terça-feira, 10 de agosto de 2010

A entrevista com o Poste



Ontem a noite o Poste concedeu uma entrevista ao Jornal Nacional de uma rede de TV, onde serão também entrevistados outros candidatos. Transcrevemos abaixo esta entrevista cuja marca é a sinceridade nas respostas, devo reconhecer.

WB: O Jornal Nacional dá início nesta segunda-feira a uma série de entrevistas ao vivo com os principais candidatos à Presidência da República. Nós vamos abordar aqui temas polêmicos das candidaturas e também confrontar os candidatos com suas realizações em cargos públicos. É claro que não seria possível esgotar esses temas todos em uma única entrevista, mas nas próximas semanas os candidatos estarão também no Bom Dia Brasil e no Jornal da Globo.

O sorteio realizado com a supervisão de representantes dos partidos determinou que a candidata do PT, Poste, seja a entrevistada de hoje. Nós agradecemos a presença da candidata. Boa noite, candidata.

Poste: Bom dia.

WB: E informamos também que o tempo de 12 minutos da entrevista começa a contar a partir de agora. Candidata, o seu nome como candidata do PT à Presidência foi indicado diretamente pelo presidente Lula, ele não esconde isso de ninguém. Algumas pessoas criticaram, disseram que foi uma medida autoritária, por não ter ouvido as bases do PT. Por outro lado, a senhora não tem experiência eleitoral nenhuma até este momento. A senhora se considera preparada para governar o Brasil longe do presidente Lula?

Poste: Olha, William, olha, Fátima, eu considero que eu tenho experiência administrativa suficiente. Eu fui secretária municipal da Fazenda, aliás, a primeira secretária municipal da Fazenda de capital. Pois antes de mim, no RS, as fazendas eram administradas por homens de cavalo e bombacha, uns grossos. Depois eu fui sucessivamente, por duas vezes, secretária de Energia do Rio Grande do Sul. Foi ai que ganhei o apelido de Poste, que todos pensam ter sido porque o presidente Lula me carrega nas costas. Assumi o ministério de Minas e Energia, também fui a primeira mulher, e fui coordenadora do governo ao assumir a chefia da Casa Civil, que, como vocês sabem, é o segundo cargo mais importante na hierarquia do governo federal, já que o José Alencar, vice-presidente, não conta, como também o Temer não contará em meu governo. Então, eu me considero preparada para governar o país. E mais do que isso, eu tenho experiência, eu conheço o Brasil de ponta a ponta, conheço cada poste deste chão, conheço os problemas do governo brasileiro.

WB: Mas a sua relação com o presidente Lula, a senhora faz questão de dizer que é muito afinada com ele. Junto a isso, o fato de a senhora não ter experiência e ter tido o nome indicado diretamente por ele, de alguma maneira a senhora acha que isso poderia fazer com que o eleitor a enxergasse ou enxergasse o presidente Lula atualmente como um tutor de seu governo, caso eleita?

Poste: Você sabe, Bonner, o pessoal tem de escolher o que é que eu sou. Uns dizem que eu sou uma mulher forte, outros dizem que eu tenho tutor, outras dizem que sou um poste no mau sentido, como o faz o Blog da CIT, que eu odeio, e se um dia encontrar este tal de Zezinho de Caetés, sei não... Eu quero te dizer o seguinte: a minha relação política com o presidente Lula, eu tenho imenso orgulho dela. Eu participei diretamente com o presidente, fui braço direito e esquerdo dele nesse processo de transformar o Brasil num país diferente, num país que cresce, que distribui renda, em que as pessoas têm a primeira vez, depois de muitos anos, a possibilidade de subir na vida. Então, eu não vejo problema nenhum na minha relação com o presidente Lula, mesmo tendo que aguentar aquele Zezinho, atrás dele chorando por uma Academia. Pelo contrário, eu vejo que até é um fator muito positivo, porque ele é um grande líder, e é reconhecido isso no mundo inteiro.

FB: A senhora falou de temperamento. Alguns críticos, muitos críticos e alguns até aliados falam que a senhora tem um temperamento difícil. O que a gente espera de um presidente é que ele, entre outras coisas, seja capaz de fazer alianças, de negociar, ter habilidade política para fazer acordos. A senhora de que forma pretende que esse temperamento que dizem ser duro e difícil não interfira no seu governo caso eleita?

