sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lula e a Guerra


Até que enfim o meu conterrâneo Lula está revivendo os tempos de menino, lá em Vargem Comprida, hoje, nossa querida Caetés. Mesmo dizendo que não sabia de nada, quando inquirido sobre quem roubou as frutas do sítio de Seu Zuza, para não apanhar de D. Lindu, ele deixou de andar com o Bastião, quando sabia que ele também afanava umas simples frutinhas. Afinal de contas o seu Zuza era rico, e aquelas frutas iam apodrecer no pé. Por que não distribuí-las entre nossas barrigas? Mas, o Lula era radical. Cortava relações.

Ele demitiu a Erenice. Não sei se a "galega" leu o Blog da CIT, e o falou sobre meu artigo passado (http://www.citltda.com/2010/09/escandalos-escandalos-e-escandalos-eu.html), e ele, num acesso de remorso por não ter apoiado meu projeto literário cultural para nossa cidade, resolveu agir diferente do caso do mensalão, dos aloprados, do Francenildo, e outros onde ele só não sabia de nada, e não queria punir inocentes até prova em contrário, demonstrando o seu grande senso de justiça, como o fazia na sua meninice, tempo em que foi necessário ele mandar o Bastião esvaziar os bolsos para provar que ele não havia roubado nenhuma fruta. O grande problema, era, que como nos outros casos, o Bastião, o Zé Dirceu, o Palloci, já haviam comido as frutas, ou como o Lula diz, não havia mais provas. Talvez ele tenha lido o Maquiavel, quando ele diz que as ações para o homem comum é uma coisa e para o príncipe é outra, e resolveu agir como o príncipe. Se ele não pune os suspeitos administrativamente, como esperar que a justiça, que no Brasil, tarda e na maioria da vezes falta, cumpra o seu papel?

Se aconteceu esta segunda hipótese, mostra que leitura, mesmo de Maquiavel, é uma boa para qualquer governante, mesmo que o chamem de maquiavélico, o que é uma grande injustiça com o famoso intelectual italiano. Antes o Lula dizia que não sabia de nada, mas se o caldo engrossasse ele demitiria, agora ele já demite para o caldo não engrossar. É uma pena que isto seja feito só agora em época de eleições. Mas, pensando bem, o bom disto talvez sejam as consequências eleitorais, para sua candidata, a Dilma. Pois ela jurava de pés juntos, que não tinha nada a ver com isto, e retirou dela aquela fama tão festejada pelos seus marqueteiros de gerente controladora e eficiente. Quando ela falou que o dossiê que saiu da Casa Civil, com informações sobre D. Ruth Cardoso, não passava da montagem de um banco de dados, todos acreditaram porque ela tinha controle total sobre seus subordinados, e a Erenice não seria doida de transformar aquele banco de dados num dossiê calunioso. Eu acreditei, como sempre.

E como todos sabem, a Dilma só mentia na época da ditadura para defender seus companheiros de armas e bagagens, como a vi espinafrar o Zé Agripino, por ele considerá-la mentirosa. Até hoje o pobre do senador não se recuperou, daquela intervenção numa reunião no congresso, e faz análise para descobrir o que é uma mentira piedosa e uma mentira cruel. Aquela foi uma mentira cruel para ele e piedosa para a Dilma. Alguém hoje está mentindo, a Dilma ou o Lula. Pelo jeito que a coisa andou parece que é a Dilma. Entretanto, como a Dilma é apenas o “avatar” de Lula, o culpado é ele, e por isso, tentou tirar o bumbum da seringa, demitindo a Erenice.

O problema, neste caso, ao contrário da quebra do sigilo fiscal, é que tudo se passava diante das barbas de Dilma e embaixo das de Lula, no Palácio do Planalto. E para a oposição, se for competente, vai tirar, pelo menos, uma “taxa de sucesso” de 6% no empreendimento: “Segundo turno ou morte”. E se forem mais competentes do que o Israelzinho, podem até chegar a uns 12% de queda da Dilma. Foi com esta taxa que o Lula se arretou, e demitiu a amiga, correligionária e substituta da Dilma, a mãe do Israelzinho, Erenice. Para Lula, isto não era novidade, pois suas barbas ficaram brancas desde Waldomiro e Zé Dirceu, mas, neste caso foi maior a repercussão interna e externa. Isto pode até sujar o seu prestígio, junto a comunidade internacional. Ele espera com a ato demissionário, ainda ouvir pelo menos a besteira que o Obama lhe disse um dia, que ele era o “cara”. Espero saber da Josenilda Duarte, o que estão dizendo lá pelas terras frias da Suécia.

Escrevi até este ponto para colocar o assunto numa perspectiva das pessoas da nossa cidade, Caetés, que ainda podem eleger o Zé da Luz, depois que a câmara de vereadores, decidiu que o que ele fez não tinha sido feito, e ele agora é um ficha limpa. Isto é música ruim para os ouvidos daqueles que ainda querem fazer crescer esta “plantinha frágil”, que é a Democracia em nosso país. Já pensou se a moda pega em nível nacional!? Na próxima legislatura, com a vitória que anunciavam para Dilma, o nosso Congresso poderia se reunir e decretar que a taxa cobrada pelo Israelzinho, havia sido só 2%, e isto era considerado normal. Que 6% era coisa inventada por um político “aético e derrotado”.

Hoje ao amanhecer, no meu laboratório favorito, que me oferta jornais diários fresquinhos, encontrei a coluna da Mirian Leitão, e descobri que era o que ela escreveu que eu queria dizer, mas não tinha uma assessoria, tão competente quanto a dela, a CIT, não me proporciona isto. Então, depois destas mal traçadas linhas, transcrevo aqui este artigo, visando aqueles muitos que não tem acesso a jornais diários ou laboratórios como eu.

