quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Frei Betto e a Madre Superiora






O Frei Betto escreveu domingo passado na Folha de São Paulo, sobre a Dilma. Antes de escrever sobre o que ele escreveu, convém apresentá-lo pelo menos para aqueles que acham que ele merece apresentação.

Para fazer isto não usarei minha memória dos tempos em que admirava o Partidos dos Trabalhadores e o meu conterrâneo Lula, de quem ele foi um professor e assessor durante muito tempo. Eu transcreverei apenas o que diz o seu site na internet:

“Autor de 51 livros, editados no Brasil e no exterior, Frei Betto nasceu em Belo Horizonte (MG). Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Frade dominicano e escritor, ganhou em 1982 o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro de memórias Batismo de Sangue. Em 1986, foi eleito Intelectual do Ano pelos escritores filiados à União Brasileira de Escritores, que lhe deram o prêmio Juca Pato por sua obra “Fidel e a religião”. Seu livro "A noite em que Jesus nasceu" (Editora Vozes) ganhou o prêmio de "Melhor Obra Infanto-Juvenil" de 1998, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2005, o júri da Câmara Brasileira do Livro premiou-o mais uma vez com o Jabuti, agora na categoria Crônicas e Contos, pela obra “Típicos Tipos – perfis literários” (Editora A Girafa).

Foi coordenador da ANAMPOS (Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais), participou da fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e da CMP (Central de Movimentos Populares). Prestou assessoria à Pastoral Operária do ABC (São Paulo), ao Instituto Cidadania (São Paulo) e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Foi também consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em 2003 e 2004 atuou como Assessor Especial do Presidente da República e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero. Desde 2007 é membro do Conselho Consultivo da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. É sócio fundador do Programa Educação para Todos.”

Um excelente intelectual o Carlos Alberto Libânio Christo, nome de batismo do Frei Betto. E além disso um homem, pelos cargos que exerceu no governo Lula, que se mostrou uma pessoa engajada nos aspectos sociais da atuação da Igreja, sendo seu principal cargo o de coordenação do Fome Zero. Tão inteligente e bem intencionado que deixou o PT e o governo Lula já há muito tempo junto com outros, muitos outros.

Mas parece que petismo não tem cura, é uma doença que corrói as mentes de pessoas, muitas vezes bem intencionadas, com o vírus letal da busca pelo poder, e pela certeza que eles tem a solução final para os problemas sociais, enquanto os outros apenas são “caras pintadas”, que quando lavam, mostram a verdadeira face. Mesmo, quando mudam de companheiros, quando cheiram algum revés eleitoral, correm para acudir a quem deixaram, pelo caminho. Vale tudo, até ir à missa todo o dia, ou mudar de opinião a respeito de valores importantes, como está fazendo a Dilma agora. Mas deixemos a Madre Superiora de lado e nos concentremos no Frei Betto.

Vamos mostrar o que o Frei Betto pensa agora, no texto citado, e o que ele pensava antes e colocar alguns comentários no meio. O que ele pensava antes vem de uma entrevista à jornalista Renata Camargo (que se alguém quiser ver clique aqui). Daqui prá frente, tudo que estiver escrito em azul, o Frei Betto disse no passado. Tudo que ele diz agora é está em vermelho. E o que digo estará no preto, como sempre.

Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária aos princípios do Evangelho e da fé cristã.

Eu não entendo muito de religião, este é o departamento de Lucinha. Por que não entendo? Porque na minha juventude eu era fã do PT, do Lula, e ao contrário dele, do marxismo, cujo autor achava que a religião era o ópio do povo, e seria humilhante alguém lutar contra a ditadura militar, indo à missa todos os dias. Será que alguém pode acreditar que a Dilma, guerrilheira confessa, que eu nunca ouvi falar na época, nunca foi contrária aos princípios do Evangelho e da fé cristão? Isto é, no mínimo, distorcer e muito o cristianismo.

Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência. Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere, participava de orações e comentários do Evangelho. Nada tinha de "marxista ateia".

