segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O SUSTO



Algum tempo atrás, fui ao Bradesco na Rua do Imperador, sacar algum trocado para o final da semana. Andando pela triste e a decadente Avenida Guararapes, em direção ao estabelecimento bancário não pressenti que estava sendo seguido por um menor de idade. Ao atravessar a Avenida Dantas Barreto para a Praça da Independência, senti uma mão bruscamente no meu bolso. Consegui agarrar o pulso do meninote, mais ele desvencilhou e sai correndo pela rua soltando a chave da casa e o terço quando viu que não tinha atingido o objetivo, que era dinheiro. Sacudiu estes objetos no chão e saiu em direção a Igreja de Santo Antonio. Fiquei trêmulo e segui para o referido Banco. Lá encontrei Lourival, amigo residente em Jardim Atlântico, ao qual detalhei este episodio. Ele riu e disse que o Recife estava abastecido destes pequenos larápios. Com ele aconteceu na Siqueira Campos, quando um destes “garotos” enfiou a mão no bolso e conseguiu levar cem reais e desapareceu em direção ao Palácio da Justiça, e veja que ironia. Sai do Bradesco em direção aos Correios, passando pela Rua Primeiro de Março e seguindo pela Pracinha do Diário. Coincidência ou não, ao chegar à esquina da loja da Tabira Filmes na esquina com a Avenida Dantas Barreto, esbarrei numa pessoa, e quando dei por conta era o “meninote” que tinha colocado a mão no meu bolso e soltado os objetos na rua. Tomei um susto e ele também. Disse, rindo para mim, de novo Doutor? Parou e ficou sorrindo em tom e debochando da infeliz coincidência. Parei e o chamei. Ele se achegou perto de mim, desconfiado e, eu mais ainda, mas não relutei em pergunta-lhe o porquê daquela vida. Ele, respondeu a fome Doutor. Não é fácil viver com fome. Já são quase meio dia e ainda não coloquei nada na boca, apenas um picolé gelado de morango o que deu ainda mais sede. Não tenho trabalho e ninguém me dá emprego. Vivo revoltado com tudo e com todos. A minha família não presta. O meu pai é um beberrão, vive caindo pela “tabelas” e “esquinas” chegando a casa bate em todos os meus irmãos, que são cinco. O mais novo tem seis anos. A minha mãe, vive pelas esquinas, andando com homens. Bebe às vezes e, quando isto acontece bate também na gente. A nossa casinha em uma encosta tem dois quartinhos, a única coisa se salva é bela vista, onde avistamos os edifícios iluminados dos ricos e poderosos. Pois, é Doutor já fui preso várias vezes por pequenos furtos, vê aquele posto de Policia, apontando para a Pracinha do Diário, ali já fui várias vezes, com alguns companheiros. Já passei pela Unidade de Menores, lá passando dois meses, sai pior do que entrei e no mesmo instante tomei uma bolsa de uma idosa que ia saindo do Banco. Corri pelas ruelas do bairro de São José e me escondi em um esconderijo existente em uma rua, tirando o dinheiro da bolsa e jogando no lixo a bolsa com outros papeis. Não estudei, mesmo em escola do Governo, pois sou um revoltado com a vida e ao mesmo tempo alegre com as presepadas que faço. Passo semanas sem ir a casa. Durmo ao relento lá para duas horas da manhã em cima de um papelão estendido na marquise do cinema que já acabou aqui na Avenida Guararapes. Às vezes passa pessoas que nos dão alimento à noite, algumas vezes sopa com pão, outras vezes um sanduíche com um copo de refrigerante. É isso. Hoje não tenho medo de ser preso, de matar ou morrer tudo para mim é certo. E assim vou levando a vida com os meus dezesseis anos. Fiquei abismado e perplexo com aquele desabafo daquela pessoa que poderia ser mais tarde um cidadão de bem. Doutor o senhor me desculpe, mais foi o senhor que me chamou. Agora quero que o Senhor pague um sanduíche para mim, pois estou com muita fome. Acompanhou-me até a esquina da Avenida Dantas Barreto com a Praça da República, e ali paguei um sanduíche e um copo de caldo de cana, para este “rapazote” que me agradeceu de maneira gentil este gesto. Olhando para mim, com a boca cheia, disse: “De hoje em diante o Senhor pode andar por este quarteirão que ninguém lhe incomodará, pois, se eu souber esta pessoa vai se haver comigo”, colocando o copo plástico numa sacola pendurada. Até mais Doutor, obrigado. Saiu em direção a Pracinha o seu ponto de trabalho, se isto se chama trabalho. Sai dali para o escritório e lá sentado fiquei a meditar a situação deste “meninote” descaminhado na sociedade.

Tempos depois, passando em frente da Igreja Santo Antonio, sem mais pensar no Roque, ouço aquela voz “Doutor tudo bem?” olho para trás e lá está com uma garrafa cheirando cola. Segui em frente e ate hoje não mais encontrei este “meninote” naquele local. Fico pensando o que aconteceu com ele?

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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