sábado, 23 de outubro de 2010

A Bolinha de Neve




Eu nunca imaginei que o meu conterrâneo Lula chegasse ao ponto a que chegou, do lado negativo da força. Do lado positivo, que eu sempre acompanhei, o operário que virou presidente virou temas de canções e filmes de louvação. Sua trajetória foi surpreendente e continua surpreendente.

Como é que depois de oitos anos de mandato, 12 anos de tentativas, para chegar à presidência ele comete uma barbaridade como a de declarar que havia uma farsa no comportamento de um candidato ao seu posto, sem nem mesmo verificar se isto era verdade. E o pior de tudo, foi seguido de perto pela sua candidata e avatar a Dilma.

Só pode ser desespero. Isto não é postura presidencial e nem mesmo de uma pessoa séria, como eu considerava o Lula. Primeiro, porque a violência, embora isto seja hoje um lugar comum, mas é verdade, gera violência, e vejam que em vez de bolinha de papel jogaram bolas d’água na Dilma. E assim começa indo até às bolinhas cocô e de outros materiais menos nobres.

Penso que o episódio pode ser visto como uma "bolinha de neve". Aquela que vai crescendo, crescendo e crescendo e termina numa avalancha desproporcional. Uma das missões de um presidente da republica é evitar que seu povo se destrua, principalmente, em guerras suicidas internas, entre facções políticas. A Democracia, pelo menos modernamente, seria um sistema que visa isto. Mas, como um presidente, que dividiu o Brasil entre ricos e pobres, na maior pantomima de classificação social jamais vista, ainda maior do que a famosa luta de classes marxista, que hoje se resume à luta para pegar um lugar num vôo para o exterior por uma classe média que ele mesmo de que criou, pode querer que sua candidata ganhe, quando diz que ela será apenas uma sua continuista, com este procedimento?

Isto não poderia estar acontecendo neste nosso país. Chega de dizer bobagens meu querido amigo de infância. Talvez, seja melhor que você perca as eleições, para que sua popularidade de mais de 80% não se transforme em risos nem em choros deste mesmo povo.

Aproveito alguns trechos de artigos que reforçam minha opinião ao risco que o Brasil corre com estas atitudes do Lula, nunca vistas na história deste país. Leiam dois deles se ainda não leram. O primeiro é do Reinaldo Azevedo e o outro de Miriam Leitão, ambos jornalista conhecidos, não pela sua neutralidade política, mas pela sua idoneidade como jornalistas com opiniões contundentes sobre o nosso momento político.

Lula deixa um rastro de ódio, pouco importa quem seja o seu sucessor

Pouco importa quem vença as eleições, Lula deixa ao sucessor uma herança política um tanto maldita. E isso se deve à sua atuação irresponsável no processo eleitoral. Assistimos a uma disputa em que um dos lados acha que tudo é lícito, menos perder. Daí o vale-tudo.

Pensem um pouco: segundo as pesquisas, o PT pode estar até 12 pontos na frente nos votos totais. Se for assim, é uma vantagem e tanto — se acredito nisso, nas condições de hoje, é outra coisa, mas é fato que esses levantamentos balizam comportamentos etc. Ora, o PT deveria ser o principal agente de paz no confronto eleitoral. No entanto, Lula é o primeiro a se pintar para a guerra. E isso vem lá do primeiro turno.

Meteu-se na campanha de cabeça. Quando percebeu que sua candidata estava mesmo correndo risco, passou a distribuir caneladas e cotoveladas e começou a gritar: “Jogo sujo! Jogo sujo!”, numa tática para tentar deslegitimar o adversário. A imprensa nada séria que o governo financia fez coro. A gritaria contaminou até a séria.

O PT, assim, deixa claro que, caso Serra venha a se eleger presidente, sua vida não será fácil. As corporações de ofício, as guildas petistas que hoje vivem do que conseguem arrancar do estado, prometem criar o máximo de dificuldades. É o que o PT sempre faz na oposição: busca sabotar o governo de turno.

Ocorre, e isso está bastante claro a esta altura, que um eventual governo Dilma também não será fácil. Lula vai deixando um rastro de rancor por onde passa, tanto o rancor que ele secreta como aquele que ele desperta com sua ação destrambelhada. Caso a petista se eleja, esse “malaise” acabará se voltando contra a “presidenta”, que não é famosa por seu jogo de cintura. Lula, o tutor, espera no entanto ser o Putin da Medvedev de calças. Ocorre que temos uma democracia mais avançada do que a Rússia.

Lula é tão autocentrado que conseguiu emprestar certa aura de artificialidade a seu sucessor, qualquer que seja ele, do governo ou da oposição. É como se a sucessão não fosse o processo natural numa democracia. Quem quer que vença, haverá um lado se sentindo sabotado. E ele é o único responsável por isso. Confunde os 80% de aprovação que lhe conferem os institutos de pesquisa com endosso para o vale-tudo. E está errado. O Babalorixá de Banânia sempre fez aquele seu discursozinho vigarista contra “dona zelite”, o que ficava na esfera da cafonice retórica esquerdofrênica. Desta feita, no entanto, foi além: deixou claro que, se necessário, parte mesmo para o pau, para o confronto de rua, na premissa de que, numa eleição, qualquer coisa é legítima, menos perder. E isso pode ser tudo, menos democracia.”

Desvio e dever

A grande questão não é o que acertou a cabeça de José Serra em Campo Grande, mas o que há na cabeça do presidente Lula. É assustador que ele não perceba o perigo de usar toda a sua vasta popularidade para subestimar um episódio de conflito físico entre grupos que disputam o poder. Se ele brinca com fato grave, o que está avisando é que esse tipo de atitude é aceitável.

Não é. Cada lado tem que ter segurança e garantia de fazer a sua festa, a sua passeata, o seu comício em paz. Quem organiza um grupo para interceptar a caminhada do grupo concorrente na disputa política sabe que há risco de que tudo fuja ao controle. O que houve já foi sério o suficiente, mas poderia ter sido ainda pior. Felizmente, há tempo de aprender com esse episódio.

A paixão eleitoral é natural, o maniqueísmo do segundo turno é emburrecedor, o confronto entre as partes só é aceitável se ficar no campo das ideias e propostas. Quem vai com um grupo organizado para hostilizar o adversário no meio da sua caminhada sabe que os ânimos podem ficar exaltados. Desta vez, foi uma pedra na cabeça de uma jornalista, e o rolo de fita na cabeça do candidato José Serra. Esse episódio deve ser visto pelo risco potencial de conflito generalizado. As imagens falam por si. O que mais poderia acontecer numa refrega de rua? No Paraná, a candidata Dilma Rousseff, no dia seguinte, foi alvo - felizmente quem lançou errou a pontaria - de balões de água. Esse é exatamente o ponto em que o chefe da Nação precisa pedir calma aos dois lados, lembrar os valores democráticos, e a melhor atitude na disputa política. Mas é exatamente neste momento que o presidente ofende quem foi atingido e convalida o comportamento desviante de quem agrediu. Ao tratar com leviandade um assunto sério, incentivou a militância a repetir o comportamento, escalou o conflito e deseducou o cidadão.

Essa campanha eleitoral está deixando cicatrizes nas instituições. Um presidente da República não deve fazer o que o presidente Lula tem feito. Não deve usar a máquina, a Presidência, o poder em favor de um dos candidatos dessa forma e com essa força. Claro que Lula tem um lado, um partido e uma candidata. Pode e deve explicitar isso. Seria estranho se não o fizesse. Mas a Presidência da República não pode ser usada como braço do comitê de campanha. Existe uma linha divisória que Lula nunca quis ver. E esse comportamento errado do ponto de vista institucional se repetiu durante toda a campanha. Em alguns momentos, os atos inadequados do presidente ficaram evidentes. Esse episódio deixou claríssimo o que não se deve fazer. Que as pessoas que vierem a ocupar este cargo no futuro vejam nas atitudes do presidente Lula de 2010 exemplos do que não fazer, não repetir.

O risco é que seja visto como natural daqui para frente o governo usar órgãos públicos para espionar adversários políticos; órgãos públicos, estatais e agências serem partidarizadas de maneira abusiva; o presidente não ter freio institucional. Não se acostumar com o erro repetido é a única garantia que se tem em momentos assim.

Quem já viveu sem democracia sabe o valor de cada ritual, limite, processo. Quem nunca viveu não tem como ver os riscos quando eles surgem com seus sinais antecedentes. Por isso é natural que os mais jovens pensem ser um exagero da oposição ou concluam que o episódio de Campo Grande não foi nada. Afinal, como ninguém se feriu seriamente, que problema tem? Podem pensar que se o presidente acha que o candidato da oposição é um farsante como aquele jogador de futebol isso é só mais um jogo, mais uma pelada no campo político. Se os mais jovens forem displicentes, é até compreensível. Um homem nos seus 65 anos, que viu o que o presidente Lula já viu no país, só brinca se não estiver levando a sério o cargo que ocupa, a faixa que recebeu, o poder que tem.

Hoje, os riscos institucionais não vêm mais dos quartéis, como se sabe. As Forças Armadas não conspiram contra a ordem democrática e isso é um salto extraordinário que o país deu com a contribuição de inúmeras pessoas e com o sacrifício de muita gente. Hoje, os riscos são outros, tem novas origens, e métodos diferentes.

Está em moda na América Latina demolir as instituições por dentro, minar a democracia, enfraquecendo o sistema de pesos e contrapesos, descaracterizar os poderes até eles ficarem irreconhecíveis, controlar a imprensa para não ouvir o contraditório. Felizmente, isso não acontece em todos os países, mas os casos em que esse processo está em curso são tão notórios e assustadores que qualquer pessoa que tenha passado pela experiência da ausência de democracia é capaz de ver. Certos governantes começam fazendo chacota de coisas graves, como Hugo Chávez. Ele xingou adversários políticos ou contou piadas e pôs apelidos supostamente engraçados para desacreditá-los. Isso, no princípio. Depois, ficou muito pior. Cristina Kirchner começou falando mal dos jornais e agora fala em estatizar a imprensa. Todos os que escolhem esse desvio político tentam intimidar a oposição para depois tentar exterminá-la.

Nenhum desses governantes do barulho da América Latina sabe o limite no uso dos órgãos e empresas públicas para objetivos políticos porque essa é uma poderosa ferramenta para minar o que mais os ameaça: o princípio da alternância no poder.

Como já escrevi nesse espaço, numa democracia não importa quem ganha a eleição, mas como se ganha a eleição. Se o presidente Lula conseguir seu objetivo tão almejado de fazer Dilma Rousseff sua sucessora, que seja pelos méritos de ambos, e não pelos erros e desvios dessa triste campanha.”

Oh, Lula, não faça isto. Se você perder eu juro que volto para Caetés, e lutarei para que seja o nosso Prefeito em 2012. E garanto, não vai dar nem prá Zé da Luz. Repito o que sua mãe D. Lindu, dizia quando a gente fazia um “mal feito”: “Toma vergonha, menino!!!


Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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