quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Bom Conselho, os prédios, os semáforos e os cachorrinhos



O Alexandre Vieira é um dos meus escritores favoritos em nosso Blog. Acompanho-lhe desde quando escrevia no Site de Bom Conselho. Ele é criativo e conta suas histórias de uma forma engraçada, que nos faz rir. Já previa desde aquela época que ele seria um bom colaborador do nosso Blog, e estava certa.

Sua principal característica é não medir muito bem os efeitos dos seus escritos. E assim sendo, muitas vezes ele incorre em, tantos nos erros como nos acertos, em graves notas que ferem as pessoas mais sensíveis. Nós daqui da CIT, em nosso Conselho Editorial do Blog, quase sempre ficamos em dificuldades quando ele nos envia seus textos para publicação. A conclusão que tem vencido é aquela de considerarmos seus textos como sendo inofensivos, pela maneira alegre e humorado com que eles os escreve. Certas vezes em penso que ele não “bate bem a biela”. Outras vezes, penso que a liberdade de expressão deve proporcionar certas “liberdades”. Assim sendo, foram poucos os seus textos aos quais fui contrária à sua publicação.

Recentemente, depois de escrever algumas coisas sobre meus textos, que acharam feio o seu prédio comercial, ele passou a me criticar dizendo que eu não queria o progresso de Bom Conselho e ao mesmo tempo sugerindo políticas públicas adequadas para outros setores de Bom Conselho. Eu, com os meus botões políticos, o respondi em certas ocasiões e tento fazê-lo agora com mais vagar.

Logo de primeira quero dizer que os argumentos usados por Alexandre para defender a feiúra arquitetônica dentro do conjunto do quadro de Bom Conselho, não me convenceram. Se alguém propusesse erguer um edifício de 25 andares, no terreno onde fica a casa do Coronel, mesmo prometendo, com isto empregar 5000 pessoas, eu seria contra. Se tivesse influência bastante, e, se Deus quiser, a terei a partir de 2012, pois estarei no Casa de Dantas Barreto, e prometo que não sairei para fazer nenhum curso fora, eu doaria um terreno ao ilustre empreendedor, lá pelos lados da Prefeitura, e colocaria um transporte público para levar sua clientela lá. Tudo isto porque também valorizo o emprego para nossa gente, sem ferir determinadas normas que ferem nosso conjunto arquitetônico maior, como seu meio ambiente já foi ferido de morte pela sanha pecuarista.

Talvez possam alegar que “beleza não põe mesa”. Eu retrucaria dizendo que “mesa sem beleza não é mesa”, mesmo a mais pobre delas. Como desenvolvimento sem sustentabilidade não é desenvolvimento, é burrice. Aí vêem outra vez os “alegadores” de plantão dizerem que isto é uma posição elitista, pois nada é belo quando temos pessoas desempregadas e passando fome. Todos se comovem e choram, votam em Dilma Roussef e José Serra, pelos empregos que eles prometem. Não vêem que as promessas de emprego vêem de longe, como a pobreza, a miséria, a fome, e que nunca são extintas, e muito menos, quando deixa-se de admirar a beleza que um dia criamos para a nossa sobrevivência. Aqui não se trata de uma opção pura e simples entre “beleza” e “comida”, que já foi exercida de forma errada, valorizando os empregos que destruíram a beleza e o meio ambiente, e sim de uma opção para o futuro. Não podemos incentivar os comerciantes de Bom Conselho a destruir o patrimônio arquitetônico para criar empregos, devemos tentar criá-los sem destruí-lo. Verticalização com o espaço que temos, não é solução, é falta de imaginação.

Hoje, em cidades onde há um Plano Diretor adequado, já se prever a figura do Solo Criado. Não tive decepção nenhuma em saber que o Alexandre paga o IPTU, por metro quadrado. Teria ficado mais decepcionada se ele não pagasse de jeito nenhum. Seria minha obrigação, como cidadã, questionar a prefeitura a respeito. Não sei se há um Plano Diretor para a cidade, mas se não tem, terá a partir de 2012, se eu for eleita. E nele faremos constar a figura acima, do Solo Criado.

