quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A nota da CNBB

A terra romântica do flamenco e Dom Quixote, e
de señoritas de aparências exóticas, é também a
terra de Torquemada, da Inquisição Espanhola...”

Sidney Sheldon (escritor.)


Em meados de julho último, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou uma nota violenta na sua página na internet, assinada pelo bispo paulista, Luiz Gonzaga Bergonzini. Dali em diante, a dita nota passou para vários blogs e outros veículos de comunicação. A CNBB pedia que ninguém votasse na candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff. Acusando-a de ser a favor do aborto. Ao tomar conhecimento daquela extravagância, a ex-ministra respondeu com muito equilíbrio, usando a razão, como sempre.

Quem sabe, faz. Dilma Rousseff disse que não é a favor do aborto. Nem ela, nem o presidente Lula. Porque o aborto é uma violência contra a mulher. Indo mais além, a candidata Dilma adiantou que aborto não é questão religiosa. É assunto de saúde pública. E citou os milhares e milhares de mulheres que fazem abortos, utilizando-se de agulhas de crochê etc. E que os governos têm a obrigação de olhar para esse drama.

O que a ex-ministra Dilma disse sobre o aborto, é pura verdade. Ele é questão de saúde pública, não religiosa. E muitas e muitas mulheres morrem por falta de socorro. Faltam-lhes orientação, assepsia e tantos outros itens mais do que necessários, em certas ocasiões, quando optam por um aborto. Às vezes optam por necessidades, outras vezes por falta de esclarecimentos. E até por ignorância. São abortos feitos em fundos de quintais, por parteiras sem habilitação e, muitas vezes, desonestas. Também, por médicos que não respeitam a ética. Ou seja, médicos desonestos, em clínicas improvisadas, às escondidas.

No centro do furacão causado pela CNBB, logo depois surgiu o padre Geraldo Martins, falando em nome da instituição. Este veio a público e disse que a própria CNBB resolveu retirar a nota da imprensa para não criar mais confusão. - Ainda bem que essa CNBB entendeu que em nada ajudou. Só fez mesmo criar confusão e mais se desgastar. Triste daqueles que não olham para a própria cauda. E quando têm rabo preso ao passado e ao presente, deveriam pedir perdão à humanidade pelos atos cometidos. Isso faz sentido.

O próprio presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, tentando suavizar o impacto negativo daquele despropósito, participou de reunião com a ex-ministra Dilma Rousseff, no dia 19.8.2010. E de lá saiu dizendo-se satisfeito. Para mais amaciar, só se disse preocupado com o problema de falta d’água no país. E a candidata Dilma Rousseff, num gesto desprendido, ainda elogiou dom Geraldo e a sua (dele) CNBB.

Fico com a orelha em pé, sempre que representantes da Igreja Católica dizem, tão fervorosamente, que são a favor da vida. Será que esse bispo que assinou a nota da CNBB não conhece as maldades do Opus Dei? Ele deveria investigar por que o Vaticano mantém o Opus Day, em pleno século XXI. Essa é uma questão política e religiosa do Vaticano. Ao que parece, o Opus Dei é a face danosa da Igreja Católica. Mas ele conta com toda a complacência da alta cúpula do Vaticano. Nada indica que o Opus Dei seja a favor da vida! O que se sabe, é que essa congregação quase secreta é a favor do luxo, do dinheiro, das pompas etc. Mesmo que esses mimos lhe cheguem por meios ilegais e desonestos.

O Opus Dei foi criado em 1928, pelo padre espanhol, Josemaría Escrivá (sempre os espanhóis!) Notem bem que o Opus Dei foi fundado no começo do recém-findo século XX. E está em plena atividade. Sendo assim, por que a Igreja Católica não cuida de fazer uma limpeza nos seus quintais? Não faz uma reciclagem nos seus domínios? Talvez, se assim o fizesse, até pudesse, depois, dizer em quem o povão deveria votar, ao surgirem os candidatos a governantes! Mesmo sabendo nós que o nosso país é laico!

Aos fatos: alguns se recordam de que em 1980 a imprensa mundial estampou que o Opus Dei remeteu ao “Instituto de Obras Religiosas” (IOR), do Vaticano, cerca de 1 bilhão de dólares. O IOR equivale ao Banco do Vaticano, que estava à beira da falência. O "Instituto de Obras Religiosas" (IOR) e o Banco do Vaticano são a mesma pessoa. Então, o Banco do Vaticano, na época do escândalo, era administrado pelo arcebispo estadunidense, Paul Marcinkus. Este ficou muito conhecido por se haver envolvido num dos maiores escândalos financeiros do Vaticano. Isto é, a quase falência do banco da Igreja. Curiosamente, a mais nova e mais luxuosa sede do Opus Dei fica em Nova Iorque.

Logo depois desse agrado patrocinado pelo Opus Dei em favor do Banco do Vaticano, o então papa João Paulo II, fez mimos e mais mimos ao Opus Dei e ao seu fundador. Vejam: Josemaría Escrivá morreu em 1975. Em 1992, João Paulo promoveu a sua “beatificação”. E, em 2002, o mesmo João Paulo II ”canonizou” Josemaría Escrivá. Portanto, em apenas 27 anos, João Paulo iniciou e concluiu um processo (de "beatificação" e "canonização"), coisa que dura, em média, um século.

