segunda-feira, 19 de julho de 2010

O nosso idiotismo e outras histórias (1)




Esse comentário vem a propósito de artigo do Zezinho de Caetés, publicado no Blog da CIT, em 30.6.2010 (http://www.citltda.com/2010/06/imprensando-diplomacia.html). - Ocupado com umas tantas tarefas, só agora volto à labuta de escriba idiota. Confesso logo que nunca fui, nem sou de esquerda, muito menos de direita. Eu posso ficar na esquerda, na direita, em cima, por trás etc. Na horizontal ou na vertical. E nunca mudei o meu modo de pensar. Nos meus conceitos sócio-políticos, vejo o homem como ser provido de raciocínio, que tanto pode servir para o bem, quanto para o mal. Partidos políticos, para mim, têm o mesmo valor de um cheque sem provisão de fundos.

Esses senhores que escreveram o Manual do perfeito idiota latino-americano são latinos e dizem que foram de esquerda. E que depois se recuperaram. Um deles, Álvaro Vargas Llosa, fez o pai, Mario Vargas Llosa, mudar radicalmente o seu modo de pensar. Vejam esta frase do velho Mario V. Llosa, proferida em 1967: "Dentro de dez, 20 ou 50 anos terá chegado a todos os nossos países, como agora em Cuba, a hora da justiça social, e a América Latina inteira terá se emancipado do império que a saqueia, das castas e da exploração, das forças que hoje a ofendem e a reprimem."

Ingenuidade ou burrice? Contudo, notem como se muda fácil, em benefício do bolso do filho. Pois foi o peruano Mario Vargas Llosa quem fez o prefácio do livro desse trio oportunista. Se bem que no prefácio ele tenha dito logo que se trata de um panfleto. E é um panfleto mesmo, pois suas páginas carregam o escárnio, a zombaria e algumas violências contra os latinos.

Mas Mario Vargas Llosa não é um bom caráter. Ele batalhou na imprensa, ombro a ombro com o colombiano Gabriel García Márquez e o uruguaio Eduardo Galeano. Certa vez, num coquetel em Barcelona, Vargas Llosa agrediu García Márquez, gratuitamente. Atribui-se a desavença entre ambos à inveja que Llosa tinha de García Márquez. Posso supor que a sua mudança tão radical não é somente obra do tempo. Talvez seja inveja do jornalista e escritor Eduardo Galeano, de muitos méritos.

Não li esse panfleto. Nem pretendo. O que se depreende de tudo, é a ânsia de ganhar dinheiro publicando livros. Não é só esse trio impostor que o faz. Tantos e tantos aproveitam para escrever qualquer coisa, tipo auto-ajuda etc. Mas esse livreto do trio zombeteiro é um prato cheio. Eles chegam ao escárnio de dizer que a bíblia dos idiotas é o livro de Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”. Esse é um dos truques mais bem bolados para vender o panfleto deles.

Ocorre que “As veias abertas...” não foi feito só para vender. Foi feito para ser lido. Por isso, qualquer um de nós pode ir à internet e imprimi-lo, caso queira. Ou então ler do seu conteúdo o que bem queiramos. E podendo citar qualquer passagem dele, qualquer opinião do grande escritor Galeano, desde que indiquemos a fonte. Eis aí a diferença entre o renomado Eduardo Galeano e esses três embusteiros.

Eles também tentam desqualificar outros autores, como o filósofo alemão, Herbert Marcuse, o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez. De igual modo, fazem chacota com o professor Ariel Dorfman e com o sociólogo e ensaísta belga Armand Mattelart, entre muitos outros escritores e filósofos de valor. Com isso, eles atraem os curiosos para as anedotas deles e conseguem vender o livro. E mais ainda: são endeusados.

Seguindo linha semelhante, e guardada a imensa distância, o Zezinho de Caetés, em seu artigo de 30 de junho p. passado, chama-me de professor o tempo todo. A princípio, ele fala da “grande imprensa”. Ao comparar o jornal “O Estado de São Paulo”, com um blog de Bom Conselho, termina esse tema. Menos mal. Mas antes insinuou que a poderosa imprensa não se vende. Isso é desconhecer um Assis Chateaubriand, um Roberto Marinho, um Mário Rodrigues, um Vitor Civita, um João Carlos Paes Mendonça e tantos outros.