Dar para acreditar? Entre um roubo de um banco e outro, a Dilma rezando e comentando o Evangelho? E dizer “marxista ateia”, para aqueles que não sabem, passou de pleonasmo para a realidade com o advento da chamada “Teologia da Libertação”, que tenta convenceu os incautos, e eu incluo aqui até a Lucinha Peixoto, de que não havia nenhum contradição entre Jesus e Marx, e se houvesse alguma, Marx é que estava com a razão, porque o reino dos céus está mais próximo da terra do que quem dizia que “o meu reino não é deste mundo

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

O Frei Betto aqui está certo.

Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não passa de campanha difamatória - diria, terrorista - acusar Dilma Rousseff de "abortista" ou contrária aos princípios evangélicos.

O que a Dilma dizia sobre o aborto, e está documentado em filme que já foi publicado aqui neste Blog, é o suficiente para ver que ela era a favor da descriminalização do aborto, como sempre o foi o seu partido, o PT. Dizer que isto não era contrário ao evangelho, pode até ser verdade, mas, não se pode reclamar de quem não interpreta assim, dentro das principais religiões, que aconselham a não votar na Dilma.

Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade. Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo.

O Frei Betto está certo, e eu, que hoje creio em Deus mas não sou católico, acho que nem todos os papas são dono da verdade. Nem Lula, nem o PT. Mas, mesmo não sendo explícito, eles tem o direito de não votar, e até mesmo orientar o voto dos seus fiéis, para não votarem em quem é contra seus “foros íntimos”. Todos nós o temos, não é só Dilma que tinha. Hoje ela externalizou tanto o seu íntimo, dizendo que é contra o aborto e rezando a céu aberto, que é difícil e quase impossível acreditar no que ela diz.

Dilma, como Lula, é pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica. Na linha do que recomenda Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que "a árvore se conhece pelos frutos", como acentua o Evangelho.

Isto poderia ser antes dela querer se tornar a Madre Superiora para fins eleitorais, não é, Frei Betto? Esta semana que passou ela foi a uma missa por dia, e Lucinha me disse que numa delas ela não soube nem fazer o sinal da cruz. Mas isto é com Lucinha que está preparando um artigo sobre isto.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a fé que abraçam.

Vide o comentário anterior. Até o Lulinha, paz e amor, mudou seu procedimento quando se viu, através das pesquisas erradas, o “dono da carne seca” no primeiro turno, agora voltou a ser nada, pois tão evitando usá-lo na campanha. Estão usando um homem que hoje tem mais credibilidade do que ele, o José de Alencar, mas, que se continuar com o mesmo tom, vai perde-la também.

Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto...

Eu me lembro disto e me lembro até da Regina Duarte e do medo que os empresários tinham de Lula. Era por causa dos boatos ou pelo o programa do PT? Lembre, Frei, que para se eleger, o Lula teve que mostrar quem era, laçando a famosa Carta ao Povo Brasileiro. E para ser justo tenho que dizer que ele a cumpriu. Em matéria de economia, não fez mais nada a não ser pagar o FMI, dando prejuízo ao Brasil, e manter as mesmas políticas de FHC. Na área social o Frei Betto de ontem diz:

Na verdade, o governo Lula estabeleceu uma série de programas sociais que estavam atrelados ao Fome Zero. Depois de dois anos essa marca foi, a meu ver, irresponsavelmente, mudada para o Bolsa Família. O Bolsa Família era um dos 60 programas do leque Fome Zero. Quando nós elaboramos o Fome Zero, a proposta era que cada família permanecesse na dependência do governo federal, no máximo, por dois anos. Fim dos dois anos, a família teria condições de produzir a sua própria renda. Era um programa emancipatório. Aí, alguns setores do governo descobriram que o Bolsa Família era um grande manancial de votos. Ou seja, melhor manter as famílias dependentes permanentemente do governo, que elas vão retribuir em votos. Daí se matou o Fome Zero e se valorizou o Bolsa Família, que eu não sou contra, mas é incompleto, imperfeito, insuficiente e assistencialista. Perdeu-se o caráter emancipatório para o caráter compensatório, em função de um projeto político, que não é a emancipação brasileira. Mas é a permanência no poder, na medida em que esses beneficiários do Bolsa Família trazem em contrapartida votos.

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente.

