quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tropa de Elite









No último fim de semana fui ao cinema. Fui assistir ao filme Tropa de Elite 2. Eu havia gostado muito do primeiro, pelo realismo que mostrava no aparato de segurança do Rio de Janeiro, representado no filme por uma companhia especial, cujo treinamento era diferenciado. Como soe acontecer, filmes envolvendo polícia e bandidos, só eram de censura livre na época do Cine Rex, a violência já era brutal, para nós inocentes crianças.

Cresci brigando como o Rock Lane, fazendo arcos e atirando flechas igual fazia o Tonto, amigo do Zorro. Batman e Robin nos levaram a voar como os morcegos que havia numa casa velha bem perto da maçonaria. Super Homem, Capitão Marvel, Flash Gordon e tantos outros, nos ensinaram a bater igual as porradas que eles davam nos seus inimigos. Quem em nossa época fazia aquela pose de garça com o pé quebrado do Karatê Kid, quando se preparava para uma boa briga? Ninguém. Era punho cerrado e posição dos nossos artistas preferidos. O objetivo era deixar o outro desacordado igual nos filmes. Raramente conseguíamos isto, mas, que tentávamos, tentávamos.

A violência dos filmes de hoje é diferente. A violência é muito mais, mais ... violenta. Como se pudéssemos, como fazem os matemáticos, elevar a violência a uma potência. Teríamos então localidades onde a violência seria elevada a zero, um, dois e assim por diante. A tarefa da polícia seria extrair a raiz de acordo com a potência da violência.

Dentro deste esquema, uma cidade sem violência, da qual não temos mais exemplos no Brasil, seria a violência elevada a zero. Alguém lembra quanto é qualquer número elevado a zero? Não? Perguntem a seus filhos, se eles não souberem, não passarão no ENEN, coitados. Mesmo assim, eu digo, o Rio de Janeiro, onde se passa o primeiro filme da série, em uma época passada já tinha a violência elevada a uma potência bem elevada.

No filme que fui ver semana passada, Tropa de Elite 2, que também é ambientado na Cidade Maravilhosa, a violência, mesmo eu sendo não radical, passa a ser elevada a 1000. Por isso não deixa de ser um bom filme. Prende-nos de ponta a ponta. Nem respiramos. Ou melhor, respiramos muito mal, e quase vamos ao desmaio quando sabemos que o roteiro, mesmo o autor dizendo que é uma ficção, é uma realidade naquela cidade, e noutras também. Hoje todos somos vítimas do afã em distribuirmos nosso tão concentrada renda, por parte de pessoas do mal. O Estado, o poder público, além de, em certos casos ser omisso, é conivente com a barbárie que nos assola.

Os legítimos movimentos sociais e reinvindicatórios de todos que são “Sem Alguma Coisa” neste país, chegou ao ápice na nossa antiga capital, com o Movimento dos Sem Droga, que agora a querem ter, e se aproveitam de todos os segmentos sociais para usufruí-la, igual ao MST quando invade terras, ao arrepio da lei. Não é possível coibir uns e não os outros, e qualquer esforço neste sentido esbarra na sanha perversa de obter dinheiro pelos meios piores possíveis, tanto de parte das autoridades como do público em geral.

O filme mostra as “milícias”, que nada mais são do que organizações de pessoas ligadas ao poder público para conseguirem seus fins, a qualquer custo. O roteiro fala de um “sistema” perverso que se reproduz independentemente da boa vontade daqueles que ainda a têm. Para usar o lugar comum, a boa vontade enche o inferno que é aquela cidade, onde quem manda é o crime organizado. É um círculo vicioso infernal, começando a desigualdade social, passando pela tentativa de emulação das condições de vidas moderna, pelas drogas, pela cooptação de homens públicos por elas, o surgimento de uma pseudo válvula de escape, para as populações mais pobre pelo ingresso no tráfico, alimentada pelo seu consumo em classes mais abastadas, pela a chegada de “mafiosos” que a usam para aumentar seu bem-estar pessoais, aumentando mais a desigualdade social, e tudo começa outra vez.

O que dá o tom cinematográfico ao filme é a existência de homens bons, como o Super-Homem, o Batman, o Roy Rogers, o Flash Gordon, e tantos outros heróis da infância, sempre fazendo uma justiça que nos agrada que seja feita, até pela vontade de sobreviver. Sempre quisemos a morte do Lex Lutor, do Coringa, do “Roba Cofre”, do Fumanchu, independentemente, do que eles tivessem feito, e por que. Igual no Cine Rex em Bom Conselho, ainda deliramos com a derrota do governador, do deputado, do policial bandido, infringida impiedosamente pelo Roberto Nascimento, da polícia carioca, que no primeiro filme era capitão e agora é coronel, o Coronel Nascimento.

Não sei se aqui em Pernambuco já temos um herói desta espécie em nossa briosa polícia militar, mas ficamos o tempo todo suspirando com isto. Afinal de conta, no Brasil, em cada cidade deveria haver um Coronel Nascimento. O crime se generalizou e se banalizou. Quantas vezes, igual no filme, vemos uma multidão aplaudir a polícia quando ela mata um bandido. Durante Tropa de Elite, vivemos tão presos em nossas casas, temendo um assalto, uma bala perdida, e agora sermos dinamitados nos bancos, que relaxamos e temos vontade de aplaudir qualquer Coronel Nascimento que apareça. Mas o filme termina e começamos a pensar.

Tentamos, a duras penas, construir um estado de direito, democrático. Estamos aprendendo a fazê-lo, inclusive com grandes avanços na área econômica e social nos últimos 20 anos. Precisamos avançar na construção deste país, com reformas urgentes e radicais, para que nos permitamos usufruir as benesses que esta estrutura nos proporciona. E perguntamos, é correto aplaudir os “coronéis nascimentos” da vida? É muito difícil dar uma resposta a esta pergunta, quando, no dia a dia precisamos tanto deles que, não temos tempo para pensar no que é certo ou no que é errado. Se a polícia mata nossa parente, mesmo sem querer, com uma bala perdida, abaixo o Coronel Nascimento, se o bandido é o matador, viva o Coronel. E assim vamos vivendo e mudando de minuto a minuto, de eleição em eleição, e não temos a solução.

Para mim, a única conclusão que tiro disto tudo é que, eu estava errado em insistir jogar futebol na rua, de frente da casa de D. Júlia Pimenta, como chamávamos a mãe de Naduca e avó de Niedja, mas ficava com uma raiva danada quando minha bola era tomada pelo Soldado Monteiro, ou ameaçava tomá-la se continuasse jogando. Se fosse hoje eu diria que ele era o nosso Coronel Nascimento. Dona Júlia o adorava e nós, os futebolistas de rua, o detestávamos. Vejam o filme e vejam se estão e concluam por vocês mesmos se o Brasil precisa do Soldado Monteiro.

Lembrei que passou o Dia da Criança e o associei a este texto, quando li em algum lugar que agora, as crianças cariocas, já preferem como brinquedo, uma réplica do Caveirão que é um veículo blidado usado pela tropa do Coronel Nascimento. A que ponto chegamos....


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