sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mulheres de Bom Conselho, no Brasil e na Suécia


O que segue é um diálogo franco e prazeroso, pelo menos para mim, entre dois seres humanos que defendem a autonomia intelectual da mulher. Uma, “euzinha”, no Brasil e Josenilda Duarte, na Suécia. Ambas brasileiras e bom-conselhenses da gema (se a Josenilda não nasceu em Bom Conselho, é pelo menos bom-conselhense da clara). Juro, pelo Padre Alfredo, que estou muito orgulhosa com esta conversa, mesmo que nossas histórias de vida tenham sido tão diferentes, que ela parecia impossível. Leiam o que ambas escrevemos e vejam que, apesar de meus achaques machistas, temos mulheres de nossa terra, que parecem curadas deste mal, que tanto nos corroeu e ainda o faz, em nossa santa terrinha.

Lucinha Peixoto

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Lucinha

Escrevendo torto em linhas certas, como afirmou o grande crítico literário e político, Zezinho de Caetés, pensei muito se deveria ou não
responder ao Blog da CIT, específicamente à você Lucinha Peixoto , e defender a minha autonomia intelectual de mulher em relação ao meu
irmão Jodeval Duarte.

Meu respeito profundo e intelectual para com um grande íntegro jornalista e escritor, Jodeval Duarte, que por acaso do destino e da união
de dois seres, me fiz a irmã dele para o meu eterno orgulho, não quer dizer que eu não tenha a minha própria formacão de pensamentos e
obras na minha identidade de mim mesma e não do meu irmão.

Indo direto aos fatos e boatos desse, blog em 10 agosto no artigo de Lucinha O apedrejamento nos fez pensar mais (http://www.citltda.com/2010/08/o-apedrejamento-nos-fez-pensar-ainda.html), começa com a eterna
retórica machista de que a mulher depois dos 30 “já está com uma certa idade” e o homem na flor da idade, sic, esse foi acréscimo meu!
Tentei encontrar ironia no anunciado texto de Lucinha, li até o fim e não encontrei nenhuma.

O que me surpreende são as afirmações conformistas que transparecem no texto da escritora, em mínimas coisas, como o óbvio de que em
primeiro lugar está o direito do homem "ler primeiro o jornal" e a mulher ler o " jornal já amassado". O simbólico é que aceitamos, nós
mulheres, esses mínimos atos até aos máximos, o “amassado” no cotidiano da vida, dando o primeiro lugar ao homem. Esses atos “amassados” na
casa, fora de casa, no texto, no trabalho, na escola, na vida, são estarrecedores. E olha que não estamos no Irã!

O apedrejamento, atraso secular do Irã, se faz ainda o verbo encarnado no presente da vida das mulheres mesmo em países a caminho da
modernidade ou em países já na modernidade, quando ainda recebemos o amassado que vem atrás do homem. Até mesmo aqui em plena super Suécia!

Continuando com o apedrejamento, Lucinha atira pedra em Lula e em Fidel, misturando o político e o atraso religioso que é o caso do Irã e
aqui entra o eterno Zezinho, grande crítico, que reconhece os defeitos que os Lula vem do PT, sic! E ai entre as pedras, o PT, Lula, Fidel,
Zezinho e os bandidos de São Paulo, perdi-me na compreensão do texto de Lucinha.

Pulei esse ponto e cheguei a onde Lucinha começa com A GAZETA e ai pensei, lá vem chumbo! Deparei-me com uma retórica machista vindo de um
texto de uma mulher o que é a razão da minha defesa. Essa afirmação machista da autora quanto a possibilidade do meu voto ser para Dilma e
não para Marina, por não "querer trair o irmão eleitoralmente" me leva aqui a duas vezes sic, sic pelo seu sustentáculo ao pensamento
machista, Lucinha!

Respondendo a essa essa afirmação por escrito de Lucinha:
- posso votar aqui da Suécia apesar de morar em Göteborg, voto na Embaixada do Brasil em Estocolmo,
- meu voto não é secreto, é de DILMA e não de Marina e não é medo de apedrejamento por palavras e obras do mundo machista de quem quer que
seja, nem sequer do meu irmao Jodeval a quem é o meu refencial de orgulho intelectual, como já afirmei aqui.