Ah, havia-me esquecido do Sílvio Santos. Será que ele, Sílvio Santos, ficou rico vendendo bugigangas no Largo da Carioca? Eu me lembro do tempo que a TV do Sílvio Santos engatinhava. Eram os anos de chumbo. Sílvio Santos criou o quadro “Boa-tarde, senhor ministro”. E todos os domingos ele trazia um general velho ao programa. E lhe fazia louvações, num puxa-saquismo desenfreado. O tal homenageado era um ministro do regime militar de Médici.

E quem desconhece a parcialidade da Rede Globo? Infelizmente, o nosso povo só tem olhos e ouvidos para a Globo. Não sei qual o programa da Globo que presta. Tampouco, qual é o pior. – E dizer que eu falei do Diário de Pernambuco, porque este não publicou um artigo meu, é achincalhe.

Mas voltemos aos idiotas da América Latina. Às pessoas que foram à escola, não é dado o direito de desconhecer que os europeus levaram nossas riquezas. Ouro e outros metais de grande valor foram saqueados por franceses, ingleses, espanhóis e portugueses, afora outros europeus. Sem nos esquecer da nossa madeira de lei.

Em entrevistas à imprensa, Carlos Montaner afirma que o atraso dos latinos é por causa da colonização espanhola e portuguesa. Quando lhe foi perguntado o porquê do atraso de países que foram colonizados por ingleses, franceses, holandeses etc., ele desconversou.

E diz que os idiotas são “os que pediram a mão dura dos militares e ditadores”. Por acaso foi o povo cubano que pediu a mão dura de Fidel Castro? Ou foram os quadrilheiros dos EUA, saqueando Cuba, com a cumplicidade criminosa de Fulgencio Batista? Destes, falaremos na próxima etapa. E Cuba já vinha sendo espoliada e furtada pelos espanhóis havia 400 anos.

Nesse emaranhado de contradições, Montaner termina elogiando Pinochet e Fujimori, duas figuras de chumbo. E faz críticas a Fidel Castro por este ter mania de criar escolas de medicina. Como que os pecados de Fidel estejam em formar médicos. Talvez a contragosto, Carlos Alberto Montaner reconheceu que houve avanços na educação do povo cubano.

E vem agora Mario Vargas Llosa alegar que o filho, Álvaro, tem três processos dos tempos de Fujimori, querendo enaltecer a “coragem” do filhote. Mas um dos autores do Manual, prefaciado por ele, elogiou Fujimori, que os governou. Então, Fujimori não tinha a mão pesada, nem foi corrupto quando governou o Peru, a pátria dos Llosas!

E o que fizeram os “desbravadores” que encontraram o Brasil por acaso? Aproximavam-se dos índios, usando de artifícios. Aí, escravizavam ou matavam os índios e engravidavam as índias. Esse mesmo procedimento foi usado pelos bandeirantes, tão cantados e decantados em nossos livros de História do Brasil. Os bandeirantes usavam de meios tão cruéis, quanto os europeus. Conta-se que numa expedição, onde eles capturaram 500 índios, só 50 chegaram a São Paulo. Mas isso não foi a História do Brasil quem me contou, não. Porque a história que nos ensinaram é um terreno cercado de mentiras por todos os lados.

Dessa prática de emprenhar as indiazinhas, nasceram milhares e milhares de mamelucos. E a arte de matar e espoliar os índios, ainda hoje ocorre à larga, no nosso Brasil capitalista, de vento em popa. Não estou querendo dizer que o modelo econômico adotado por nós seja pior do que o socialismo, não. Porque a exploração dos pobres pelos ricos acontece em qualquer que seja o regime econômico. EUA e Europa hoje têm leis para controlar a exploração dos seus trabalhadores. Mas aí, o que fazem? Invadem os outros países e se apoderam do seu povo e das suas riquezas. E se locupletam da mão-de-obra vil, reinante nos outros países.