Mas antes disso e imediatamente após a "salvação" do Banco do Vaticano, pelo Opus Dei, João Paulo já tinha elevado o Opus Dei à prelazia especial do papa. E havia endossado todas as práticas daquela organização de ações suspeitas!

Há poucos meses, o jornal O Globo publicou matéria dando conta de que a Justiça italiana estava investigando o Banco do Vaticano, por possível lavagem de dinheiro ilegal. Ressalte-se que estando esse banco situado no Estado do Vaticano, fica isento das normas vigentes no mercado financeiro da Itália, para os demais bancos.

Na doutrina do Opus Dei, a mortificação tem valor extraordinário. Mas essa mortificação é para os que estão no andar de baixo. Notem que, dos 85.000 membros do Opus Dei, 98% são leigos. Só 2% são sacerdotes. Assim, muitos e muitos são explorados, em nome da "salvação eterna". Alguns, de boa fé, supomos. Outros, por pura ignorância. E Josemaría escrivá é chamado de santo, em todos as citações de cunho católico.

Observem esta frase do papa João Paulo II: “São Josemaría foi um mestre na prática da oração, o que considerava uma extraordinária ‘arma’ para redimir o mundo. Ele recomendava sempre: ‘primeiro, oração; depois, expiação; e, em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, a ação.'” Palavras do papa João Paulo II, que o "canonizou". – Está provado por que a Igreja não costuma ter ação, quando as pessoas mais necessitam de ações vitais.

Expiação, mortificação, autoflagelação etc., são a mesma coisa e são herança medieval. Com todo o respeito ao povo espanhol, não me custa informar que os espanhóis ainda hoje costumam flagelar-se, durante as Semanas Santas. Foi de lá que saiu Josemaría Escrivá.

O Opus Dei é um apêndice nebuloso da Igreja Católica. E é uma nódoa atual. Há quem considere o Opus Dei como sendo o braço armado da Igreja. Nos seus princípios, essa confraria tem em vista o conservadorismo mais estúpido possível. Mas é apoiado pelo poder político, econômico e “religioso” da Igreja Católica. Porém, tenta dissimular esse seu lado sombrio, sob um quase anonimato. Ele fica encastelado nos luxuosos palácios, de onde trama as suas ações, ignorando totalmente a ética e o respeito ao próximo.

Muito oportuno salientar, também, que o Opus Dei discrimina muito as mulheres. Até humilha! Nas suas sedes, as mulheres só servem para tratar das tarefas domésticas, fazerem orações e penitências, além de terem de cuidar de tudo para os homens da congregação. - Coincidentemente, foi contra a mulher Dilma Rousseff que a CNBB se insurgiu. Para a Igreja, com seus preconceitos, mulher não pode ordenar-se padre. Isso foi ratificado, com ênfase, pelo papa João Paulo II, em maio de 1994. Ora, se a mulher não pode nem ser padre, também não pode nem deve governar o Brasil. Essa é mais uma visão míope da Igreja Católica.

Essa concepção medieval da Igreja contra as mulheres tem a ver com a fantasiosa história da “maçã”. Pois, segundo nos ensinaram, foi Eva que ofereceu a maçã para Adão. E por que não poderia ter sido Adão que ofereceu a cenoura a Eva? Outra: se Adão não houvesse comido a maça de Eva, como se desenvolveria a pretensa máxima bíblica do “Crescei e multiplicai-vos”? Mas a Igreja precisava responsabilizar a mulher pelo “pecado original”. Então, inventou que Eva foi a culpada nessa história da maçã. E por isso, a mulher deve ser considerada "inferior" e devedora, por toda a sua vida. – Por falar na maçã, relembro aqui a saudosa marchinha de carnaval de muitos anos atrás, que diz: “A história da maçã, é pura fantasia; maçã igual àquela o papai também comia.”

O papa atual já mandou ou pediu aos “fiéis” que façam muitas penitências, para redimir os pecados da Igreja Católica. Mas não são só os “fiéis” que devem pedir perdão à humanidade, pelos delitos da Igreja, não. Os membros efetivos da Igreja devem fazer penitências dobradas nesse sentido.

Agora, voltemos ao século XX. Mais precisamente à Segunda Guerra Mundial. A Igreja Católica manteve boas relações com o nazismo. O Partido do Centro Alemão, de inspiração católica, votou a favor da implantação da ditadura nazista em 1933, em troca de uma concordata. Isso ocorreu cinco anos após a fundação do Opus Dei. Mais: em 2005, o Vaticano reconheceu ter mantido escravos durante o nazismo. E confirmou que, posteriormente, indenizou alguns deles.

Poderíamos continuar estas linhas. Mas iria tomar muito espaço. Assim sendo, bastam estas palavras para mostrar parte das evidentes contradições da Igreja Católica. Assim, por que a CNBB se arvora no direito de dar aulas de boa conduta? Querer impingir ao povo que fulano ou fulana não presta para governar o país, porque defende o aborto ou os contraceptivos etc., é abuso desmedido. Que os bispos da CNBB olhem um pouco para trás, é um bom conselho. Mesmo que eles digam que não precisam de conselhos. - É ISSO./.

José Fernandes Costajfc1937@yahoo.com.br

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