MEU VOTO É IDEOLÓGICO, MEU VOTO É DILMA

- quanto ao medo de trair meu irmão, não existe, até porque me fiz desde os anos 70 a mulher que hoje sou sem o medo a Deus nem Diabo,
porque hoje ultrapassei o medo do pecado. Meus irmãos sabem disso e aprenderam a me respeitar como mulher com o mesmo respeito que eu tenho
por eles como homens.

Quando me exilei em 74 para Portugal com a ajuda de Tânia Bacelar, não foram meus irmãos que formaram a minha opinião política, fui eu
mesma quem me fiz. Assumi todo e qualquer consequência de exílio sem ser a “mala” dos intelectuais, homens, exilados políticos.

Conheci Gabeira nos anos 80 em Estocolmo, nunca concordei com ele mesmo ele sendo as estrelas das estrelas entre os exilados. O que quer
dizer que não acrescenta nada, pelo menos para mim, o apoio de Gabeira à Marina.


O QUE ME FAZ NÃO VOTAR EM MARINA é a volta que ela deu a si mesma e a sua retórica, onde hoje ela faz da sua retórica é uma colcha de
retalho onde todo mundo entra e não nega que se presidente for fará aliança com TODOS OS PARTIDOS (palavras dela) onde entra um pedaço do
neoliberalismo de FH e outro pedaço do governo que deu certo de Lula. Sem contar que ela mesma afirmou que todos os partidos tem um pedaço
que ela pode seguir. O que quer dizer, Lucinha que ela não se sente completa para ser Presidente. Ela necessita de pedaço de FH, de Lula,
de Collor, de Michel Temer. O pedaço dela mesma ficou pequeno. Até porque Lucinha essa é a linha ideológica do neoliberalismo. E não é só
isso, Marina perdeu nos bastidores do poder o caráter definido dela mesma que ela tinha.

Meu anunciado voto à DILMA, sem segredo e sem medo, é a minha definição de mulher exilada e política que nunca cheguei ao ponto de
guerrilheira de Dilma, o que muitos homens não foram no Brasil. Isso sou eu, como mulher, quem digo e não Jodeval! Mas também não
necessito justificar o meu voto. Voto em Dilma e pronto. Já é a minha razão.

E não se preocupe com a idade das meninas ou dos meninos que estão ao redor de Jodeval, mais do que você, conheço a dignidade do meu irmão.
Ele não é homen de impor a sua ideologia. Mas uma coisa você mesma deve saber que herdamos o social de casa, isso é um fato velho e
constatado. Isso faz parte do show da vida.

Usando a sua palavra, eu sou a minha própria individualidade entre os meus irmãos e eles me respeitam. Fique certa que me fiz a mulher que
sou mesmo entre os Gabeiras da vida nos meus caminhos de exílio ou mesmo entre os meus irmãos, Jodeval, Marlos, Clério ... tenho minha
identidade: Josenilda Duarte, por acaso irmã de Jodeval Duarte. Seu voto: Dilma. Sua ideologia: um Brasil que hoje é com Lula e que será
mais ainda com Dilma e que conquistou o respeito pelas essas Europas.

O resto é bagatela de briga de eleitorado porque nos bastidores do poder todos, mas todos mesmo se unem e Marina vai fazer o mesmo porque
ninguém se faz só. Até porque a retórica dela hoje não é a mesma que a fez. E, até Deus para ser Deus necessita dos nossos pecados, da
existência do Diabo e da fragilidade dos homens de não serem completos sem a existência de um Deus acima deles. E da mulher de ser a eterna
costela de Adão, a eterna pecadora vítima das pedras ou de uma outra mulher que afirma que ela não tem opinião formada, necessita de um
irmão para formar a sua opinião.Dessas histórias da já sai a muito tempo.

Josenilda Duarte - maria.felix_duarte@comhem.se
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Prezada Josenilda,

Existe um ditado aqui entre nós, e tenho certeza que você lembra, que diz: “ri melhor quem ri por último”. Eu penso que poderíamos adaptá-lo, neste momento, para: “responde melhor quem responde por último”. Antes de fazê-lo, no entanto, devo dizer-lhe umas palavras, que espero, contundentes mas fraternas.

