terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sonho Verde



Nada melhor, para um 7 de setembro, dia em que se comemora nos Independência política, do que ficar trabalhando, como plantonista da CIT. Enquanto todos circulam por aí com suas bandeiras, nós nos recolhemos aos nossos blogues favoritos, deixamos nossa mente vagar e sonhar com boas notícias. Nem sempre as encontramos, neste mundo conturbado em que vivemos.

Entretanto, nunca é demais dizer que não me lembro de épocas de pequenas conturbações, a não ser em alguns momentos do Império Romano. Embora uns digam que ausência de guerras e conflitos contribuiu para o seu declínio, eu penso que as pessoas ficaram mais felizes sem eles. Talvez seja do próprio do ser humano, procurar sarna prá se coçar.

Ao ler um dos blogs me deparei com um texto em que o jornalista Merval Pereira, me relembrou tempos mais conflituosos ainda, os anos 60/70. Nela éramos todos revolucionários ou visionários. Coisas da idade? Talvez não. Pois hoje vejo pessoas que ainda pensam em revoluções sociais como solução única para os problemas sociais, e socialismo como algo viável, depois de sua derrocada em meio mundo. E estes já são bem madurinhos. Logo em seu início vejo um nome que ainda me é familiar: Daniel Cohn-Bendit. Este, hoje senhor da terceira idade, como quase todos nós, ex-revolucionários, foi um dos meus ídolos.

Vejamos o artigo:

“Daniel Cohn-Bendit, de 65 anos, o mítico líder dos estudantes franceses em maio de 1968 e hoje deputado em quarto mandato pelo Partido Verde no Parlamento europeu — ele diz com indisfarçável orgulho que é o único político eleito por dois países, França e Alemanha — tem um sonho em relação à eleição presidencial brasileira: quer a candidata do Partido Verde, Marina Silva, no segundo turno para debater diretamente com Dilma Rousseff, a candidata de Lula. "Este é o debate que o Brasil realmente precisa ver, para escolher o melhor programa".

Ele diz que na Europa não se vê com grande emoção a eleição brasileira porque todos estão convencidos de que a candidata do presidente Lula vai vencer. Ao mesmo tempo, os europeus não veem muita diferença entre o PT de Lula e o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, que, aliás, foi um dos professores de "Dany Le Rouge" (por ser ruivo e socialista) naquele mesmo ano, na Universidade de Nanterre, onde a revolta estudantil eclodiu, depois se espalhando pelo país inteiro.

"São duas vertentes da mesma social-democracia. É como se fosse o partido trabalhista inglês disputando com o partido francês".

Ele, aliás, ao fazer essa comparação revela uma crítica a partidos políticos dessa vertente, que considera culpados pelo fracasso da esquerda por não terem regulado o capitalismo.

Lula, por exemplo, Cohn-Bendit considera o representante de uma esquerda atrasada, que esteve em voga há 30 anos na defesa do produtivismo a todo custo.

E ficou contente ao saber que Marina repetiu sua tese na quarta-feira em Porto Alegre, dizendo que Lula representava uma esquerda atrasada, que não dava a devida importância às questões do meio-ambiente.

Ele considera que o Brasil está fracassando na virada ecológica e pode pagar um preço alto por não compreender a natureza da mudança.

Por isso, acha que Marina seria a solução mais moderna para se contrapor às propostas da esquerda social-democrata que, acredita, Dilma e Serra representam.

"A primeira vez em que vi a Marina, achei ela toda frágil, mas quando fala tem uma força danada. Nós somos diferentes, porque a Marina é religiosa, e eu não acredito em nada. Mesmo assim, temos visões comuns".

Daniel Cohn-Bendit não vive do passado, embora não renegue sua atuação política em maio de 68. "Eu mudei porque o mundo mudou", diz ele, que lembra que naquele momento todas as utopias estavam abertas para a juventude, e muita coisa no mundo mudou justamente por causa da revolta dos estudantes.

Mas, hoje, está convencido de que os avanços dependem da estabilidade democrática, e não de revoluções.

Por isso não entende a esquerda latino-americana que ainda trata com reverência a revolução cubana, ou considera Hugo Chávez uma alternativa política válida.

É um crítico da política externa do governo Lula, que lhe parece movida mais por um sentimento antiamericano do que pela defesa dos valores democráticos, como os direitos humanos.

Na sua definição, Cuba representa um autoritarismo inaceitável, Chávez é o velho caudilhismo latino-americano e o Irã de Ahmadinejad, outro aliado político de Lula, o mais perigoso por ser o mais forte, com a possibilidade de ter a bomba atômica.

Cohn-Bendit acha que é até compreensível, pela história da região, um antiamericanismo, mas se espanta ao saber que Lula mantinha uma relação mais amigável com o ex-presidente George W. Bush do que com Barack Obama.

E também considera que, assim como o governo socialista da Espanha ajudou a libertar presos políticos em Cuba, o governo brasileiro poderia trabalhar para que os direitos humanos fossem respeitados nas ditaduras com as quais se relaciona.

Depois de se informar sobre a maneira como Lula escolheu sua candidata Dilma Rousseff, avalia que ele deve estar com intenções de tornar-se uma espécie de tutor da futura presidenta, da mesma maneira que o russo Putin escolheu para substituí-lo como primeiro-ministro Medvedev.

