domingo, 10 de outubro de 2010

OUTRO SUSTO...



Em 2007, com temporada no Teatro Barreto Junior, no bairro do Pina/Recife, estávamos em cartaz com a peça “Lucíola” de José de Alencar com o Projeto “Escola no Teatro” onde levamos milhares de alunos das escolas particulares da Região Metropolitana do Recife. Este projeto criado há mais de doze anos pela GALHARUFAS PRODUÇÕES onde o produtor, diretor e ator Taveira Junior, meu filho resolveu com a classe docente de cada escola levar os seus alunos para uma peça literária para aqueles que cursam o segundo grau, sempre no meado do mês de Maio até o meado de junho de cada ano. O “texto é adaptado para o teatro pelo Taveira Junior, tais como “O Seminarista” de Bernardo Guimarães” (1998), “Inocência”, de Visconde de Taunay (1999), “Memória Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis (2000), “Senhora” de José de Alencar (2001), “O Cortiço”, de Aluizio de Azevedo (2002), “O Alienista” de Machado de Assis (2003), “Triste Fim de Policarpo Quaresma” de Lima Barreto (2004), “Lucíola”, de José de Alencar (2005/2006), e assim por diante. Os ingressos para assistir o espetáculo são entregue na secretaria de cada escola que se encarrega de passar para os alunos. No dia da apresentação, ao chegar ao Teatro Barreto Junior, os diretores e coordenadores de ensino, prestam conta dos ingressos vendidos em moeda corrente, para aos quais emitimos um recibo de quitação para o colégio. Ocorre que logo após a prestação dos ingressos vendidos o espetáculo tem inicio, com gritos e assovios dos estudantes secundaristas que em breve tempo fazem silencio tão logo os atores entram em cena. Então no salão superior do Teatro Barreto Junior, contamos o numerário e pagamos os ônibus que buscam os alunos nas escolas, a pauta do teatro e o cachê de cada ator ou atriz. Muitas vezes as pessoas me alertavam para este serviço seja feito na sala do Diretor do Teatro, mas eu não ligava para este conselho, apenas ria e eles riam também, quando eu dizia nada acontece aqui em cima, temos segurança não è? E, ainda mais a nossa ordem é não deixar ninguém desconhecido entrar no teatro sem identificação. Com estes argumentos deixava-me a aceitar os conselhos. Os meus pais, já em Bom Conselho, diziam com toda sabedoria “Quem não houve conselhos, raras vezes acerta”, não é verdade? Os anos se passaram e nada acontecia. Mas, numa bela tarde recifense, quente e já ao cair da tarde, fomos surpreendidos por um “marginal” que nos assaltou. Estava separando os valores dos atores e atrizes, e, por sorte já tinha efetuado o pagamento de dez ônibus e a pauta do teatro, quando subiu a escada um “marginal” de bermuda florida, camiseta amarela e um boné preto com um escudo da Ferrari. Calçava um tênis brilhoso com listra azul e um branco gelo, talvez sujo pela poeira, e um óculo escuro pendurado no pescoço. Tinha em cada orelha um brinco brilhante de segunda categoria e um transcelim de metal com distintivo da “Nova Era”. Olhou desconfiado para o ambiente esticando o pescoço, no término da escada, enquanto visualizava que não havia ninguém no local, somente eu. Pensei no momento que este rapaz vinha tomar água em um bebedouro existente na sala. Já ia me pronunciando e informando que não havia água e se quisesse fosse beber no hall do teatro. Mas quando o fitei já próximo, deduzi de imediato em pensamento: “vou ser assaltado”, dito e feito. O saldo do dinheiro espalhado na mesa, já me preparando para colocar na bolsa. Com um riso cínico mostrando a falta de três dentes, disse levantando a camisa mostrando na cintura uma linda pistola niquelada, brilhando mais do que “catarro em parede”. Disse meu jovem (até que foi educado!), é um assalto e não reaja. Junte o dinheiro, e coloque em uma sacola. Falei, para este educado “marginal”, não tenho sacola, leve na minha bolsa. Ele riu sarcasticamente, e disse: quando eu descer todos reconhecerão a sua bolsa. Neste mesmo instante, o meu filho Rafael ia chegando, falando ao celular com a sua noiva. Ficou um pouco distante, pensando, que aquele rapaz estava falando alguma coisa referente a algum recebimento. Ele se virou e disse: Boy venha cá. Rafael se aproximou e quando viu a pistola em sua cintura embranqueceu. “Ò boy o que você leva na pequena bolsa?” Perguntou o “marginal” já com a pistola na mão. Rafael falou para ele “é a minha raquete de Tênis de Mesa”. Dê-me a bolsa e coloque todo o dinheiro dentro dela. Rafael, tremendo sob a ameaça da arma brilhante colocou todo o dinheiro. O marginal, disse, rindo: Obrigado! Levante-se e vamos para o banheiro, calados e sem nenhuma reação. Tirou a arma da cintura e senti na minha nuca a frieza desta pistola. Seguimos para o banheiro, onde fomos trancados com a recomendação de não sair pelo prazo de 15 minutos. Depois do tempo passado, saimos e encontramos todo o elenco sentado e conversando a espera de receber o seu cachê pela apresentação. Contei-lhes o fato e, ai foi aquela zuadeira. Todos queriam saber como foi o caso. O Diretor do Teatro Barreto Junior, correu ao nosso encontro, como os demais funcionários, inclusive, o segurança. Foi relatado nos mínimos detalhes para os presentes e seguimos em grupo para a Delegacia de Boa Viagem, onde relatamos ao delegado de plantão e recebemos o Boletim de Ocorrência (BO). A Direção do Teatro Barreto Junior, estava indignada com a ação do bandido, mas que ressarcia o prejuízo no valor de R$. 4.200,00-, não cobrando a pauta que o teatro tem direito por cada apresentação.

Ficamos desconsolados e estupefatos com o acontecido.

Dias se passaram, e em um belo dia, seguíamos para o Teatro Barreto Junior, pela manhã ensolarada recifense, com um vento ameno vindo do mar. Descemos do ônibus, em frente à Matriz Nossa Senhora do Rosário, no bairro do Pina, para atravessarmos a Avenida Herculano Bandeira, quando no meio de várias pessoas, aportou uma bicicleta ao meu lado, ao me virar, dei de cara com o “marginal” que tinha me assaltado. Ele me reconheceu, baixou a cabeça e, eu segui o mesmo instinto, baixei a cabeça. Atravessamos a Avenida juntos, ele seguiu para o bairro de Brasília Teimosa e, eu para o meu local de trabalho, o Teatro Barreto Junior. Relatei este episodio as pessoas, que ali se encontravam no Teatro, muitos perguntaram o “porquê” do não chamar a policia, no momento. Eu particularmente, me neguei, pois quem sabe se eu, neste momento, estaria relatando este fato.


José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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