sexta-feira, 10 de setembro de 2010

UM CERTO PESSOA



Há momentos na vida em que precisamos ficar sentados à beira do caminho a observar o rumo da nossa vida. Sairmos um pouco do papel de interventor e passar para o papel de observador. Quem nunca desejou construir uma nova trajetória de vida? Quem nunca pensou: Que estou fazendo com a minha vida? Ou, que sentido tenho que dar a minha história?. São estas pluralidades que nos coloca vivos dentro da vida. Quem só aceita o que lhe é passado, seja por acomodação, por medo de ousar, ou seguindo o lema de que time que está ganhando não se mexe, com certeza está fadado a incorporar em si e para si a síndrome da Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, vou ser sempre assim”. E com muita propriedade é um forte candidato(a) às cadeiras eternas da psicanálise.

O ser humano em si é inquieto e é esta inquietação que o levará sempre ao processo de crescimento.

Crescer dói. Sair do processo de acomodação dói mais ainda.

Foi este o contexto em que me encontrava nos meados dos anos setenta. Recém saído de uma minúscula cidade do interior de Pernambuco e chegado à cidade maravilhosa.

Uma mudança radical como se até aquele momento passado, eu apenas estivesse enxergando a vida através de um pequeno orifício e agora estava tendo a oportunidade de ver a vida em tela gigante. Um turbilhão de informações vindo ao mesmo tempo e sem muito tempo para pensar em como assimilá-las. Tinha que assimilar até por uma questão de sobrevivência. E assim fiz!. Foi em meio a tudo isso que fui apresentado, já na faculdade, em uma aula de literatura portuguesa, a um poeta que marcou e influenciou a maneira de ver e sentir o mundo a minha volta: Fernando Pessoa.

Os primeiros passos em toda a extensão da sua obra foram incertos e tímidos, até quando cheguei a um poema: Mensagem.

Aí abracei cada palavra, cada frase, cada parágrafo.

Vieram os heterônimos em Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis. Álvaro de Campos e Bernardo Soares, e cada um acrescentava e expandia o meu mundo em uma pluralidade que por vezes levava ao êxtase.

Através da obra de Fernando Pessoa cheguei a muitas conclusões da minha vida, uma delas é que eu poderia ser muitos dentro de mim mesmo, sem perder a minha própria identidade; ter várias visões de uma mesma coisa, de uma mesma situação. Ampliar o sentido dos gostos. Sair do “EU” egóico e me fundir com todos os outros “eus” menores: o eu social, o eu família, o eu afetivo. E isso sem perder a dinâmica do estar aqui e agora.

Conviver consigo mesmo é mais difícil do que conviver com o outro. Com o outro podemos por vezes querer mentir, fingir, mas mentir e fingir consigo mesmo é muito, mas muito mais doloroso. Isso aprendi através da obra de Fernando Pessoa. Bendito Pessoa!

Fernando Pessoa é considerado o poeta máximo da nossa língua. Um dos poetas mais intrigantes da nossa literatura. Na sua obra observa-se que não há nada fixo, estabelecido, definitivo ou consagrado, não há um itinerário para se seguir. Assim como os descobridores portugueses cantados por Pessoa em “Mensagem” a sua obra é um convite à exploração dos muitos universos criados pelo poeta em 47 anos de vida. O que se vê em Fernando Pessoa é uma unidade imaginária, frágil que muda um pouco todos os dias. E só o Pessoa na nossa literatura conseguiu criar e tratar a temática da despersonalização e desdobramento do ser em uma linha de pesquisa literária em torno de uma realidade que é humana e universal. Em certos momentos observa-se em sua obra que este desdobramento pode ter ido longe demais e Pessoa sentia-se um palco para as suas invenções literárias, assim como algumas ficções contemporâneas como “Matrix” e “Avatar”. Mas ele nunca deixou que os avatares tomassem o controle, que foi sempre dele, o pobre homem que passava o dia em seu quartinho a escrever.

Sua obra atravessou oceanos e línguas e ainda se tem muito Pessoa a conhecer. Você que me lê, sabia que Fernando Pessoa também era astrólogo? Pois sim, era mais uma faceta desta grande figura do séc. XX, o poeta português mais importante dentro do panorama mundial.

Recentemente temos dois momentos de grata surpresa no cenário nacional sobre o poeta que vos falo: assistir Maria Bethânia em um show que é mais falado que cantado, onde a musa da MPB, discorre sobre os poemas do Pessoa; e o outro momento mais gratificante ainda é visitar a mostra : Fernando Pessoa-Plural como o Universo, que está no Museu de Língua Portuguesa em São Paulo. Imperdível! A exposição apresenta ao público um escritor que foi além da literatura em suas buscas. Como afirmou o próprio Pessoa através de Bernardo Soares: ”Não escrevo português. Escrevo eu mesmo”.

Finalizando eu assumo uma frase do próprio Pessoa: “Sê plural como o Universo”.

Gildo Póvoas - gildopovoas@hotmail.com

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(*)Imagens da Internet.

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