terça-feira, 26 de outubro de 2010

A "mancada" do meu candidato, José Serra




Dias atrás escrevi um artigo (veja aqui), no qual eu usava um palavrão no título, pelo menos para as pessoas mais pudicas. Gente da minha geração agora acessa a internet, e eles não gostam muito de termos enfáticos, como é o verbo cagar, que é usado todos os dias por todos nós seres viventes, mas as pessoas não se acostumam, nunca. Gente, cagar é normal. O que é anormal é cagar fora do penico, como fez o Lula recentemente, e, em verdade vos digo, não foi a primeira vez. Por via das dúvidas resolvi usar "mancada" ao invés de cagada, para não me taxarem de sensacionalista.

Todos sabem que, depois que a minha candidata Marina não passou para o segundo turno e subiu em cima do muro, eu apoio Serra, numa estratégia eleitoral prudente que é votar no menos pior, para evitar o pior. Isto, entretanto, não implica faltar com as minhas devidas críticas, principalmente quando elas se dirigem ao passado, e já foram feitas as devidas correções de rumo.

Uma delas, que chamo aqui uma autêntica mancada, foi deixar que a Dilma e o PT, batessem tanto no Fernando Henrique e seu governo, sem deixá-lo, pelo menos, se defender. Gente, o FHC, pelo que ele representou para o Brasil, merecia mais respeito. Uma de suas demonstrações de caráter, foi ficar calado, ouvindo as críticas, sendo um fiel soldado do seu partido, enquanto os adversários costuravam e bordavam com o seu nome e com o seu governo. Hoje, os “campanheiros” de Serra começaram, não sei se tarde, a reconhecer o erro, que eu chamo enfáticamente de mancada. Meus amigos religiosos, meu confessor me disse, cagar faz parte da vida, e usar o termo, se for pecado, é bem “venialzinho”, mas, com disse prefiro não arriscar.

Então por dever de justiça, e esperando que ainda seja tempo para restabelecer a verdade dos fatos, e, espero que aqueles que pensam como eu, a divulguem, eu transcrevo uma carta aberta do Fernando Henrique Cardoso para o nosso apedeuta-mor, que agora, de tanto querer se comparar com Getúlio Vargas, e sem saber um pingo de história, quer se tornar o fascista-mor do nosso país. E que Deus nos proteja. Vejam a carta em azul.

"O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal.

Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010.

“Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”. (José Eduardo Dutra)

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.


Fernando Henrique Cardoso"

Depois de ler esta carta leia o programa de governo da Dilma, lançado ontem, e vejam quem está dizendo a verdade. Eu acredito mais em Fernando Henrique do que em Lula, mas, quem conhece e meu viés político, sabe que sou suspeita para falar, pois penso que o que apedeuta fez de bom pelo país, até Zé Bebinho faria, com as condições mundiais que ele pegou. Vejam por vocês mesmos.

Além disto, alguém teve a ousadia que eu tive de ver o debate da TV Record ontem? Viram a introdução ao debate feita pelo Edir Macedo, para ser lida pelo mediador? "A candidata Dilma que teve 47 milhões de votos e o candidato Serra que teve 38 milhões." Depois desligaram o relógio do Serra. Será que a TV Record cai agora na cota da "grande imprensa" do Jodeval e do Roberto Almeida, respectivamente, o "cubano" e "o que parece com um petista" e dos petistas genuinos? Eu pensei que a esta altura, depois de muitos debates, a Dilma gaguejaria menos. Muito pelo contrário, houve uma hora em que parecia uma vitrola com a agulha ruim. Cada vez mais eu sinto saudade do Fernando Henrique, pois a "apedeutice" do padrinho de Dilma pode levar este país ao caos. Vade Retro, Satanás!

Lucinha Peixoto – lucinhapeixoto@citltda.com

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