terça-feira, 21 de setembro de 2010

Um dia no hospital



Devo confessar, embora não aconselhe ninguém que me imite, que nunca gostei de ir a médicos. Gosto de ir ao barbeiro, ao alfaiate na época que existiam para os menos aquinhoados da sorte nas finanças. Também, por outros motivos, não gosto de ir a advogados. Porém, quando avançamos na idade, e ela se aproxima perigosamente da terceira via, não tem jeito. Mesmo os solteiros como eu se rendem aos caprichos dos amigos quando dizem que estamos indo demais ao toalete ou de que estamos com o braço curto para ler livros e jornais. E ir a um médico é como se coçar, é só começar. E a coceira não acaba nunca, e haja médico.

Como todos sabem, na medicina moderna, ao contrário daqueles como Dr. José Barbosa, Dr. Raul, Dr. França e até mesmo o Dr. Lessa, da cidade vizinha de Garanhuns, pelos quais quase todos da minha idade passaram, o primeiro médico não diz nada. Apenas nos ausculta, nos pergunta um bando de coisas, que gera um diálogo parecido com o que segue:

- Você tem engasgo?
- Não.
- Você é diabético?
- Espero que não doutor, o senhor é que vai dizer, pois não sei nem o que é isto.
- Sofre de flatulência?
- De que doutor!?
- Flatulência! Peida muito!?
- O que o senhor quer dizer com muito? 10 por hora, 10 por dia, por minuto? Tem dias que nem peido.
- Tá bom. Adiante. Sente dor quando urina?
- Algumas vezes doutor. Sinto que agora mijo, ou desculpe, urino mais do que antes.
- Quando você evacua, sai sangue nas fezes?
- Nunca olhei doutor. É prá sair ou não sair? Agora a coisa cai logo dentro dágua, nem dar prá ver. No interior...
- Vamos em frente. Enxerga bem?
- Ah! Doutor, eu enxergava, agora o médico do DETRAN disse que se eu chegar sem óculos, ele não renova minha carteira.
- Tem pressão alta?
- Não sei, nunca medi o nível de pressão sobre mim lá na CIT.
- Não é este tipo de pressão, é a pressão sanguínea!
- Ah! Não sei, doutor.
- Algum parente seu, teve diabete, glaucoma, sinusite, espinhela caída, era estrábico, doido, atirava pedra em alguém, tinha flatulência?
- Doutor, do que me lembro, o meu pai peidava muito de noite, e minha mãe reclamava à beça, quando ela viu que não tinha jeito, começou a imitá-lo. Lá em casa, como não tinha forro nos quartos, ficava difícil de dormir...

E por ai vai, e não reproduzi nem a metade do hipotético diálogo. Depois disto, com uma escutada ali outra acolá, e sem dizer nada, começa a escrever. Quando pensamos que ali naquele relatório, feito, modernamente, num computador, ele vai nos dizer tudo que temos e receitar os remédios, o que sai é uma lista enorme de exames que nos levam a outros médicos, que procedem da mesma forma. Quando você pensa que um só médico já é ruim você já foi a 50 deles, e com a promessa ainda de ir a mais uns 200 se a taxa da progressão continuar a mesma. Entretanto, ao invés de sermos pragmáticos, relaxando e curtindo com o tipo de assédio corporal, no próximo ano ficamos outra vez com medo de agulhas grandes e dedo grosso.

Embora nem sempre seja assim. Para aqueles que tem aversão a médicos e hospitais, vou contar à guisa de incentivo, para aumentar sua expectativa de vida, minha experiência num dia dentro de um destes estabelecimentos de saúde, que os profissionais da medicina chamam de “Minha Casa Minha Vida”, sem ser a Casa Civil, de que falou a Lucinha. Mesmo assim, mesmo com a boa experiência, eu não veja todos os hospitais com este otimismo. Então acautelem-se.

No meu caso, o hospital é especializado em Oftalmologia, ou seja, cuida dos olhos das pessoas, enquanto nos cobram os olhos da cara. Sem os famigerados planos de saúde estaríamos todos de bengalas brancas. Com eles, depois de marcarmos uma consulta com um oculista com dois meses de antecedência, dependendo do tipo de plano, chega até seis meses, mas é melhor do que o risco de ir pelo SUS. Chega o momento da consulta.

Antes de vermos um médico da especialidade para admirar nossos olhos, passamos por uma verdadeira linha de produção taylorista, onde uma pessoa vem, pede para sentar e colocar o queixo num lugar, olhar para uma luzinha, e enviar a gente para outra pessoa onde, da mesma forma, nos manda olhar para um parede onde aparecem letras cada vez mais miúdas, até que não conseguimos vê-las, igual ao nosso salário durante o mês. Mandam-nos para outra que coloca um colírio que começa a turvar nossa visão e ela nos acalma dizendo que ainda não ficaremos cegos. Ainda. Depois de outros e outros procedimentos, estamos numa fila, na qual ninguém enxerga ninguém nitidamente, esperando para o destino final, a oculista, ou a cegueira.

Ao chegar a nossa vez, adentramos uma sala onde há uma cadeira e um equipamento ligado a ele que parece um ser extra terrestre. Depois das perguntas de praxe, se eu tenho cegos na família, se já fiquei cego alguma vez, ou mesmo, se está cego agora, o médico coloca aquele robô na nossa cara e ele começa a jogar um jato de luz dentro dos nossos olhos, enquanto o oculista nos pede para olhar em todas as direções. Terminada esta fase, quando penso que ele vai dizer que eu devo usar óculos tais e tais, ele emite uma lista de exames que devem ser feitos no mesmo hospital, onde ele trabalha. Descubro então que, ainda não foi desta vez que os meus cansados olhos tiveram sossego.