Poste: Fátima, estava respondendo justamente isso, eu acho que têm visões construídas a meu respeito. Veja esta de me chamarem de poste. Eu acho que sou uma pessoa firme, como qualquer poste bem enterrado. Acho que em relação aos problemas do povo brasileiro, eu não vacilo. Eu estou lá danda a luz para todos. Acho que o que tem que ser resolvido prontamente, nós temos que fazer um enorme esforço e aguentar o peso dos fios, mesmo que desemcapados. Eu me considero hoje, até pelo cargo que ocupei, extremamente preparada no sentido do diálogo. Nós, do governo Lula, somos eminentemente um governo do diálogo. Por exemplo, sempre que encontro o Renan Calheiros em minhas andadas matinais eu digo, bom dia. É óbvio que se ele se aproximar muito eu solto os cachorros, para ele saber que minha relação com o PMDB é meramente eleitoral. Em relação aos movimentos sociais, você nunca vai ver o governo do presidente Lula tratando qualquer movimento social a cassetete. Primeiro nós negociamos, dialogamos, damos beijinhos no Pedro Stédile e no José Rainha. Agora, nós também sabemos fazer valer a nossa autoridade. Nada de ilegalidade nós compactuamos, mesmo quando a lei está ainda para sair, como a lei da Palmada. Nem eu nem o Lula jamais demos uma palmadinha sequer no MST, é só diálogo, igual a Lula e Dona Lindu, segundo ele próprio.

FB: Agora, no caso, por exemplo, a senhora falou de não haver cassetete, mas talvez seja a forma de a senhora se comportar. O próprio presidente Lula, este ano, em discurso durante uma cerimônia de posse de ministros, ele chegou a dizer que achava até natural haver queixas contra a senhora, mas que ele recebeu na sala dele várias pessoas, colegas, ex-ministros, ministros, que iam lá se queixar que a senhora maltratava eles.

Poste: Olha, Fátima, é o seguinte, no papel... Sabe dona de casa? No papel de cuidar do governo é meio como se a gente fosse mãe. Tem uma hora que você tem de cobrar resultado. Quando você cobra resultados, você tem de cobrar o seguinte: olha, é preciso que o Brasil se esforce, principalmente o governo, para que as coisas aconteçam, para que as estradas sejam pavimentadas, para que ocorra saneamento. Então tem uma hora que é que nem... Você imagina lá sua casa, a gente cobra. Agora, tem outra hora que você tem de incentivar, garantir que a pessoa tenha estímulo para fazer. E como a lei só se aplica a crianças, eu de vez em quando dou umas palmadas em alguns ministros, tanto que eles quando entram na minha sala já vem com as cuecas recheadas para amortecê-las. Eu, já sabendo disto, dou uns beliscões nas bochechas, só de leve. Mas, se continuarem não cumprindo minhas ordens, saem de lá com a cara tão vermelha quanto a bandeira do PT.

FB: Como mãe eu entendo, mas, por exemplo, como presidente não tem uma hora que tem que ter facilidade de negociar, por exemplo, futuramente no Congresso, futuramente com líderes mundiais, ter um jogo de cintura ai?

WB: O presidente falou em maltratar, não é, candidata?

Poste: Não, o presidente não falou em maltratar, o presidente falou que eu era dura. Eu não considero maltratar, dar umas palmadinhas vez por outra, no Mantega ou no Tarso Genro, mesmo no Fernando Collor, quando vem me pedir o impossível. Aí eu sou dura mesmo, as pessoas não sabem porque eu estou dando, eles sabem por que estão apanhando, e saem rindo, de minha sala como sempre.

WB: Não, ele disse isso. A senhora me perdoe, mas o discurso dele está disponível. Ele disse assim: as pessoas diziam que foram maltratadas pela senhora. Mas a gente também não precisa ficar nessa questão até o fim da entrevista, têm outros temas.

Poste: É muito difícil, depois de anos e anos de paralisia, e houve isso no Brasil. O Brasil saiu de uma era de desemprego, desigualdade e estagnação para uma era de prosperidade. Nós tínhamos perdido a cultura do investimento... Depois de uma palmada ali e outra acolá, vejam o que aconteceu...

WB: Vamos falar de alianças políticas, o que é importante...

Poste: ...e aí houve uma força muito grande da minha parte nesse sentido, de cumprir meta, de fazer com que o governo Lula fosse esse sucesso que eu tenho certeza que ele está sendo, e se não houvesse eu iria além da palmada, prendia e arrebentava, como fizeram comigo.