Sem querer entrar em tecnicalidades, que nem eu mesmo entendesse, posso dizer que ele foi previsto já em nossa legislação desde 2001, através do Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257 / 2001), e pode ser resumido assim: Em cada terreno, dependendo da zona, se pode construir um máximo em metros quadrados. Quando o proprietário quiser construir a mais poderá comprar do Município o direito de fazê-lo, desde que este aumento de construção não prejudique a infra-estrutura e os equipamentos urbanos. Assim, a quantidade de Solo Criado que pode ser comprada em cada zona é limitada e é o que chamamos de estoque. Os recursos arrecadados com a venda do direito de construir a mais são destinados para obras sociais, cumprindo o preceito constitucional que prescreve a função social da propriedade. O que a verticalização quase sempre significa, é o uso de mais metros quadrados do que o permitido, em determinadas áreas. Para que isto seja feito é necessário que se pague a mais para fugir dos limites previstos num plano diretor do uso do solo. Nas cidades civilizados, em certos locais, é totalmente proibido os prédios irem além de certa altura. Porque? Por muitos fatores, como uso de infraestrutura em geral, mas principalmente pela preservação do padrão arquitetônico, o que não é feito para turista ver, e sim, os turistas vão lá porque isto é feito, e a beleza os compensa. Quando subimos num prédio em Roma e de quase todos eles podemos ver a Igreja de São Pedro no Vaticano, é que sabemos da importância de um instituto jurídico como este.

Existem coisas em Bom Conselho que não tem mais jeito, talvez, como o prédio da Eletro Móveis Magazine, mas eu não queria estar viva para ver um prédio de apartamentos na praça Pedro II, por mais "progresso" que isto representasse para alguém. O que digo é o seguinte: se alguém quiser verticalizar no centro de Bom Conselho, mesmo com o objetivo nobre de gerar empregos, vai ter que pagar um IPTU, ou de outra forma mais adequada, mais caro pelos metros quadrado que ultrapassarem sua cota, e tão mais caro que ele irá construir no Alto do Colégio, se não quiser perder o seu pobre dinheirinho. Se os técnicos forem competentes, em termos de cálculos e beleza envolvidos, não teremos um prédio com mais de um andar naquele, já tão maltratado, local, sempre em nome do "progresso".

Também sou contra a pelo menos se pensar em colocar sinais de trânsito na cidade como propõe o Alexandre. É claro que sou a favor de que Bom Conselho tenha um trânsito ordenado e não caótico como estava, já da última vez que me desloquei à minha terra natal. O nosso centro estava um caos veicular. Nas festas da Igreja e na Praça Pedro II, antigamente, íamos a pé, e ficávamos rodeando nossa velha praça, até paquerando, por que não, também sou filha de Deus, apesar dele não ter caprichado tanto no meu visual como o fez com a Tereza Benjoino, mas isto não me tornou ateia, Ele sabe o que faz. Hoje, as pessoas vão de carro e os estacionam no centro em fila dupla, tripla, quádrupula ou maior, e ainda por cima, os novos ricos, ficam em seus carrões, para mostrar como foram felizes ao sair da cidade e ir procurar emprego por outras bandas. Quem vai às festas a pé é pobre, ou diz que não está de carro, porque ele era tão grande que não passou pelo portal da cidade, outra doença horrível que nos acometeu, a síndrome do progresso imitado.