Para mim, é uma satisfação enorme, receber uma mensagem sua. Mais ainda quando esta mensagem vem com uma resposta às minhas diatribes escrevinhatórias no nosso Blog da CIT. Pode não ter sido a melhor mensagem que recebi na minha vida, mesmo contando minha vida anterior à internet, mas, certamente, foi a de mais distante. Quando lia você no Blog do Jodeval, - que depois do que li na sua mensagem deveria ser renomeado para Blog da Irmã, pois faz muito tempo que ele não escrevia para ele, por seus afazeres jornalísticos, deixando nele escrever apenas gente de menor valor intelectual como Fidel Castro e alguns outros marxistas cansados de guerra – eu, que ainda tenho medo do pecado, ficava correndo para a Igreja para confessar a inveja que sentia de você, por estar na Suécia, lugar de onde só imaginamos as mulheres louras e livres do pecado, bem alimentadas pelo Welfare State, que não sei se ainda continua por aí. Quando me diziam que lá a taxa de suicídios era muito grande, eu sempre dizia que era óbvio que isto acontecesse. Todas, como você, ultrapassaram o medo do pecado, pensando não os ter, morrem para ir para o céu. Aqui no Brasil, ao contrário, todos pecadores e famintos, não tem garantia de céu nenhum, a não ser o Bolsa Família e agora a Sopa da Prefeita, matam e votam até na Dilma, por causa dela. Morrer não.

Eu conheci, em minha infância em Bom Conselho, seu pai, e os filhos e filhas dele, apenas de vista. Posso até já ter lhe visto, se você é minha conterrânea. Mas, isto só viria ao caso se você tivesse com planos semelhantes aos meus de candidatar-se a vereadora em 2012. Como sei que seria pelo PT e eu pelo PV, convém partirmos para conversar sobre as nossas diferenças, ao invés de nossos semelhanças, como por exemplo, sermos mulheres, e acharmos que isto não significa muito, se ficarmos chorando pelos cantos, que somos diferentes dos homens, enquanto eles se aproveitam de nós. E quanto a isto, você está certíssima. De quando em vez, eu me traio e dou uma de machista. Não consegui ainda superar toda aquela minha formação, mesmo que tenha dado outra aos meus filhos. Mas, ah, como eu desejaria isto? Certas horas tenho vontade de esfregar o jornal amassado nas fuças dos machos lá de casa. Ainda me refreio pois ainda não ultrapassei o medo do pecado, e como gosto daquele danado velho! Machismo de novo, eu sei, não posso me exilar na Suécia, embora quem sabe, se no próximo governo, não façam comigo o que fizeram com você no passado, o que eu sinto muito?

Vamos às diferenças portanto. Quanto ao Zezinho de Caetés, este está mais alegre do que pobre no dia da Sopa da Prefeita lá em nossa terra, por você o tratar como crítico literário e político. Ele já está pensando em voltar para a terra dele e se candidatar a prefeito, já que consideraram um político de lá, ficha suja, parece que é o João da Luz, ou coisa parecida. Será que na Suécia tem ficha suja? Aqui tem aos montes. Mas, isto eu deixo com ele próprio para lhe agradecer.

Quanto aos elogios a seu irmão, o Jodeval, este com certeza meu conterrâneo, ainda não começamos nossas diferenças. É um dos nossos melhores jornalistas e escritores. Eu apenas discordo com ele quando ele escreve sobre o processo eleitoral mais com o desejo do que com a realidade, tirando a Marina do páreo antes do tempo, no Editorial de A Gazeta, e acho que devia agir mais como jornalista do que como eleitor. Sei que é difícil fazer isto no burburinho em que nos encontramos nestas eleições. No entanto, temos que nos policiar. Pode até ser que eu esteja errada, mas dizer, baseada em pesquisas, que sempre são fajutas quando nosso candidato perde e na imprensa que sempre é golpista quando nos é contrária, é uma temeridade.

