sexta-feira, 24 de setembro de 2010

LULA



Este fim de semana, entre um blog e outro, levei meu neto ao zoológico. Como dizia o meu conterrâneo Alexandre Vieira, pense num passeio bom! O Horto de Dois Irmãos está muito mais organizado do que antes, quando eu ainda levava meus filhos lá. Lembro como se fosse hoje, quando quase morri de medo quando uma filha minha deu um grito perto de uma das jaulas, e eu, sem saber o que tinha acontecido, esperei pelo pior: o Papa-Mel a havia pegado. Felizmente, foi só um arranhão no dedo, sem maiores consequências. Agora as jaulas tem proteção para crianças e parecem mais limpas.

Mas, aqui referir-me-ei apenas a um dos animais, pelo qual, desta vez, meu neto ficou encantado com ele. O Pota, como chamam um hipopótamo que vivia há 28 lá, quase toda sua vida de seus 34 anos. O meu neto ficou surpreso e talvez com um pouco de medo, quando ele abriu aquela bocarra, como é costume entre a sua espécie. Eu também, nunca na história deste país vi uma boca tão grande.

Eu não conheço os hábitos dos hipopótamos, e apenas imaginarei os hábitos do Pota, e começo com uma notícia triste. Ele morreu recentemente, nas mãos de médicos veterinários, que, dizem, tentavam salvar sua vida.

Como todos os animais do Zoo ele veio de fora e passou toda sua vida tentando se adaptar ao novo habitat. Ele deve ter sido livre numa floresta junto de sua família e correndo pelos campos e mergulhando nos rios e lagos. De repente, faltou comida. Sua mãe, tentou emigrar para outra região, mas no caminho deve ter encontrado caçadores de animais, que o colocaram num pau de arara e o trouxeram para o Zoo. Não se sabe o que aconteceu à mãe dele.

Com o tempo ele se habituou tanto ao novo lar, que achava que era o rei do pedaço. E era mesmo. Todos os animais o reverenciavam, diante daquela boca enorme. Uns por inveja e outros por medo. Ele deitava e rolava no Zoo. Quando chegava a criançada, ele ficava à vontade e começava a se exibir, principalmente, quando senhor de sua popularidade, defendia algum outro animal para se apresentar para as crianças, seus pais e avós, como eu. Uma vez era o leão, a quem ele dizia, "se alguém der mole, você engole". "Principalmente se for rico, e pertencer aos 4%." Outras vezes era a hiena, a quem dizia, "se eles bulirem com você, chore, chore muito, eles não aguentam ver ninguém chorando, e o trazem logo de volta".

E assim continuava, com a criançada cada dia mais entusiasmada com a performance do Pota. Gritos de admiração ecoavam de fora da jaula. “Que belo!” “Que inteligente!” “Não estudou, mas dá de dez nestes macacos julgados intelectuais!” E assim por diante.

Durante este período de glória, esta foi tanta que o Pota esqueceu de fazer uma obrigação básica, que antes não esquecia. Ele parou de usar os dentes com alimentos que diminuíam suas presas enormes. Com uma popularidade no Zoo de quase 80%, não havia necessidade deles, pois não havia mais animais que tivessem a coragem de brigar com ele. Houve uma acomodação natural. E o resultado foi o crescimento excessivo dos seus dentes. Chegou a um ponto, que apesar dos usuários do zoológico admirarem e temerem aqueles dentes enormes, o Pota ficou numa situação de risco de vida, pois as presas enormes não permitiam mais ele comer e mesmo fazer a coisa que ele mais gostava, que era se exibir em público.

Alguns animais tentaram lhe alertar sobre os perigos de continuar abrindo a boca com aqueles dentes enormes, mas ele continuou enquanto pôde. Quando viu que não era possível mais continuar, escolheu um animal para fazer sua função, ser seu substituto. Sem consultas a outros animais mesmo de sua jaula, se decidiu por uma anta, pelos seus dotes como gestora da caverna das hienas. Seus últimos dias foram dedicados a alardear as boas qualidades da anta, dizendo que não haveria solução de continuidade nas atividades zoológicas, com a anta como principal anima do horto. Uns acreditavam e outros não.

Chegou um ponto, então, que os veterinários, vendo que ele não poderia sobreviver com os dentes enormes como estavam, resolveram utilizar um último recurso: Serrar os dentes do Pota. Infelizmente, ele não resistiu ao procedimento. Os veterinários explicam que era uma situação de alto risco, pois ele tinha já duas toneladas, e era difícil resistir ao pós operatório, pois a anestesia poderia produzir um choque, quando ele acordasse e tentasse se levantar. Foi, o que ocorreu, logo após acordar o Pota, teve uma parada cardíaca e deixou todos tristes, e com saudade de sua boca enorme.

Um dos veterinários contou, logo após sua morte e incineração, que ao abrir os olhos ele viu que a anta que ele escolhera para substitui-lo, o havia traído com uma amiga de longa data, uma hiena, que trabalhava a algum tempo com ela. Descobriu-se que a hiena alimentava um filho, sem sua autorização. Além disto, quando o Pota viu que, devido a esta traição, os animais resolveram não colocar mais a anta em seu lugar, pensando que ela fosse conivente com a hiena, ficou transtornado. Talvez tenha sido esta a causa verdadeira de sua morte.

Pelo que se sabe, os animais escolheram um animal novo, que havia chegado recentemente da floresta amazônica: um boto cor-de-rosa, acreditando nas suas promessas de que, além de divertir a criançada com seus pulos no lago, prometia manter a sustentabilidade ambiental no horto.

Eu estou ansiosa, e meu neto também para ver o boto, embora eu tenha sentido muito pelo Pota, que viveu e morreu pela boca, mas, pelo menos divertiu a criançada.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

P.S.: Mesmo que tenham surgido alguns boatos, neste sentido, não há prova nenhuma de que o Pota tenha sido assassinado, ou que os veterinários tenham usado uma serra inadequada para o procedimento.

LP

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