segunda-feira, 18 de outubro de 2010

MIMI








Quando morávamos na minha querida Rua do Caborje, 144 em Bom Conselho, no inicio dos anos 50, tínhamos em nossa casa um bonito gato amarelo com listras brancas, de olhos verdes, e patas brancas, de nossa estimação, que atendia pelo nome de MIMI, ficava sempre deitado no sofá na sala de visita ou nas camas de mola Faixa Azul comprada pelo meu pai no “quadro” na loja da cidade. Era um lindo felino, manso, e somente fazia dormir e comer debaixo da mesa, em nossas refeições. Era sonolento e muito manso passava a tarde cochilando com os olhos semi-serrado e o longo bigode estremecido com o abrir da boca.

Mas, o que me lembra este nome MIMI, era de um colega que morava em um pensionato na Rua Dom Bosco em frente ao Colégio Salesiano, na Boa Vista. Eu morava, como sempre no tempo de estudante nas pensões que circulavam o Pátio de Santa Cruz, no mesmo bairro. Vez por outra, estávamos juntos no Bar Santa Cruz, tomando uns aperitivos, ouvindo as músicas preferidas e que estavam fazendo sucesso na radiola de ficha, com o seu piscado de luzes verdes, azuis, amarelas e vermelhas. Seu nome era MIRIVALDO DA SILVA, veio da cidade interiorana do Estado, como eu, para estudar no Recife. Sua naturalidade de Salgadinho demonstrava na sua timidez interiorana. Era um rapaz louro, de olhos azuis, alto com o seu penteado da “moda” usando brilhantina Glostora, bem afeiçoado que chamava a atenção das meninas que estudavam no Colégio São José na Avenida Conde da Boa Vista, nas tardes recifenses, sem o burburinho de carros que existem atualmente. Ficávamos sempre na calçada do Mustang e muitas das vezes na calçada da Mesbla. Ali desfilavam estas criaturas bonitas, que eram as alunas que saia do Colégio ao cair da tarde, passeando pela calçada de braços dados, com a sua farda escolar de blusa branca e saia plissada de um azul marinho, e de vez em quando um piscarem de olho para algum rapaz que ali fazia ponto. Mirivaldo, não gostava deste apelido. Achava que era um apelido efeminado, de muita delicadeza e de sussurro, preferia que o chamasse Valdo, no entanto, como ficava chateado a turma adotou o seu nome de Mimi. Cursou a faculdade de Economia que ficava na Rua do Hospício esquina com a Avenida Conde da Boa Vista. Após o termino do curso, com um baile no Salão do Clube Internacional do Recife, saiu da pensão e nunca mais nos vimos.

O tempo passa e ninguém neste mundo “some” se deixar rastro. Um dia se sabe o seu paradeiro e sem “querer” o encontramos em algum lugar sem precisar o tempo, horário, simplesmente nos encontramos por acaso. E, foi o que se deu. Encontrava-me em Aracaju, na Praia de Atalaia, tomando um chope em um dos bares da orla, sentado despreocupadamente, solvendo somente a brisa do mar e vendo o sol se pondo e a noite chegando, e de longe as plataformas da Petrobras com as suas luzes brilhando no oceano, quando de repente bate em meu ombro, me viro para atender, deparo-me com MIMI, o Dr. Mirivaldo da pensão da Rua Dom Bosco, das tardes no calçadão da Avenida Conde da Boa Vista, do Mustang, do Savoy e tantos outros lugares recifenses, ali em pé diante de mim. Não o reconheci de imediato, pois estava tão velho quanto eu, cabelos brancos e barba longa, parecendo mais Papai Noel. Ele me reconheceu de imediato pelo meu físico que nada mudou durante estes anos. Puxou a cadeira e começamos a conversar. Lembramos dos tempos de brincadeiras, das noitadas, das idas e vindas ao futebol, principalmente, quando jogava o Sport Clube do Recife, Quando aportávamos no Bar Amarelinho, antes do inicio dos jogos, a tomar umas cervejas, das tardes dançantes no Clube Internacional, idas a praia da Boa Viagem e voltar dentro dos ônibus suados no empurra-empurra e no sacolejo dos ônibus e tantas outras travessuras que realizamos ao longo daqueles anos de convivência. Disse-me que morava em Aracaju há muito tempo, que vinha raras vezes ao Recife, mas que não encontrava ninguém daquele tempo apesar de passar pelos lugares que tinha preenchido um pouco a sua vida. Arranjou um emprego na Petrobras, no Rio de Janeiro, e que algum tempo depois foi transferido para a cidade de Aracaju. Aqui permaneço, completou tomando um gole do chope geladíssimo. E tu, que estais fazendo aqui? Eu? Estou dando uma ajuda ao meu filho que é fonoaudiólogo e que sofreu uma pancada no pé esquerdo e não pode dirigir. Olhe lá vem ele! Falei para o Mimi. Vem se arrastando com ajuda de muletas. Tomei um gole e peguei com um palito um petisco de salame. Pois é quanto tempo? Falou Mimi, com o copo na mão. Tens visto alguns dos nossos amigos de antigamente, no Recife? Quase não os vejo, respondi. Pois é, tenho saudades daquele tempo de molecagem, dos bares, da escola, e de tantos outros momentos, enfim não podemos retroceder no tempo, somente guardamos recordações. Conversamos bastante sobre as nossas famílias. O Mimi casou-se duas vezes. Da primeira mulher teve dois filhos, que já estão formados e moram no Rio de Janeiro. Da segunda mulher, dois filhos que já cursam faculdades em Aracaju. Todos estão no caminho certo. Todos estão casados. Já tenho quatro netos e, tu? Eu! Tenho oito netos, todos bonitos como o avô, rimos. Tomamos mais alguns aperitivos com petisco de peixe, olhando, já à noite o luar que brilhava no mar, trazendo aquela tranqüilidade e sossego para nós. Saímos mais ou menos dez e meia da noite, cada um indo para a sua residência, eu para o bairro de Aruana e o Mimi para o bairro Treze de Junho, junto ao shopping Jardins. Deixou o seu endereço para que eu pudesse o visitá-lo em outra ocasião. Um abraço fraterno foi a nossa despedida deste encontro amigável de longas datas, de um tempo que floresceu uma amizade sincera e que perdura até a presente data.


José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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