WB: A senhora tem agora nessa candidatura, além do apoio do presidente, a senhora também tem alianças, né?, formadas para essa sua candidatura. Por exemplo, a do deputado Jader Barbalho, por exemplo, a do senador Renan Calheiros, por exemplo, da família Sarney. A senhora tem o apoio do ex-presidente Fernando Collor. São todas figuras da política brasileira que, ao longo de muitos anos, o PT, o seu partido, criticou severamente. Eram considerados como oligarcas pelo PT. Onde foi que o PT errou, ou melhor, quando foi que ele errou: ele errou quando fez aquelas críticas todas ou está errando agora, quando botou todo mundo debaixo do mesmo guarda-chuva?

Poste: Eu vou te falar. Eu perguntava outra coisa: onde foi que o PT acertou? O PT acertou quando percebeu que governar um país com a complexidade do Brasil implica necessariamente a sua capacidade de construir uma aliança ampla, geral e irrestrita.

WB: Errou lá atrás?

Poste: Não. Nós não... O PT não tinha experiência de governo, agora tem. Na época do Plínio, antes de eu entrar nele, o PT fazia questão de não aderir ao fisiologismo, mesmo que fosse para o bem do Brasil. Foi aí que o presidente Lula botou as coisas nos eixos. Agora... Nós não erramos e vou te explicar em que sentido: não é que nós aderimos ao pensamento de quem quer que seja. O governo Lula tinha uma diretriz: focar na questão social, mantendo a mesma política neo-liberal do FHC e indo em frente. Fazer com que o país tivesse a seguinte oportunidade: primeiro, um país que era considerado dos mais desiguais do mundo, diminuir em 24 milhões a pobreza. Um país em que as pessoas não subiam na vida elevar para as classes médias 31 milhões de brasileiros. Para fazer isso, quem nos apoia, aceitando os nossos princípios e aceitando as nossas diretrizes de governo, a gente aceita do nosso lado e estamos prontos para dar a eles o controle de muitos Estados brasileiros, que até hoje vinham sendo governados pelos verdadeiros oligarcas. Não nos termos de quem quer que seja, mas nos termos de um governo que quer levar o Brasil para um outro patamar, para uma outra etérea dimensão onde se acredita que não há mal que não traga um bem relativo. Ou vocês pensam que eu também não roubei o pensamento do Ademar de Barros?

WB: O resumo é: o PT não errou nem naquela ocasião, nem agora.

Poste: Não, eu acho que o PT não tinha tanta experiência, sabe, Bonner, eu reconheço isso. Ninguém pode achar que um partido como o PT, que nunca tinha estado no governo federal, tem, naquele momento, a mesma experiência que tem hoje ao elevar o fisiologismo à obra de arte da governabilidade. Acho que o PT aprendeu muito, mudou, porque a capacidade de mudar é importante. O fisiologismo nasceu com o Brasil, com o Pero Vaz de Caminha. Vocês sabiam que o emprego que ele pediu naquela carta foi atendido? Pois é somos todos seus sucessores.

WB: Vamos lá. Candidata, vamos aproveitar o tempo da melhor maneira. O PT tem hoje já nas costas oito anos de governo. Então é razoável que a gente tente abordar aqui alguma das realizações. Vamos discutir um pouco o desempenho do governo em algumas áreas, começando pela economia. O governo festeja, comemora muito melhoras da área econômica. No entanto, o que a gente observa, é que quando se compara o crescimento do Brasil com países vizinhos, como Uruguai, Argentina, Bolívia, e também com aqueles pares dos Brics, os chamados países emergentes, como China, Índia, Rússia, o crescimento do Brasil tem sido sempre menor do que o de todos eles. Por quê?

Poste: Olha, eu acredito que nós tivemos um processo muito mais duro no Brasil com a crise da dívida e com o governo que nos antecedeu, que também não fez o Brasil crescer como devia. Mesmo tendo feito no na área econômica tudo que eles fizeram, e com mais eficiência, pois foram precisos o Gustavo Franco, Pérsio Arida, Gustavo Loyola e Armínio Fraga, na presidência do Banco Central, nós só precisamos do Henrique Meirelles, que deverá ser mantido no cargo. Este negócio de neo-liberalismo só pega para a oposição.

WB: Mais duro do que no Uruguai e na Bolívia, candidata?

Poste: Acho que o Uruguai e a Bolívia são países de segunda categoria, sem nenhum menosprezo, acho que os países pequenos têm que ser respeitados, do tamanho de alguns estados menores no Brasil. O Brasil é um país de 190 milhões de habitantes. Nós tivemos um processo no Brasil muito duro. Quando chegamos no governo, a inflação estava fora do controle. Nós tínhamos uma dívida com o Fundo Monetário, que vinha aqui e dava toda a receita do que a gente ia fazer. O Lula pagou ao FMI e hoje temos muito dinheiro em caixa, e como aquele Zezinho de Caetés um dia disse a Lula: “Mais vale dinheiro em caixa do que amigos na praça”, pois com as burras cheias sempre teremos amigos e correligionários.