“A grande guerra

A demissão de Erenice Guerra do cargo de ministra-chefe da Casa Civil não desobriga o governo de investigar o caso. Ele tem indícios escabrosos de tráfico de influência no coração do governo e está ligado a uma pessoa que desde 2002 tem trabalhado diretamente com a candidata Dilma Rousseff. Erenice é o elo entre este governo e o que pode ser o próximo. É preciso entender o que houve.

Há casos que começam simples e só com o tempo se complicam. Esse estourou já num grau de complexidade espantoso. A ex-ministra parecia ser um consórcio: dois filhos, dois irmãos, irmã, ex-cunhada, assessor, mãe de assessor, irmão da mãe de assessor, marido, todos de alguma forma envolvidos em negócios ou conflito de interesses dentro do governo.

Sua primeira reação, quando começaram a ser publicados os abundantes indícios de irregularidades que a cercavam, foi fazer uma nota com timbre e autoridade do Palácio do Planalto acusando o candidato adversário de ser "aético e derrotado". Mais uma inconveniência no meio de tantas, porque o primeiro a fazer era se explicar ao cidadão e contribuinte brasileiro.

Mas essa nota foi mais uma prova de que o Brasil não tem mais governo, tem um comitê eleitoral em plena e intensa atividade. A demissão de Erenice, que ninguém se engane, não é um tardio ataque de moralidade. É o resultado de um cálculo eleitoral. A dúvida era o que poderia atingir a candidata Dilma Rousseff - manter Erenice, insistindo na tese de que ela era vítima de uma jogada eleitoral, ou demiti-la para tentar reduzir o interesse no caso?

Nada do que foi divulgado pode acontecer num governo sério. Filhos de ministra não podem intermediar negócios, não podem cobrar "taxas de sucesso"; assessor de ministra não pode ser filho da dona da empresa que faz a defesa de interesses dentro do governo; marido da ministra não pode estar num cargo público que dê a ele o poder de decidir sobre o fechamento do contrato que está sendo negociado. Ministra não faz essas estranhas reuniões com fornecedores do governo. Há outras impropriedades, mas fiquemos nessas primeiras.

A manchete da Folha de ontem trouxe a arrasadora entrevista de um empresário que, munido de e-mails e cópias de contratos, diz que foi vítima de tentativa de extorsão ao pedir um empréstimo no BNDES. Além das taxas variadas e dos milhões que ele afirma ter sido pedido para a campanha da candidata do governo, chegou a ser pedido 5% num empréstimo de R$ 9 bilhões. Se ele fosse concedido, isso seria R$ 450 milhões.

Erenice Guerra trabalhou com Dilma Rousseff desde a transição, foi seu braço-direito, a enviada especial a missões difíceis, a pessoa a quem ela entregou o cargo quando saiu, em quem tinha absoluta confiança. O vínculo não é criado pela imprensa, não é ilação, são os fatos. Esse não é o caso apenas do filho de uma ex-assessora, como Dilma disse no seu último debate. Esse é um conjunto assustador de indícios de um comportamento totalmente condenável no trato da questão pública.

Não é importante quem ganha a eleição. É importante como se ganha a eleição. A democracia estabelece que o vencedor é aquele que tem mais votos e ponto final. Cabe aos eleitores dos outros candidatos respeitar a pessoa eleita, a estrutura de poder que ele representa e torcer pelo novo governo. Portanto, ao vencedor, o poder da República por um mandato. O problema é quando um grupo, para se manter no poder, usa a máquina pública como se fosse de um partido, quando um governo inteiro se empenha apenas em defender uma candidatura, e não o interesse coletivo, quando sinais grosseiros de mau comportamento são tratados com desleixo pelas maiores autoridades do país, sob o argumento de que se trata de uma briguinha eleitoral.

Nada do que tem acontecido ultimamente é aceitável num país de democracia jovem, instituições ainda não inteiramente consolidadas e desenvolvidas. Não importa quem vai ser eleito este ano, o que não pode acontecer é o país considerar normal esse tipo de comportamento que virou rotina nos últimos dias.

As atitudes diárias do presidente da República demonstram que oito anos não foram o bastante para ele entender a fronteira entre o interesse coletivo e o do seu partido; entre ser o governante de todos os brasileiros e o chefe de campanha da sua escolhida; entre popularidade e indulgência plenária para todo o tipo de comportamento inadequado.

O país pode sair desta eleição derrotado em seu projeto, o único projeto que é de todos os brasileiros: o de construir uma democracia sólida, instituições permanentes e a concórdia entre os brasileiros.

O caso Erenice Guerra é assustador demais para ser varrido para debaixo do tapete. Os indícios são de que a punição aos envolvidos no escândalo do mensalão, que agora respondem na Justiça por seus atos, não mudaram os padrões de comportamento dentro do governo. A Casa Civil não pode estar sempre no noticiário de escândalos. É, na definição da candidata Dilma Rousseff, o segundo mais importante cargo do governo. Se é tudo isso, que se faça uma investigação do que havia por lá. Mas que não seja mais um "doa a quem doer" de fantasia; que não seja a apuração que nada apura, que perde prazos, que confunde e acoberta. Não é uma eleição que está em jogo. Ela pode já estar até definida a esta altura, com tanta vantagem da candidata governista a 15 dias da eleição. O que está em jogo é que país o Brasil escolheu ser, neste momento tão decisivo de sua história. Essa é a verdadeira guerra.”

Ainda resta uma esperança, que, dizem, é a última que morre. Mesmo na guerra.


Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

Nenhum comentário: