quinta-feira, 21 de outubro de 2010

FOFOCA NO ÔNIBUS... CUIDADO



Estava na Loja Ferreira Costa, na Imbiribeira, apanhei o ônibus para o centro da cidade, sentei-me, nas cadeiras reservadas para idosos e deficientes. Na minha frente estava uma senhora sentada folheando a Bíblia, quando na parada seguinte entra outra senhora, sua conhecida e começa o dialogo em voz alta, todos os passageiros ouviam.
- Oi, muié, de onde tu vem? Perguntou a senhora com um sorriso, mostrando a cadeira ao seu lado.
A outra senhora responde: Venho da casa de mia fia.
- E como tu vai?
- Eu? Vou muito bem com a graça de Jesus
- Tem ido a igreja?
- Vou, sim. Você é que não vai, não é? Nunca mais lhe vi lá.
- É mia fia a coisa ta grossa lá em casa. Tenho estado doente. As pernas é um cansaço só. Já fui ao medico, lá no posto, mas é uma desgraça. Madrugo na fila e quando o doutor chega nem olha pra gente, vai logo perguntando o que você tem? Eu mia fia respondo logo ao doutor “estou com uma canseira danada nas pernas. Não posso andar muito que me dói muito, a perna esquerda, sinto o formigamento que me incomoda, não sei, não doutor o que isto. Já tomei o remédio que outro doutor passou mais não tenho melhora, eu acho que esta é pior” o doutor fica com cabeça baixa escrevendo, não examina e nem olha pra mim, já pensou, cumadre!” . E quando, olha pra mim vem com aquele sorriso chato e diz e senhora esta é boa de saúde, vou passar um remedinho para passar este cansaço. Tome e volte após tomar o remédio.
- Mia fia, ele nem se levanta da cadeira e eu volto com aquele papel na mão com letras que ninguém lê. Tem jeito cumadre? Gente pobre sofre na mão destes desgraçados. Somente Deus é por nós pobres, não é?
- Muié me conta as novidades. Não tenho saído de casa, neste dias, somente em casa lavando e tomando conta do meu filho Josué. Não tenho tempo pra nada.
- Novidade nenhuma. São as mesmas fofocas que sai da boca daquela gente que não vai pra igreja, orar e louvar. É um horror.
- E como vai o teu filho? Esta doente, não é?
- É um caso sério, para mim que sou mãe, cuidar de bêbado. Deixei dormindo. Chegou ontem “chapado” e deitou-se onde encontrou canto na casa e lá esta, dormindo e roncando como um porco. Quanto desgosto.
- É uma pena, respondeu a mulher vestida de verde e blusa branca.
Olhou ao seu redor e levou a mão na boca, suspirando e ajeitando o cabelo esvoaçado pelo vento. O ônibus parava descia e subia passageiros. Passou o lenço no rosto suado e exclamou:
- Muié, tenho uma novidade, não é fofoca, pois tu sabe que eu não sou mulher de disse-me-disse, bateu no peito com a mão esquerda mostrando o anel e aliança fina.
- Diz, muié, tu não sabe que te considero como a melhor amiga! E, além disso, não sou tua cumade? Se ajeitando na poltrona do ônibus, para ouvir o que a cumadre ia revelar.
- Conheces Dona Marieta? É aquela que mora na esquina da outra rua, numa casa toda pintada de verde!
- Sei, sei, sei, muié!
- Pois é. Ela foi parar na Delegacia, segunda feira à noite.
- O que? Respondeu a mulher colocando a mão no boca com espanto e olhando para o lado onde outros passageiros estavam sentados e ouvindo.
Ajeitou-se na cadeira, e falou:
- Como fui isso, muié?
- Não sei, não. Diz as más línguas, e eu apenas conto o que me contaram. Pediram para não espalhar o caso, pois, ela anda muito triste e acabrunhada. Ela nunca foi a uma delegacia. Nunca roubou. Nunca ofendeu ninguém. Só deseja o bem e porque aconteceu isso com ela?