Entre estes exames, encontra-se um deles que tem que ser feito durante todo o dia. Na requisição ele foi chamado de Curva Tensional. Vejam vocês, para não derrapar nesta curva, eu tive que passar um dia rodando dentro do hospital. Como já me disseram que se te derem um limão, ao invés de reclamar do azedo, faça uma limonada, eu encarei esta curva como se fosse daquelas da Estrada de Santos, onde Roberto Carlos fazia suas piruetas. Além disto, o médico passou outros exames relacionados com os olhos, que, a duras penas, consegui marcar para o mesmo dia, com exceção de um, que era imcompatível com os outros porque tinha que dilatar as pupilas. Sempre pensei que dilatar as pupilas far-me-ia enxergar mais longe, mas tudo aconteceu ao contrário. Saí de lá com a visão mais obnubilada do que político mal nas pesquisas. Não queria acreditar no que via, mas elas estavam lá, para o tropeço certo na caminhada.

O dia do título desta crônica começa agora. Já! Foi dada a partida! Recebi, depois de provar que o meu plano estava em dia, toda a programação diária. Curva Tensional: 07h / 11h / 13h / 17h. Era realmente o dia todo, pois no trânsito de Recife, para se deslocar de qualquer lugar para outro, leva mais do que 4 horas. Era a sentença final. Previdente, levei meu netbook e sua função wireless me colocou nas ondas da internet, embora só funcionasse num tal de Cyber Café. Mesmo assim, já deu para notar a influência de nossa rede mundial, até nos exames de vista. Levei também um livro para ler nos momentos que antecedem as chamadas para os exames. Pelo menos neste dia minhas pupilas não foram assediadas pelo colírio dilatador, embora não tenha podido me livrar deles.

- Diretor Presidente (é óbvio que o nome de chamado era o de batismo, mas...)!

E lá vai eu para a primeira curva, lencinho de papel na mão, colírio amarelo no olho, visão amarela, sentando, colocando o queixo lá no aparelho, olhando para onde me mandaram, e eu nervoso para não derrapar logo na primeira.

- Até as 11h, seu DP!

Disse o médico já me preparando o espírito. Para mim foi tudo bem. Não doeu e penso ter feito bem a primeira curva.

- Diretor Presidente!

E lá vai eu de novo. Outro exame. Paquimetria. Mais colírio, olho numa bola amarela e toma máquina dentro do olho. Deste recebi logo os resultados. Não entendi nada mas, espero que o paquímetro não tenha sido contra mim. Estava livre até as 11h, quando voltaria à Estrada de Santos. Cantarolando baixinho, dirigi-me ao Cyber Café, para trabalhar:

Se você pretende saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na estrada de santos
E você vai me conhecer
Você vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim
E que na minha idade só a velocidade
Anda junto a mim
Só ando sozinho
E no meu caminho o tempo é cada vez menor
Preciso de ajuda


Tomei um café, que nunca vi mais caro, tanto que agora eu digo: “É mais caro do que café de hospital”, porém digo também, até que estava bom, e passei até perto das 11h, no meu mister.

- Diretor Presidente!

E lá vai eu outra vez. Segunda curva. Colírio amarelo e quejandos. Fim, despedidas. E chega a hora do almoço. Pensei, neste trânsito do Recife, onde irei almoçar para chegar aqui na hora dos outros exames. Informações e surpresa. Havia um restaurante dentro do próprio hospital, com a comida tão boa que vi até os médicos comendo, e foi mais barata do que o café. Comendo uma tilápia trucidada na grelha, continuei cantarolando.

Por favor me acuda
Eu vivo muito só
Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo
Corrijo num segundo
Não posso parar


Depois de tirar a barriga da miséria, voltei ao meu posto. Terceira curva e logo após Campimetria. Neste me lembrei dos tempos de criança lá em Bom Conselho, quando atirava com aquelas espingardas de ar comprimido, para ganhar alguma coisa. Naquela máquina me senti vendo as bolinhas, e atirando nelas quando passavam. Eu pensava que nunca mais ia terminar. Bolinha, pá, bolinha, pá, bolinha.... O resultado saiu logo e eu não entendi nada, também. Espero que tenha ganho muitos perfumes como aqueles que ganhava em minha terra, com a espingarda.

- Diretor Presidente!

Antes da última curva, fiz outro exame. Passei por um Analisador de Fibra Ótica. Olha prá lá, olha prá cá, olha prá cima, olha prá baixo. Ah! Se houvesse um analisador para fibra humana, medindo quanto tem de fibra cada candidato nestas eleições. Mostraria certamente que a oposição esteve o tempo todo com as fibras esfrangalhadas. Finalmente, a última curva e a mesma lengalenga. Apesar disto tudo, sai de lá cantarolando:

Eu prefiro as curvas da estrada de santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive
E vi pelo espelho na distância se perder
Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
E na estrada de santos não vou mais passar
Não, não vou mais passar

Esta descrição foi uma parte apenas de uma dia no hospital, que foi melhor do que fazer turismo em Porto de Galinhas, pois o plano de saúde não cobre este resort. Entretanto, o bom mesmo, é que, num dia inteiro, encontramos pessoas e até fazemos amigos. Mas, isto fica para contar depois.

Para aqueles que tiveram a coragem de me lerem até aqui, deixo o presente do vídeo abaixo, para lembrarem se um dia passarem pelas mesmas curvas que eu.



Diretor Presidente – diretorpresidente@citltda.com

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