíduos, nas suas concepções científicas, são guiados pela lógica racional. Já nas suas crenças, são comandados pela lógica mística ou pela lógica afetiva. Parece ser prudente reconhecer, pelo que se pode observar, que quando diferentes formas de lógica entram em conflito raramente a lógica racional prevalece. Assim, discutir como outrem uma opinião de origem afetiva ou mística, fundamentado na racionalidade, só trará como conseqüência deixá-lo exaltado. Quando a discussão é interior, consigo mesmo, a recomendação é para que ela só seja empreendida quando a crença já estiver num grau de enfraquecimento, tal que sua força esteja dissipada.

É importante, também, observar que a luta entre a lógica afetiva e a lógica racional é menos desigual do que a luta entre a lógica mística e a lógica racional, visto que no primeiro caso a inteligência pode opor sentimentos a sentimentos com o intuito de dominar aqueles que se pretende refrear. Se bem que esta ação pode ser limitada ou bastante restrita quando o sentimento a ser refreado ainda é muito intenso. Nesse caso, a inteligência perde todo o seu poder.

Nesta reflexão, iniciada com a fábula de Hans Andersen e finalizada com as teorias de Gustave Le Bon, passei a compreender melhor a chamada “guerra” entre religião e ciência. Essa “guerra” pode ser representada, por exemplo, quando falamos de cientistas, pelos debates entre o biólogo Richard Dawkins, autor do best-seller “Deus, um Delírio” e o geneticista Francis Collins, autor do best-seller “A Linguagem de Deus” (um desses debates pode ser visto em: http://www.elielvieira.org/2009/02/ciencia-vs-fe-debate-entre-dawkins-e.html). Mantendo as devidas proporções, essa “guerra” também pode ser representada pelos diálogos entre apedeutas no assunto como Eu (Roberto Lira) e o Cleómenes Oliveira, representando os não religiosos, e a Lucinha Peixoto, representando os crentes religiosos.

A conclusão que podemos chegar é que se levarmos em conta as teorias de Le Bon, subestimar o poder das crenças quando confrontada com a razão é um erro, talvez até grave. Por reconhecer que esse erro eu já cometi em várias ocasiões, aproveito a oportunidade para desculpar-me com os meus contendores de antanho. Tanto aqueles que defendem suas opiniões formadas pela lógica mística como aqueles que as formaram com a lógica afetiva. Como agnóstico, não me é possível pedir perdão a Deus, mas vou remir esse meu “pecado” (É ERRO Roberto!) me esforçando para não cometê-lo mais.

Lucinha, Cleómenes e, também, antagonistas subjacentes com opiniões formadas pela lógica afetiva e/ou pela lógica mística, prometo, mesmo sem solenidade, me esforçar para que doravante meus confrontos saiam da área das opiniões e restrinjam-se apenas aos travados numa quadra de tênis, pelo menos enquanto a bendita lógica biológica teime em continuar substanciando a forma física deste meu velho corpo cansado de guerra.

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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