- Tu conheces ela, não conheces?
- Claro mia fia é uma mulher de bem. É uma mulher de valor.
- Pois é. Veja como aconteceu. Ela saiu da igreja, após o culto da prosperidade, pregado por aquele, pastor, galego, eu não me lembro do nome dele. Tu sabe quem é, não sabes?
- Claro muié, claro que sei. É o pastor Daniel, não é?
- Claro. Como prega bem? Eu fico encantada com os seus gestos e suas palavras que nos conforta. Às vezes chega lágrima nos olhos.
- Olhe como aconteceu.
- Dona Marieta, pegou o ônibus, como faz toda segunda feira, no Terminal de Santa Rita as sete meia da noite. O ônibus ia lotado. Muitos passageiros em pé. Ela sentou-se no meio, do ônibus pagando a passagem, pois, não tem 65 anos. Botou a bolsa preta no colo e encima a Bíblia e fechou os olhos para meditar e refletir o louvor do pastor.
Um rapaz com mais ou menos vinte e cinco anos ficou em pé ao seu lado. Bem vestido e de ar tranqüilo, com uma sacola no ombro e um pacote na mão. Dona Marieta, olhou bem para o rapaz, como boa evangélica pediu o pacote para segurar O rapaz deu a ela o pacote embrulhado em um papel vermelho. O tempo passa e ela cochila no ônibus. O ônibus segue pela Imbiribeira, chegando perto do lixão da Muribeca, uma patrulha da policia lá estava parando os coletivos para revistar os passageiros, pois, ali se dá muito assalto. O motorista parou o ônibus, e a policia abordou os passageiros no interior, ficando um soldado na porta dianteira e outro na porta traseira, enquanto outros dois pedia gentilmente as pessoas que abrisse a bolsa e o homens ficassem de pé para serem revistados. Pediam a identidade, conferia e devolvia. Nada encontraram. Dona Marieta, se acordara naquele instante. O soldado perguntou que pacote era aquele. Ela, inocentemente, disse que era de um rapaz. Olhou para o lado e para o outro não o encontrou. Ficou apavorada. O soldado pegou e como estava pesada e dura, pediu licença e rasgou um pouquinho o invólucro, ficando surpreso com o que viu. Era maconha prensada.
- Já pensou, cumadre? Batendo no ombro da outra ao seu lado.
- Ela ficou paralisada. Não sabia o que falar. Somente dizia que era de um rapaz, mas ninguém viu o rapaz, quando o soldado perguntou aos outros passageiros. Ninguém viu nada? Começou a chorar. O soldado, no entanto disse: Vamos a delegacia e lá lavraremos um Boletim de Ocorrência (BO) sobre a apreensão da maconha em seu poder. A justificativa dada ao soldado, não justificou. A maconha foi encontrada no seu colo e, desta forma teria que ir a Delegacia para lavrar o flagrante. Ela levantou-se “doida” e “chorosa” seguindo para a Delegacia. Foi interrogada, negando tudo e contando a historia verdadeira. O Delegado vendo que ela tinha sido vitima de algum “malandro” mandou que ela ficasse sentada esperando a investigação. O delegado verificou a condição dela o bairro onde ela morava, tomou informações com os seus vizinhos que lhe afirmaram trata-se de pessoa honesta e conhecida na comunidade há mais de trinta anos. Foi liberada após algumas horas sentada no banco duro da Delegacia, enquanto os policiais verificavam a veracidade do fato.
- Pois é não me confio mais em ajudar a alguém.
- Quem quiser que leve seus embrulhos. Não pegarei mais nem bolsa, pacotes e sacolas. Este caso serve de exemplo para nós, disse olhando para os passageiros que estavam ouvindo. Descemos todos na cidade e cada um seguiu o seu destino.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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