Quando não havia leis, nem direitos para trabalhadores, nos EUA, uma só fábrica incendiou 129 mulheres de uma vez. O massacre se deu em 8.3.1857, em Nova Iorque. Só porque aquelas mulheres tentaram fazer uma greve para melhorar as suas condições de trabalho. Isso faz parte dos sistemas econômicos, sejam eles quais forem.

Não me venha esse trio “esperto” querer provar que os latinos são pobres porque são idiotas. Para esses espertalhões, por sermos idiotas é que acreditamos que a nossa pobreza tem causa na exploração pelos países ricos do “Primeiro Mundo”!

Para ilustrar o contrário, basta um passeio histórico sobre Cuba. Não é necessário percorrer toda a América Latina, nem recorrer ao livro de Eduardo Galeano As veias abertas da América Latina, não. Uma retrospectiva por Cuba, nos últimos 500 anos, diz muita coisa.

Cuba também era povoada por índios. Em 1492, Cristovão Colombo chegou à ilha, pensando que era parte do continente. Em 1509, Sebastián de Ocampo provou que Cuba era uma ilha. Foi aí que começou a colonização de Cuba, pela Espanha, que a explorou por quatro séculos.

Quando os metais preciosos da ilha foram esgotados, veio o ciclo da agroindústria canavieira, no início do século XVIII. A monocultura do açúcar passou a ser a base da economia cubana, sustentada pela mão-de-obra escrava dos africanos. No século XIX, os EUA eram o maior comprador do açúcar cubano.

Em 1868 um dono de engenho de açúcar, Carlos Céspedes, quis derrubar os espanhóis. Arregimentou 200 homens e proclamou a independência de Cuba. Assumiu o governo e libertou todos os escravos que se unissem às forças revolucionárias. Conseguiu um aumento de 12 mil homens no seu efetivo. Mas provocou a ira dos demais latifundiários que ficaram sem seus escravos e sem a mão-de-obra deles. Mesmo assim, só em 1873 Céspedes foi deposto. Mas a Espanha só conseguiu retomar o controle total da ilha em 1878.

Tempos depois, surgiu um líder revolucionário, José Martí. Com 16 anos de idade, fundou o jornal La Patria Libre. Detido, foi condenado a trabalhos forçados e depois deportado para a Espanha. Quando ficou livre, viveu no México, na Venezuela e nos EUA. Em 1892, fundou o Partido Revolucionário Cubano. E em 1895, desembarcou em Cuba, começando outra guerra pela independência, sendo morto um mês depois de iniciados os combates. Após sua morte, o conflito continuou até 1898. Nisso, os EUA se aproveitaram e sufocaram o movimento de independência. E Cuba passou a ser colônia dos Estados Unidos da América.

Porquanto, a essa altura, os EUA já mantinham um navio ancorado em Havana. Um belo dia, o navio explodiu. Dizendo não saber a causa da explosão, os EUA culparam a Espanha e lhe declararam guerra, sob o pretexto de ter sido a Espanha que explodiu o navio.

Com o controle da ilha, em abril de 1898, o presidente dos Estados Unidos da América, William McKinley ditou uma sentença. Dela, pinçamos umas frases cínicas, ditas por um energúmeno do “Primeiro Mundo”:

1. Que o povo cubano é e por direito deve ser livre e independente. 2. Que os Estados Unidos, por intermédio da presente, declaram não ter vontade nem intenção de exercer soberania, jurisdição ou domínio sobre a Ilha, exceto para sua pacificação. 3. E assevera sua determinação, quando a pacificação seja atingida, de entregar o governo e o domínio da Ilha ao seu povo.”

Por suas inúmeras virtudes, McKinley foi assassinado em 1901, ainda na presidência dos EUA. E assumiu o seu vice, Theodore Roosevelt, o criador do grande porrete. Roosevelt também levou um tiro no peito. Mas escapou.

Porém, essas linhas sobre Cuba não terminam aqui. Para poupar os meus três ou quatro leitores, continuarei em breve tempo.

José Fernandes Costajfc1937@yahoo.com.br

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