segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Vinde a mim as criancinhas



Quando encontro um texto bem escrito e enxuto e que, ao mesmo tempo, diz verdades insofismáveis ou mesmo ficções que nos levam à boa emoção, eu tempo sempre transcrevê-lo aqui na íntegra. No presente caso, o texto é da jornalista Ateneia Feijó, que além de escrever maravilhosamente bem, igual ao José Fernandes, tem bom gosto, é eleitora de Marina Silva, ao contrário do nosso colaborador e amigo. O escrito tem como título: “Criança não vota”, e o transcrevemos abaixo:

“Dilma está na cabeça das pesquisas de intenção de voto. O resultado é notável na aparência da candidata. De tanto contentamento, ela ganhou também um certo jeito espontâneo. Na verdade, poucas pessoas se surpreendem com isso. Por quê? Porque desde o começo a polarização a favoreceu. Tanto quanto a popularidade do presidente e a máquina do governo. Evidente.

A novidade agora é a discussão sobre o preço dessa polarização. Afinal, desde o início, estava explícito que grande parte dos profissionais envolvidos nesta campanha eleitoral a queria. Há quem aponte a mídia como o principal vetor.

Talvez por necessidade de adrenalina, tem quem prefira sempre uma disputa radicalizada. Entretanto, tudo indica que muitos apenas caíram na armadilha dos defensores de uma eleição plebiscitária, ao gosto do papai Lula. Que, no momento, está animadíssimo com seu próprio desempenho como o mais maternal dos homens. Quer dizer, ele é Dilma, a mãe do Brasil. Não se pode esquecer.

De qualquer maneira, me perturba ver eleitores que aderiram à polarização nem tanto por devoção à mamãe, mas por não serem capazes de raciocinar com alguma complexidade. Como as crianças pequenas, não conseguem distinguir além do sim ou não. Até os mais crescidinhos desses eleitores ficam no preto ou branco; direita ou esquerda; quente ou frio. Ou: PT versus PSDB; Lula versus FHC. Ou, pior ainda, enxergam o país de uma única forma: Lula ou anti-Lula.

Não se trata de rebeldia ou desconsideração pela vocação maternal de última hora da candidata petista. Apenas sou pela diversidade e pela mestiçagem. Portanto, também pela alternância de poder. E por uma razão muito simples: milito pela democracia.

Nesta militância, me esforço em torná-la cada vez mais saudável e fortalecida. De que jeito? Procurando chamar a atenção do seguinte: uma democracia, de fato, pressupõe a alternância de governantes engajados no bem-estar social, na estabilidade econômica, na liberdade de expressão...
Mais ainda. Pressupõe candidatos ao poder dispostos, realmente, a trabalhar pela igualdade de oportunidades para todos os brasileiros.

Igualdade essa, inexistente hoje em dia. Sobretudo na política. Se Marina Silva tivesse tido maior divulgação, quem sabe, a tendência nas pesquisas seria outra. A candidata verde teria desfeito logo de saída o equívoco daqueles que a rotularam como monotemática. Como se empunhar a bandeira em defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável impossibilitasse conhecimento de outros temas.

O rótulo pode a ter prejudicado. Encobriu, por algum tempo, suas idéias e propostas como candidata à presidência da República. Sei, o perfil de Marina é de mulher destemida que não foge dos desafios deste século XXI. Para ela, o jogo ainda não terminou.

Êta jogo difícil. Especialmente, quando o povo deste país é considerado uma prole dependente de pai e mãe. Isso quer dizer o quê? Que é menor de idade ou incapaz? Ou carente demais, mesmo após os oito anos do governo Lula? Tem quem esteja achando que o povo está querendo se livrar de palmadas. Em criança não se bate e eu concordo. Mas, espera aí: criança não vota! (Obedece?)”

Ela termina com uma pergunta muito hermética: “Criança obedece?” Depois de parir e criar quatro filhos eu concordo com o meu colega Zezinho de Caetés, que tratou da Lei da Palmada em artigo recente (http://www.citltda.com/2010/07/o-polvo-de-dilma-e-lei-da-palmada.html) quando diz: “Eu também sou a favor da Lei da Palmada, desde que usada com moderação, como qualquer lei no Brasil.” Isto é, a moderação me leva a responder à jornalista dizendo que criança desobediente deve mesmo entrar na palmada, de leve. Os meus filhos entraram, e nenhum ficou com a bunda marcada pelas palmadas minhas, porque também lembram de suas bochechas marcadas pelos beijos meus.

O grande problema de nossa criança, já grandinha, o povo, é que as palmadas vem sempre depois dele ter feito o “malfeito”. E tenho certeza, a mãe Dilma vai bater sem piedade, da mesma forma que o pai Lula nos meteu o cinto o tempo todo, dentro do quarto para ninguém desconfiar, e ainda agora, diz como o meu pai, depois de me aplicar umas belas “cinturãozadas”:

- Entupa este choro, se não vai apanhar mais! E veja bem, eu vou sair mas a sua mãe vai ficar, e ai de você, se desobedecer outra vez. Ela me dirá tudo!

E parece que nossa criança obedeceu. A maioria do nosso povo está entupida com o Bolsa Família, crédito fácil, aumentos de salário e, a qualquer momento que tenta desobedecer ao pai Lula, ele ameaça logo com boi da cara preta, o FHC, ou com a mordida do vampiro. Ainda diz que vai viajar durante quatro anos mas, deu ordens à mãe Dilma, para baixar o sarrafo se o povo, a criança, desobedecer outras vezes.

Se o povo não fosse tão infantil, ao sinal da primeira surra, tinha ido correndo para os braços da tia Marina, que quer nos educar, não bate em crianças, e pensa no futuro delas o tempo inteiro. Ainda há tempo para desobedecermos ao nosso pai Lula, e não nos subjugarmos à sina de passarmos quatro anos apanhando no quarto escuro. No dia da eleição corra para os braços de tia Marina. Não deixaremos de ser crianças, nem cresceremos de forma instantânea, mas ela nos ensinará a crescer com segurança.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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