sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A VISITA



Há anos que desejava fazer uma visita a um amigo de longas datas. Sempre posterguei este instante. Alguma coisa me impedia de cumprir este desejo. Sempre passava por perto do local onde ele mora e não o visitava. No dia 11 de setembro, tomei a decisão de visitá-lo. Era uma tarde quente recifense e com o sol se pondo e o burburinho de pessoas e veículos na Avenida Conde da Boa Vista. Encontrava-me nestas tarde/noite na Loja Riachuelo, era somente atravessar a Rua José de Alencar e chegar ao Edifício Ambassador. Naquele momento que ali chegava, senti uma saudade dos tempos do pensionato, onde vários colegas se achegavam no Bar Mustang. As mesas diferentes daqueles tempos dos anos setenta, enfileiradas e cobertas com umas toalhas brancas e os garçons servindo aos clientes que ali chegavam para tomar um chopp geladíssimo, sem “colarinho”. Lembrei-me da Copa de 70. Assistíamos num quitinete/pensão dos colegas à partida final na Rua Do Bosco. Tão logo terminou a partida com o Brasil sagrando-se tricampeão, saímos todos “queimados” haja vista que tínhamos tomado dezenas de cerveja, misturando com Rum Montila com Coca Cola, dançando pela rua até o Mustang, passando a noite na euforia da vitória. Saímos, por volta das seis da manhã, com o sol já alto, eu, Paulo Medeiros, João Correia, Miguel, e outros e fomos ainda, dançando e gritando até bairro da Tamarineira, em coro, “México, México, México, e alguém se rebolava na frente do grupo. Foi extasiante este momento, que estava a recordar ali parado. Adentrei pelo portão de ferro, e fui até o balcão do recepcionista. Perguntei pelo Nelsinho, se ele ali ainda morava. O recepcionista, atencioso, informou que “sim” que apanhasse o elevador na outra portaria, pois, naquele local as salas eram comerciais. O quitinete era no 16º Andar e o número 161. Alertou-me que elevador levaria mais ou menos três minutos pois era do inicio da década de 70, portanto, somente cabiam quatro pessoas. A vagareza confirmava o que recepcionista falou, exatamente, 3 minutos. Ali chegando, visualizei o numero 161, com a porta aberta protegida por uma grade de ferro com cadeado. Chamei, e imediatamente apresentou-se o Nelsinho indagando o que eu desejava. Olhei para o mesmo, e perguntei, você não está me reconhecendo seu “rubro negro fajuto?”. Ele olhou com mais atenção e mirou através dos seus óculos de grau “fundo de garrafa’ e disse sorrindo – Taveirinha, então ainda não morreste? Claro, que sim, aqui é uma alma penada que veio te buscar, respondi. Abre a grade que eu não tenho muito tempo para ficar por aqui. Vim te buscar. Abriu a grade sorrindo. Quanto tempo em velho “rubro negro?” É mesmo quanto tempo? Mostrou um grande quadro da equipe gloriosa do Sport Club do Recife, campeão da Taça Brasil em 2008 pendurado na parede. Sentei-me em um sofá que me ofereceu. Abriu a janela da quitinete e o panorama visto, daquelas alturas era fantástica. A luzes acesas por toda aquela extensão que vista alcançava. Sentei-me e pus a conversar. Não leve em consideração a desarrumação daqui, a faxineira faltou esta semana e eu não tenho condições de fazer a limpeza necessária, falou o Nelsinho, tirando uma almofada do sofá. Tudo bem, não te incomodes que eu não vou contar para ninguém, rimos. Taveira, como é bom te ver, disse ele. Eu vivo aqui sozinho, como você sabe, há mais ou menos trinta anos. Hoje não sou mais o Nelson daqueles idos tempos. Hoje estou limitado. Deixei de beber e de fumar a mais ou menos dez anos, mas as outras coisas eu faço muito bem, riu. Dou três por dia, uma tentativa e duas desistência, rimos, novamente. Às vezes passo aqui em cima quinze dias, somente observando desta janela o amanhecer quando as luzes da cidade se apagam e ao anoitecer, quando a luz da cidade traz a sua luz vibrante. Às vezes vejo alguma aeronave piscando no céu estrelado. De lá de baixo vem algum som de “vitrola” o que mais aumenta a minha saudade dos tempos que descíamos e curtia a noite. Isto é do passado.

Vou te contar. Às vezes preso aqui sinto um desespero e num destes ataques, fui até o Mercado da Boa Vista matar a saudade. Foi um dia de sábado, as 12 horas. Sai capengando pela rua e lá cheguei. Como mudou não o mercado e sim, as pessoas que ali estavam. Não se ouvia mais o toque do violão, do cavaquinho e tambor com as nossas vozes encantadoras, rimos de novo. Sentei-me embaixo daquela pequena arvore no pátio e pedi uma cervejinha bem geladinha. A moça, uma morena daquelas de que “dá água na boca” e deixa qualquer um extasiado, com um “short” encantador e ali fiquei a admirar. Pedi mais uma. Ela trouxe a cerveja estupidamente gelada e perguntou, deseja mais alguma coisa? Eu em deboche, falei “você”. Saiu rindo. Imediatamente pedi um pratinho de tira gosto e olhando para ver se tinha algum conhecido para me acompanhar, Qual nada, ninguém. Era mais ou menos duas horas da tarde. Paguei a conta e dei uma gorjeta à garçonete, que agradeceu com aquele sorriso lindo. Velho acha tudo bonito, não é verdade? Eu respondi ainda não cheguei a tua idade, estou completando 28 anos. O que ele respondeu, duplicado por dois, da cachaça.

Franzindo a testa e ajeitando os óculos, falou quase inaudível. Não é Taveirinha, que quando me levantei da mesa achei de tomar um comprimido para a minha querida “labirintite” e sai, quando na calçada do Mercado cai e quando dei por mim, estava na Restauração, deitado em uma “maca” naquele amontoado de pacientes, cada uma com o seu sofrimento. Os corredores cheios, pacientes deitados no chão, um vai e vem de enfermeiros e médicos. O mau cheiro insuportável de urina, suor, vômitos e fezes. Já não aguentava mais aquela situação. A médica me informou que eu tive um inicio de AVC, mais que não deixou nenhuma sequela, mais que ficaria em observação. Agradeci a Deus, e tudo sabes que eu não sou de muita religião. Fui transferido para o Hospital Esperança, onde ali fiz vários exames, o que comprovava o diagnóstico do plantonista da Restauração. Passei a tomar remédios. São dois por dia, um para “pressão” e outro para a minha inseparável “labirintite” Queria conversar um pouco mais e desabafar a tristeza e os momentos difíceis que estava passando. Olhei para o relógio, 19 horas. Nelsinho foi um prazer estar contigo nesta tarde/noite. Estou indo e breve voltarei a te visitar para completar o nosso bate papo de recordações. Um aperto e mão e o Nelsinho fechou a grade e a porta com um cadeado. Desci pelo elevador amargurado com aquela situação do nosso amigo. Pensei, enquanto o elevador descia devagarzinho até o térreo, que todos nós teremos que passar por igual ou pior situação, nada sabemos quando isto acontecerá. A luzes estavam todas acessas e o burburinho das pessoas e o trânsito congestionado segui para o Parque Treze de Maio onde apanhei a condução de retorno para casa. Finalmente, pensei, “quem te viu quem te vê”.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com
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(*) Imagens da Internet.

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