O comentário eu deixo para o Frei Betto, na entrevista citada acima quando a jornalista o pergunta qual a avaliação que ele faz dos sete anos do governo Lula, portanto, um ano a menos, mudou alguma coisa?

É um governo que lamentavelmente na sua trajetória mudou a rota. Deixou de lado um projeto de Brasil, por um projeto de poder. A ponto de fazer hoje uma coligação de 14 a 16 partidos em função de um horizonte de poder e não um horizonte de Brasil. Sabendo que a maioria desses partidos historicamente sempre foram contra as propostas do PT e não tem nenhuma afinidade com aquilo que o PT, durante 20 anos, definiu como prioridade para o Brasil. Como por exemplo, a reforma agrária que até hoje não foi feita.

Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar boataria e mentiras. Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.

Já comentei sobre isto logo acima. Aqui eu acrescento, que com o comportamento atual da Dilma quem está plantando boato, além do PT, é o Frei Betto.

Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que seriam aqueles que vivem batendo no peito proclamando o nome de Deus. Nem os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes.

Eu já disse que não entendo muito de religião e pergunto a Lucinha e aos católicos, como Dilma: Havia missa na época de Jesus? Eu pelo menos, nunca ouvi falar que Jesus era católico e igual a Dilma. Caro Frei, isto não seria usar o nome de Deus em vão e com fins eleitorais?

A resposta de Jesus surpreendeu: "Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me libertastes..." (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura assegurar a todos vida digna e feliz. Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita presidente, prosseguirá na mesma direção.

Este é o último parágrafo da propaganda eleitoral do artigo do Frei Beto. E ele se mostra um exímio assessor nesta área. Será que ele agora, junto com o Ciro, Zé Dirceu e Palloci estão tomando as rédeas da campanha, expulsando os vendilhões marqueteiros do templo petista? Parece que sim, pois é muito difícil acreditar que a Dilma possa seguir os passos do Lula com tantos outros vendilhões em seu encalço, cuja chefia deverá, como ele já disse deverá ser dele e do PT, nosso, talvez crente e católico também, o Zé Dirceu.

O artigo atual terminou, mas a entrevista do Frei de alguns meses atrás não. Veja o que ele disse quando perguntado sobre o PAC:

O PAC peca por dois fatores: um porque o governo deveria primeiro desentravar a burocracia federal que existe para a realização de obras públicas. O processo de licitação, de implementação, tudo isso é muito complicado. E segundo, o PAC não é feito de uma maneira que privilegia as áreas mais pobres do país. São grandes obras de energia e etc, importantes para o Brasil. Mas eu acho que um PAC verdadeiramente correspondente às necessidades brasileiras, ele deveria priorizar educação, produção para o mercado interno, transporte. Nós temos um sistema absolutamente precário de transporte, e ao mesmo tempo, eu volto a dizer a reforma agrária.

Sobre a candidata Dilma, que hoje diz que nem era candidata aquela época para se livrar do problema da Erenica, o Frei diz:

Eu acho a Dilma uma pessoa muito competente, uma pessoa que pode dar continuidade [ao projeto do Lula]. Sem dúvida nenhuma entre ela e um candidato do PSDB, eu votarei nela. Agora eu lamento que seja uma candidata do Lula e não uma candidata do PT. Queria que viesse uma candidata do partido.

Ainda quando perguntado sobre quem deveria ser candidato do PT e se preferia que tivesse sido o Tarso Genro ele diz:

Sem dúvida nenhuma. Como o ministro Patrus [Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome] também. E outros, como o [ministro da Educação] Fernando Haddad, que é altamente competente. Ele tem feito o impossível na educação sem o suficiente apoio.

Eu nunca mais havia ouvido falar do Frei Betto. Ele andava um pouco sumido da mídia, Mas, como bom petista, na iminência de perder as eleições, voltou. Ele é uma pessoa muito inteligente, para se enganar tanto com as pessoas. Também não acho que ele está agindo com má fé eleitoral, a não ser que ele agora convença os católicos de que mentir não é mais pecado mortal. Em eleição é pecado venial. Ou seja político não vai para o inferno de cara, passa pelo purgatório antes.


Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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