WB: Correto, candidata. Mas a Rússia. A Rússia também teve dificuldades e é um país enorme...

Poste: Mas, só um pouquinho. Mas o que nós tivemos que fazer, Bonner. Nós tivemos que fazer um esforço muito grande para colocar as finanças no lugar e depois, com estabilidade, crescer. E isso, este ano, a discussão nossa é que estamos entre os países que mais crescem no mundo, estamos com a possibilidade de ter uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto de 7%. E, confesso, se não atingirmos, o Mantega vai para a palmada.

WB: Mas abaixo dos demais.

Poste: Não necessariamente, Bonner. Porque a queda, por exemplo, na Rússia... Sem falar, sem fazer comparações com soberba... Mas a queda da economia russa no ano passado foi terrível, enquanto aqui a crise foi só uma marolinha.

WB: A senhora, de alguma maneira...

FB: Vamos falar agora... Só um minutinho.

Poste: Criamos quase 1,7 milhão de empregos no ano da crise, e se alguns se afogaram no ano da crise, como algumas prefeituras, isto não é culpa nossa, quem não tem competência, não se estabelece.

FB: Candidata, vamos falar um pouquinho de outro problema, que é o saneamento. Segundo dados do IBGE, o saneamento no Brasil passou de 46,4% para 53,2% no governo Lula, um aumento pequeno, de 1 ponto percentual mais ou menos, ao ano. Por que o resultado fraco numa área que é muito importante para a população?

Poste: Porque nós vamos ter um resultado excepcional a partir dos dados quando for feita a pesquisa em 2010. Talvez, Fátima, uma das áreas em que eu mais me empenhei foi a área de saneamento. Porque o Brasil, só para você ter uma ideia, investia menos de R$ 300 milhões, o governo federal, menos de R$ 300 milhões no Brasil inteiro. Hoje, aqui no Rio, numa favela, aqui, a da Rocinha, em que eu estive hoje, conversando com amigos em postos de venda modernizados e saneados, nós investimos mais de R$ 270 milhões.

FB: Mas, candidata, esses são dados de seis anos. Quer dizer, esse resultado que a senhora está falando... vai aparecer de um ano e meio para cá?

Poste: O que aconteceu. Nós lançamos o Programa de Aceleração do Crescimento, para o caso do saneamento, na metade de 2007, depois que o Lula esteve lá em casa e disse que eu era sua candidata e não se falava mais nisto. Começou a amadurecer porque o país parou de fazer projetos, prefeitos e governadores. Mesmo sendo considerada a mãe do PAC, eles não acreditavam em mim e não mandavam projetos. Apresentaram os projetos agora, em torno do início de 2008, quando já queriam subir no poste, pois descobriram que o Lula ia carregá-lo até o fim, e aceleraram. Eu estava vendo recentemente que nós temos hoje uma execução de obras no Brasil inteiro. Aqui, Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Complexo do Alemão. Obras de saneamento, obras de habitação. A Baixada Santista, no Rio, e a Baixada Fluminense aqui no Rio de Janeiro, ela teve um investimento monumental em saneamento.

FB: A gente gostaria agora que a senhora, em 30 segundos, desse uma mensagem ao eleitor, se despedindo então da sua participação no Jornal Nacional.

Poste: Olha, eu agradeço a vocês dois e quero dizer para o eleitor o seguinte: o meu projeto é dar continuidade ao governo do presidente Lula. Mas não é repetir. É avançar e aprofundar, é basicamente esse olhar social, que tira o Brasil de uma situação de país emergente e leva o nosso país a uma situação de país desenvolvido, com renda, com salário decente, com professores bem pagos e bem treinados. Eu acredito que o Brasil... É a hora e a vez dele. E que nós vamos chegar a uma situação muito diferente, cada vez mais avançada agora no final de 2014, deste governo, quando o entregarei novamente ao Lula, porque ninguém é de ferro.

FB: Muito obrigada, candidata, pela sua participação aqui na bancada do Jornal Nacional. Amanhã, a entrevistada ao vivo aqui no Jornal Nacional será a candidata do PV, Marina Silva.

Deveríamos terminar dizendo que, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, mas seria coincidência demais. Então diremos que esta seria nossa entrevista desejada, pela sua sinceridade, honestidade, responsabilidade, inutilidade, como devem ser todas as outras, que se tivermos espaço aqui no Blog, as transcreveremos.

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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