O que me garante que os sinais de trânsito seriam respeitados? Talvez, se o meu colega de Ginásio, o Severino Soldado, ainda estivesse na ativa (não sei nem se ainda está entre nós), talvez ele fosse obedecido e todos respeitassem os semáforos. Infelizmente, ele não estará lá, e o custo para substituí-lo certamente será maior do que se colocarmos simples placas de estacionamento proibido e educar o nosso povo para respeitá-las. Espero que isto seja feito, antes do próximo Encontro de Papacaceiros, e que os participantes colaborem com o nosso centro. Para isto é só convencê-los que “se for dirigir não beba”. Se isto for obedecido nenhum carro andará em Bom Conselho, naqueles três dias, pois no último, até vendo as fotos eu senti o cheiro do álcool. Ainda mais que, agora coincidirão com o dias de momo, seguindo uma ideia boa do Alexandre quanto ao Papacagay. Eu mesma, deixarei minha Ferrari (custou-me muitas vacas) em Caldeirões dos Guedes, não por mim que não bebo, mas pelo meu consorte, que gosta de entornar algumas, igual ao nosso presidente. Não quero correr o risco de ser multada pelo Alexandre, que como trabalhador voluntário, ficará de sua loja vendo quem furou o sinal vermelho na esquina do Cine Brasília. E haja IPVA para cobrir os custos, pois pelo que ele fala, os recursos deste imposto para o município estão sobrando nos cofres da prefeitura, e as multas aplicadas servirão também para comprar e manter toda a infraestrutura dos semáforos. Eu conheço motoristas em Bom Conselho que passará com o sinal vermelho, pensando ele está indicando para ir em frente pois a cidade tem pressa.

Entretanto, a política pública que mais me chamou atenção, daquelas propostas pelo nosso grande empreendedor, foi a de recolher os cachorrinhos das ruas. Eu sou muito apegada a animais, e quando morava em Bom Conselho criava tudo quanto é bicho. Inclusive cachorros. Para mim era um horror quando este tipo de política era implementada porque eles botavam “bola” (algo misturado com veneno) para matar os cachorrinhos. Sabia que algum dos meus se beneficiaram da política adotada quando, no sábado á noite, eles não chegavam em casa. Chorava e era consolada pela minha mãe que dizia, “minha filha, que se há de fazer?”. Alegavam, como hoje, que eles poderiam contrair doenças e passá-las para as pessoas, e sujavam as ruas com seus excrementos, sendo um risco para a saúde pública. Então eles eram envenenados por isto. Hoje, se defende a criação de empregos sem se importar que isto pode levar as pessoas a contrairem doenças e mesmo morrerem de desastres naturais, iguais as vítimas dos cachorros.

Vi outro dia no jornal que o governador de Pernambuco iria sancionar uma Lei, espero que já o tenha feito, que proibe a eutanásia nos cachorros de rua, indiscrimidamente. Eu achei uma beleza esta lei. E igual à beleza artística ou qualquer outra beleza, existem outras pessoas sensíveis como eu para propor uma lei destas. Como sempre digo e repito, não é só a lei que é importante, mas, também, a educação que ela pode proporcionar aos nossos seres humanos em relação aos seres cachorros. Da mesma forma como existem pessoas que dão prioridade ao emprego ao invés de dá-lo á beleza arquitetônica, existem pessoas que darão prioridade em matar os pobres cachorrinhos, do que arcar com os custos de alojamento para eles. E assim caminha a humanidade. Não deu para entender se o Alexandre, em sua proposta, na qual defende o recolhimento dos nossos cachorrinhos, muito meritória por sinal, se a lei for obedecida, está propondo a construção de abrigos, para que estes também filhos de Deus. Será que ele já sabe que tem que acolher os bichinhos? Eu proponho fazer um prédio de três andares para servir de hotel para os nossos caninos abandonados, junto com uma campanha educativa com o lema: “Se tratamos homens como cachorros, por que não tratar cachorros como humanos?” No entanto, o prédio deveria ser construído lá perto do Alto do Colégio, em área que não perturbasse os humanos que lá vivem e vice-versa.

Mesmo que o Alexandre se propusesse a alocar algum canino no último andar de sua bonita loja eu não acharia conveniente, pois os latidos dos pobrezinhos talvez atrapalhassem a celebração da Santa Missa em nossa Igreja. Mas, como o Alexandre diz em uma de suas mensagem, e tem razão, eu preciso ir mais vezes a Bom Conselho para saber a situação real dos problemas. Como saber, sem ir lá, se os cachorros em Bom Conselho ainda latem?

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com
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(*)Fotos do centro de Bom Conselho são do arquivo da CIT Ltda, gentilmente cedidas pelo Zé Carlos, tempos atrás.

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