quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Seu Ciço e a Felicidade



Cheguei em Pernambuco e fui morar em Paulista, mais precisamente, no Janga. Praia maravilhosa naquela época, idos de 1980, por aí. Quando eu li um artigo da Lucinha onde ela diz que o coco não é uma fruta de origem brasileira, o que naquela época não sabia, fiquei pensando como, muitas vezes agradecemos as coisas que recebemos a Deus, nem Ele tem culpa e nem elas nos pertencem. Hoje vejo que isto se aplica aos coqueiros daquela praia. Muitos e belos, parecendo até uma graça do altíssimo que beneficiaria nossas praias. Entretanto dizem que foram os portugueses que os trouxeram para cá. Tudo bem, eles também trouxeram nossa língua, que ainda causa celeuma entre o Zezinho e José Fernandes, e que ainda não domino propriamente.

Só não temos razão de dizer que aquilo era uma praia deserta, porque havia a casa da Francisquinha, minha prima e de Seu Cícero, que ficava de frente, e para não ser mentirosa, mais algumas casas, poucas. Podíamos até tomar banho pelada e ninguém dava conta. Uma vez, olhei para um lado e para o outro, e cai no mar como vim ao mundo. Nadei à vontade, sentindo aquela água morna, quando comparamos com a do Guarujá, e o sal e o sol tocar meu corpo por inteiro. Pensei em repetir este ato mais vezes, adorei nadar com meu mais bonito maiô, o meu corpo.

Todo este desejo se desfez quando, no outro dia, ao chegar na casa do Seu Cícero, ele me dizer:

- Eliúde, como você está branca! Precisa pegar um bronzeado urgentemente.

Ao ver que ele, sem eu notar, estava admirando o meu banho em trajes menores, pois estava só com um “band-aid” no braço, atrás de uma moita qualquer, escondidinho, o safado. Nem é preciso dizer que fiquei vermelha de vergonha e de raiva naquele momento. Seu Cícero, que se assim o chamássemos, ele dizia:

- Não conheço nenhum Seu Cícero, meu nome é Ciço, igual ao do meu padrinho o Pade Ciço!

Estava lá me olhando e fazendo não sei o que mais.

Todos sabiam que aquilo, de chamá-lo Ciço, era brincadeira, pois seu nível de educação era bom, sabia ler, escrever, fazer contas e ainda compunha umas músicas, não tão boas quanto os versos que nelas colocava. O inusitado naquela figura era a forma que vivia naquela praia. Sozinho com a mãe, ele vivia numa casa deixada por seu pai, e se sustentava de uma vendinha onde comercializava pequenos produtos de alimentação, limpeza e saúde que eram absolutamente necessários para todos os que não tinham tempo, na ora do aperto de ir ao comércio mais próximo, que era muito distante. A única padaria ficava perto de Rio Doce em Olinda, e a única farmácia mais distante ainda. Então não era incomum que ouvíssemos:

- Vai ali no Seu Ciço e me pegue três pães francês e um comprimido de Melhoral. Esta dor de cabeça só pode ser gripe.

A mercearia era um pequeno quarto na frente da casa, na frente da qual ele passava o dia todo sentado numa cadeira de balanço, que já mostrava os efeitos do tempo. Digo o dia todo, menos naqueles períodos onde ele saia, provavelmente, para ver alguma moça imprevidente como eu, tomar seu banho com os trajes de Eva. Ou seja saí de perto do meu irmão safado, o Eraldo, e fui encontrar o Seu Ciço. Oh! sina a minha!

Ele já era um senhor bem passado em idade, talvez aí pelos seus 50, mas, com aparência de 49. Vivia sempre em traje de banho, isto é, de calção. Raramente o víamos de camisa, mesmo no inverno e em tempo de vento forte e chuvas que não eram raras naquela época. Hoje, cortaram os coqueiros, plantaram casas e acabou a chuva e o vento. Embora a paisagem seja outra, eu, depois de ter ido visitar o Pau-Grande, posso comparar as duas situações: numa só tem casas, noutra só tem capim. Mas, por muito tempo eu convivi com Seu Ciço, e até aprendi com ele, gostava de ouvi-lo.

Ele dizia que nascera naquela mesma casa e gostaria de ser enterrado lá mesmo, no quintal. Ao ouvir que não era permitido enterrar as pessoas em casa ele retrucava:

- E quem é que vai saber? Você vai contar é? Conto com você para me enterrar em segredo, e se você quiser me enterrar lá perto da praia, pode. Eu garanto se você tomar banho pelada de novo, eu me viro no caixão.

Eu não confiaria, mesmo que isto fosse possível. Entretanto, sempre achei romântica a ideia de ser enterrada na praia. Agora, morando em Paudalho, ficou mais distante para levar meu corpo sem ser visto. Mas, seria uma maneira de garantir meu lugar no paraíso se eu fosse enterrada na Praia do Janga daquela época, pois era um verdadeiro céu na terra. Não sei se enterraram Seu Ciço lá, mas se o fizeram, ele já se arrependeu. Não existe mais nada que lembre minhas andadas entre os coqueiros em direção a Pau Amarelo, nem minhas corridas na praia pela manhã. Na última vez que lá fui, havia um montão de pedras dentro do mar, como se fossem lixo de Deus, mas não era, era lixo dos homens, para evitar o que eles mesmo produziram contrariando a natureza. Até os coqueiros estavam acabando e já havia até outros estabelecimentos que certamente eliminaram o comércio do Seu Ciço, que não vi mais, e nem sua casa nem a de Francisquinha. O “progresso” estava lá, igual numa estória que Seu Ciço me contava, quando pegava um tamborete, eu e Joaquim marido de Francisquinha, e sentávamos perto dele, de frente do seu trono em frente à sua mercearia:

“Muitos pensam que vivemos nossa vida para sermos felizes. Mas, quem nos prometeu isto? Muito pelo contrário, nascemos para ser infelizes. Chorar o tempo todo. Se em algum momento paramos de chorar, já é lucro. Viver aqui nesta praia é uma bênção porque não nos dar vontade de chorar. Então sou muito feliz. Muitas vezes eu sinto uma vontade danada de chorar, ou seja, voltar ao meu estado natural de chorão, mas ai eu tomo uma água de coco, caminho na praia, tomo um banho naquela água limpinha, limpinha, e a vontade de chorar passa quase de imediato. Se algum dia me faltar estas coisas, aí sim, serei infeliz.”

Eu fiquei um tempo no Janga para comprovar que o Seu Ciço estava com a razão. Lá, minha vontade de chorar diminuiu muito, e quase sumiu, em comparação com São Paulo. E descobri que isto também ocorria lá no Pau-Grande. Lá eu nunca tive vontade de chorar porque as mangas, as jaboticabas, os umbus, as cajás, os cajus, não me deixavam. Mas o “progresso” chegou tanto lá com no Janga, e, ao voltar nestes lugares, me veio imediatamente a vontade de chorar, voltando à nossa condição natural de sofredores. Será que um dia ainda poderemos ser felizes?

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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