Mas ele não acredita que na política as coisas se passem tão linearmente: "A missa não está terminada na relação de Putin com Medvedev", comenta Cohn-Bendit, numa expressão que mostra sua dúvida sobre se a relação dos dois não terminará em conflitos políticos como costuma acontecer entre criatura e criador.

Ele acha que, com Dilma eleita, Lula voltará a ser o líder sindicalista que tentará manter o poder: "Vai almoçar três vezes por semana com a presidenta para influir no governo", comenta com uma ponta se sarcasmo.

Daniel Cohn-Bendit tem mandato no Parlamento Europeu até 2014, e está preparando o espírito para deixar de fazer política como atividade parlamentar depois de terminar seu quarto mandato.

Além da literatura, tema sobre o qual tem um programa na televisão suíça, ele quer se dedicar a fazer cinema, pois "preciso ter outro interesse que não apenas a política, porque senão ficarei doido".

Um de seus projetos tem relação com a Copa do Mundo de futebol de 2014, que será realizada no Brasil: "Gostaria muito de fazer um filme sobre o tema, porque acho que haverá um problema incrível. O que acontecerá se o Brasil perder a Copa?"

Cohn-Bendit diz que todos respondem que isso é impossível, "e é por isso que eu acho o tema fascinante". Racionalmente, diz ele, o Brasil tem cerca de 40%, 50% de chances de ganhar, não muito mais do que isso.

"Não haverá 11 jogadores apenas, mas 130 milhões. Qual é a estrutura psíquica, mental de um país que não aceita nada além da vitória como resultado final? Raramente há uma unidade dentro de um país, do mais pobre ao mais rico, todos convencidos de que o Brasil vencerá".

Um novo Maracanazo, como o de 1950 quando Brasil perdeu para o Uruguai no final da Copa, "será cem vezes maior", diz Cohn-Bendit, que considera mais fascinante ainda a possibilidade de em 2014 o próprio Lula estar concorrendo novamente à Presidência.”

Penso que a Lucinha Peixoto já leu este texto, se não o fez, espero que o faça agora, para, quanto em relação a Marina, ela abrir aquele sorriso maroto. Talvez, eles tenha razão. Está faltando emoção a este pleito. Marina no segundo turno talvez nos acordasse.

Mas, a frase que mais me chamou atenção, foi a constatação do Daniel de que: “Eu mudei porque o mundo mudou”. Uma frase tão simples, evidente e clara, com a qual eu concordo inteiramente. Apesar de haver pessoas que se jactam de nunca ter mudado o pensamento, elas são uma minoria. Pelo menos se não mudaram, tentem esquecer, como fez o FHC. Eu ainda vou além e digo, “o mundo mudou porque eu mudei”, e penso que ele, o Daniel, concordaria comigo.

Senão vejamos, algumas frases que caracterizaram aquele maio de 68, que começou na França, mas já se disseminava por todo mundo civilizado, que se resumiria a um grito de liberdade. Para os jovens esta palavra tem um significado diferente do nosso, e isto é o que diziam os “velhos” naquela época. Mas isto não nos amendrontava. Repetíamos:

"Sejam realistas, exijam o impossível!"

"É proibido proibir"

"Se queres ser feliz, prende o teu proprietário"

"O patrão precisa de ti, tu não precisas dele"

"Nós somos todos judeus alemães"

"Revolução, eu te amo"

"A revolução deve ser feitas nos homens, antes de ser feita nas coisas"

"Um só fim de semana não-revolucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente"

"Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução.
Quanto mais revolução faço, maior vontade tenho de fazer amor"

"Abaixo a Universidade"

"Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura, o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia, a cultura está em migalhas"

"A sociedade nova deve ser fundada sobre a ausência de qualquer egoísmo e qualquer egolatria. O nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade"

"Tu, camarada, tu, que eu desconhecia por detrás das turbulências, tu, amordaçado, amedrontado, asfixiado, vem, fala conosco"

"Os limites impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites"

"O sonho é realidade"

"Acabareis todos por morrer de conforto"

"Abaixo o Estado"

"Viva o efêmero"

E nós aqui, ouvindo isto, quando estávamos sofrendo o tacão do regime militar que ainda iria piorar muito. Por isso eu penso que a Dilma, candidata do Lula, quando é acusada de terrorista naquela época, talvez até tivesse razão de agir como agiu. Sua razão acaba hoje ao deixar que os marqueteiros escondam seu passado para ganhar eleições. Este não é o espírito de 68. O mundo mudou e ela mudou junto, embora tenha mudado para pior.

O espírito de maio de 68 nos deixava fascinados pela busca da liberdade, da quebra de dogmas, de libertação de amarras seculares. Queríamos ter a liberdade de ter a religião que quiséssemos ou não ter nenhuma, de sermos guês sem enrustimento, de criar uma nova cultura, de sermos todos iguais, enfim, de sermos livres.

Como diz uma das frases acima, “o sonha queria ser real”, vivíamos o efêmero, porque o permanente não vislumbrávamos com ameaça de guerra atômica. E hoje o que quero eu e aqueles da minha geração como o Daniel, neste 7 de setembro em que comemoramos nosso arremedo de independência, o que ensinaremos a nossos filhos? Talvez, que apenas ainda sonhamos com o verde, mas oliva nunca mais.

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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