terça-feira, 13 de julho de 2010

POR ELIZA









Com perplexidade tenho assistido às notícias acerca do caso protagonizado por Eliza Samudio e o goleiro do Flamengo Bruno Fernandes. Em toda minha vida, nunca tomei conhecimento de um caso tão terrificante no qual a vítima tem seu corpo desossado e suas carnes devoradas por cães ferozes, segundo o show da morte espetacularizado e potencializado pelo sensacionalismo de alguns segmentos da imprensa.

Nada justifica essa espécie de divina comédia da perversidade, do crime e da vã crença na impunidade. No entanto, fatos de tal natureza obrigam a se repensar a cultura e alguns conceitos que permeiam o imaginário brasileiro e revelam interfaces de barbarismo, autoritarismo e machismo.

É preciso se reavaliar o marketing de falsos líderes que não passam de repetida reprodução de uma propaganda enganosa, mas sedutora e disseminadora de valores fictícios conseqüentes de reforço ideológico que reduz o conceito de nacionalismo e amor à Pátria às performances futebolísticas.

Transcendendo os limites dos conceitos formais de moral, ética e direito é preciso se refletir sobre a questão de gênero num país caracterizado por cifras alarmantes de violências contra a mulher, gays, índios e negros.

Muitas Elizas sofrerão violência que não passam de meros reflexos da cultura autoritária e machista brasileira. No caso Samudio, existe uma manifesta tendência em se desclassificar a vítima lançando-lhe desrespeitosos epítetos como se os ordenamentos jurídicos, morais e religiosos não defendessem o direito à vida em qualquer circunstância.

Qualquer que seja o contexto do envolvimento de Eliza Samudio com o goleiro Bruno Fernandes, nada vai arrebatar-lhe à condição de mulher e de vítima. Talvez seja um momento de se cobrar transparência nas perigosas relações entre jogadores de futebol e cartolas, bem como, nos inavaliáveis privilégios que os transformam em semideuses acima do bem e do mal.

Imagino quantos sonhos teve Eliza Samudio. O maior de todos os direitos é o sonho. Foi cortado, como contado, de uma forma monstruosa. Torço até para que seus restos mortais não sejam encontrados nem expostos ao circo das tragédias, para que seu espírito não sofra ainda mais.

Ao meu leitor, desejo muita paz.

Maria Caliel de Siqueiramcaliel@hotmail.com


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(*)Foto de Eliza da Internet.

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