terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ainda o Patrimonialismo




Numa artigo, que escrevi a quase um ano atrás (veja aqui), eu falava sobre uma praga que sempre assolou este país, desde o seu descobrimento: o patrimonialismo. O termo se refere à atitude de pessoas, normalmente, ligadas ao poder público, que confundem o que é público e o que é privado, e saem distribuindo benesses ou ficando com elas, a custa dos impostos que pagamos, como se elas fossem uma dádiva pessoal do deles. Naquela época eu já dizia:

“No Brasil, o patrimonialismo veio com Cabral, estava na carta de Pero Vaz de Caminha, passou pelo martírio do Bispo Sardinha (os índios pensavam que ele era merenda escolar), continuou com as capitanias hereditárias, pelos barões, no Império, e continuou com a República, com os senhores de terras, coronéis e continua com o clientelismo, nepotismo, empreguismo e outros “ismos”. A falta de definição clara de quem tem direito ao que, ainda é uma das maiores mazelas de nosso sistema político, apesar de todos os avanços legais e institucionais dos últimos tempos. Isto passa pela questão fundamental do que seja público e do que seja privado em nosso país. E não peçam para o povo ler a Constituição e as Leis, eles, em sua maioria, são analfabetos, iguais aos índios que comeram o bispo.”

Hoje, ao ler os jornais pela manhã, vi que neste processo eleitoral, e penso que em todos, as atitudes patriomonialistas se acerbam ao ponto de nossa indignação. E achei muito apropriado o título do texto da jornalista Marisa Gibson, do Diário de Pernambuco, que é uma pergunta simples, objetiva e cheia de indignação, para mim, ou para qualquer outro que pague impostos: “Que farra é essa?”. Transcrevo a matéria abaixo:

“Como era esperado, coube a Eduardo Campos (PSB) dar a injeção de ânimo que estava faltando na campanha da candidata Dilma Rousseff (PT) no estado afirmando ontem, durante almoço que reuniu deputados federais e estaduais da base aliada, que todos devem ir para as ruas pedir votos para a petista sem ficar esperando pela coordenação da campanha. Pelo visto, todos os que estiveram presentes ao evento entenderam o apelo do governador e saíram com ânimo revigorado para cair em campo a favor de Dilma. Agora, coube ao presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Uchoa (PDT), a proposta mais absurda, sobretudo para quem comanda um poder. Em seu discurso, Uchoa defendeu que a pauta da Assembleia seja flexível nos próximos dias, para que os deputados possam se envolver na campanha da candidata petista. "O tempo é curto", disse, e se for o caso "temos que ter a compreensão dos nossos colegas", e se for preciso, "para que possamos faltar aos nossos compromissos na Assembleia e nos dedicarmos à campanha de Dilma". Que farra é essa com o dinheiro público? Neste segundo turno com os dois candidatos presidenciais, Dilma e Serra, com a espada das pesquisas na cabeça para mais ou para menos, todos querem fazer campanha e terminam fazendo de uma maneira ou de outra. Então por que uma pauta flexível na Assembleia para que os deputados possam pedir votos para Dilma, quando se sabe que os trabalhos na Casa já são por demais flexíveis? Ora, se deputados governistas ou oposicionistas não deram as caras até agora nas campanhas de Dilma ou de Serra é porque não quiseram ou porque estão descansando. Existem muitos motivos para essa ausência, menos excesso de trabalho. Para suas próprias campanhas, os parlamentares, estaduais e federais, já são beneficiados com o recesso branco, mas se criar um novo tipo de recesso para deputado participar de campanha de presidente da República é demais. Já pensou se a moda pega e se flexibiliza também os trabalhos nas Câmaras Municipais, nas Prefeituras e em outros poderes para que todos os que são pagos com dinheiro público possam participar da campanha do segundo turno?” (grifo nosso).

Eu ainda não me manifestei sobre candidatos e candidaturas nestas eleições, e não o farei aqui. A Lucinha e o Zezinho dizem que gosto de ficar em cima do muro. Tudo bem, até agora o muro está confortável. Entretanto, com notícias como esta, tenho vontade de pular do muro em cima do deputado Guilherme Uchoa com os dois pés. Mas, quando penso que me faltariam pés para pular em cima do Presidente da República, do Governador do Estado, do Presidente da Petrobrás, et caterva, eu me refreio de fazê-lo. Apenas lavro o meu protesto contra estas atitudes patrimonialistas eleitorais que ferem o decoro de qualquer órgão publico quando praticadas.

Fico pensando como em Bom Conselho se responderia a última pergunta da jornalista: “Já pensou se a moda pega e se flexibiliza também os trabalhos nas Câmaras Municipais, nas Prefeituras e em outros poderes para que todos os que são pagos com dinheiro público possam participar da campanha do segundo turno?” Estarão a prefeita, os vereadores, os funcionários públicos em geral, dando seus expedientes direitinho, ou já aderiram ao presidente de nossa Assembleia Legislativa? Caros bom-conselhenses, se algum destes citados, pedir-lhes um voto, no horário de expediente, seja lá para qual candidato seja, mande ele ter vergonha e voltar ao trabalho, pois ele os está enganando. O tempo dele não é dele nestas horas, é seu. Você o paga, para ser servido. Um deputado, um prefeito, um presidente, um governador, transforma-se num “servidor público”, quando é eleito e assume suas funções. E, se ele acha que serve ao público com suas preferências eleitorais, peça votos, mas não pare de servir ao público, no cargo para o qual for eleito.

Teríamos um grande avanço, do ponto de vista político e de uma democracia, se todos soubessem discernir onde termina o que é seu, privado e o que é do coletivo, público. Já pensou que se o nosso presidente, numa sexta-feira comum, onde todos, durante o dia deveriam estar em seus trabalhos, saísse para gravar propaganda eleitoral? Pois li que isto aconteceu a semana passada. É a lógica do segundo turno, a mesma levantada pelo Guilherme Uchoa, no almoço com Eduardo. Será que o governador vai também seguir o presidente e gravar programas de TV, para seu candidato? Seria lastimável. Como é lastimável outra notícia que li hoje. O Banco do Brasil e a Petrobrás financiando uma revista da CUT, para fazer propaganda de candidato. "Que farra é essa?".

Só há um jeito, não votem em candidatos para os quais foi usado o seu dinheiro para fazer sua propaganda sem o seu consentimento. Não estou, com isso, pedindo que não dê voto para candidato nenhum. Apenas que proteja o seu e o nosso dinheirinho.


Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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