Hoje temos escândalos de todo lado, para não dizer crimes do mais baixo nível, e que ninguém descobre quem é o criminoso. O Zé diz que é a Dilma e Dilma diz que é o Zé. Mas, nunca se viu nenhum dizer que é Marina. A classe média pode reverter o quadro, colocando-a no segundo turno. Mesmo sendo sua vitória difícil, porque quem decide a eleição neste país em nossa era são os bolsistas familiares, quem sabe ela não pode surpreender? Sei que ela ainda, como eu, não ultrapassou o medo do pecado e não sabe mentir, prometendo dobrar o valor do Bolsa Família. Se ela fosse católica eu a emprestaria meu confessor e ganharíamos as eleições, mas ela é evangélica.

Você diz que seu voto é ideológico, vota na Dilma. O meu também o é, e voto na Marina. Minha ideologia é a do desenvolvimento sem queimar o Brasil e o planeta, se é que chegaremos ao próximo ano sem incendiarmos todos juntos. Mas, qual é a sua ideologia para votar na Dilma? A mesma do Lula? Penso que não, porque você fala contra o neoliberalismo, e nisto concordo com o Zezinho, nunca houve um governo tão neoliberal como o do Lula, e Dilma promete segui-lo, em pensamentos palavras e obras. Quem quer fugir disto é o Zé Serra, refém de sua formação Cepalina, que acha, por outros motivos que a Dilma, que o Estado pode fazer tudo. Assim como o Lula, nenhum deles mudará os princípios que o FHC implantou em nossa economia. E aqui devo ser franca e sincera, nem a Marina o fará. Os banqueiros estão descarregando rios de dinheiro na campanha de Dilma esperando que ela mantenha a palavra com eles de que quem governará serão o Palocci e o Meirelles. Então ideologia por ideologia, eu voto na Marina, pela diferença verde.

Eu não sei como você diz que o Lula e a Dilma conquistaram a Europa quando o apedeuta-mor, depois do caso do Irã, passou a ser visto como aprendiz de ditador, além de suas terríveis falhas na política externa, tentando fazer do Brasil uma potência de mentirinha, levando uma imagem de que foi ele que tudo conseguiu nos últimos anos em termos de avanços sociais. Qual a ideologia nisto envolvida, além do neoliberalismo estendido até as últimas consequências? Você diz ainda que não vota em Marina por que ela deu voltas sobre si mesma e está querendo fazer alianças com todo mundo. Eu digo que, pelo menos ela quer escolher entre os bons, não sei se vai conseguir, mas o Lula só se conluiou com o que pior existe na política brasileira. Quando vemos, Collor, Sarney, Renan, Jáder, Zé Dirceu e tantos outras figurinhas carimbadas da corrupção brasileira, pedindo voto para Dilma, eu penso duas vezes antes de entrar na política. Ora, com 80% de popularidade, o povo sempre escolhe Barrabás, mesmo tendo Marina.

Para mim também não representa nada o apoio de Gabeira a Marina. Gabeira é a prova de que se pode ter sido exilado e guerrilheiro e mudar de ideologia e de opinião, mesmo que eu não concorde com elas todas. Mas nem com todos acontece isto. Por exemplo, com a Dilma não aconteceu, e vai dar uma volta do Lula, mesmo que ele ache que está com a bola toda.

Você diz que eu, quando escrevo, de vez em quando tenho uns surtos machistas, e isto mostra sua acuidade e perspicácia na leitura dos meus artigos. Já eu não encontro estes surtos com frequência na sua escrita. No final de sua mensagem, no entanto vejo a seguinte frase: “...vítima das pedras ou de uma outra mulher que afirma que ela não tem opinião formada, necessita de um irmão para formar a sua opinião”. Se, esta mulher a que você se refere for eu, e o irmão é o Jodeval, então houve uma má interpretação do que eu escrevi a seu respeito, ou foi apenas um surto feminista, que para mim é um machismo às avessas, de sua parte, de nunca pensar como um irmão. E como Dilma, você pensa?

Josenilda, foi um grande prazer dialogar com você, e espero um dia nos encontrar para conversarmos, pessoalmente, espero que em Estocolmo. Já que você, não necessita do seu irmão para fazer sua cabeça, e sei que ele não muda de opinião, nem que a vaca tussa, não é demais pedir que, quando for à capital votar para presidente, vote numa mulher e não em Lula, o maior machista do planeta que escolheu a Dilma como mãe do Brasil porque Marina não se sujeitou a continuar com a farsa petista, nem quis ser a tia.

Um abraço de

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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