sábado, 16 de outubro de 2010

UM COMENTÁRIO PARA O BLOG DO ROBERTO ALMEIDA



O texto abaixo foi um comentário a uma postagem do Blog do Roberto Almeida (clique aqui), que pela minha prolixidade, não foi possível publicar lá. O Roberto não teve culpa. E o Einstein, me perdoe pela comprimento do texto. Mas, leia pelo menos as 4 últimas linhas. Se não ler não há problema, o Pai lhe perdoará porque você não sabe o que faz. Como o meio é outro eu acrescento um filmezinho no final, sem querer puxar a brasa para meu salmão.

Caro Roberto,

Eu estava tirando o arroz do fogo, quando meu marido chamou e me mostrou sua postagem. Normalmente, no fim de semana me dedico à família, mas quando vi os números citados por você e principalmente a nota sobre o aborto de Mônica Serra, eu corri para o computador. Sobre a caso da notícia de Mônica Serra, eu apenas cito o Reinaldo Azevedo, esta manhã:

“Há dias circula na Internet petista a afirmação de uma ex-aluna de Monica Serra, Sheila Canevacci Ribeiro, segundo quem Mônica Serra teria confessado ter feito um aborto quando no exílio, nos EUA. Mônica Bergamo, colunista da Folha, acreditem!, decidiu fazer disso uma “reportagem”, publicada no jornal de hoje. A campanha suja, que teve início com a formação daquele bunker em Brasília para produzir um dossiê contra José Serra, chega ao fundo do poço.

Sheila votou no PSOL e optaria por Dilma no segundo turno — não vai votar porque em viagem. Para caracterizar a Mirian Cordeiro da hora como alguém de credibilidade, até um tanto atucanada, escreve Bergamo: “Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008). Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB.”

O truque consiste em caracterizar Sheila, eleitora do PSOL e de Dilma, como alguém do, digamos, campo da vítima, que passa, assim, a ser um tanto culpada pelo mal que a atinge. Bergamo diz que a assessoria de Mônica Serra não se manifestou. Estranho. A questão me parece grave o bastante para ser assim. Vamos aguardar as próximas horas.”

O título da postagem é: “Campanha suja chega ao fundo do poço - Mônica Bergamo resolveu ser o Collor da Mirian Cordeiro da hora”. Lembram da Mirian Cordeiro? Aquela que o Collor arranjou para derrotar Lula em 1989, para dizer na televisão que Lula havia pedido para ela fazer um aborto e era verdade? Temos agora a Sheila Canevacci. A Mônica Bérgamo apenas espalhou a brasa do texto que a Sheila deixou em seu Facebook, que é o seguinte:

“RESPEITEMOS A DOR DE MÔNICA SERRA

Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem, fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

Achei impressionante que o candidato Serra EVITA tocar no assunto da DESCRIMINALIZAÇÃO do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela SUA PRÓPRIA MULHER. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária a sua dor.

Com todo respeito que devo a essa minha professora gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de 4 meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o estado.

Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido fosse eleito presidente?

Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito a dor calada de Mônica Serra.”

Eu ainda não vi, em lugar nenhum a fala de Mônica Serra dizendo que a Dilma gostava de matar criancinhas, nem a Mônica Serra confirmou ou negou esta conversa com a Sheila. E até quando isto ocorrer ainda continua achando “achismo”, Roberto. Mas, vamos argumentar, como o fiz em outro comentário sobre a Carta ao Povo do Diabo, que a Dilma assinou esta semana, dizendo que é pessoalmente contra o aborto, e que se comprometia a não mexer na legislação existente, ou seja, mentindo sobre tudo que disse antes sobre a luta pela descriminalização do aborto. Eu nunca vi o Serra dizer isto com todas as letras como ela fez.
Então o que a Sheila vai dizer agora de sua corajosa presidente, Dilma Roussef, quando souber que ela arrepiou carreira quanto a suas ideias sobre a descriminalização do aborto, esquecendo o grande número de mulheres que sofrem nos hospitais públicos pela legislação draconiana que existe no Brasil sobre o tema

Isto é uma matéria para o meu amigo e adversário político José Fernandes (ou pelo menos não vota como eu voto), mas, como aprendi a ler e o faço sempre, posso dizer que o aborto em nosso país é tratado no Código Penal de 1940, criminalizando-o em todas as hipóteses, apenas excluindo de punibilidade o aborto necessário – se não há outro meio de salvar a vida da gestante – e o aborto no caso de gravidez resultante de estupro, desde que precedido do consentimento da gestante ou de seu representante legal, em caso de incapacidade. Isto quer dizer que é crime a realização do aborto fora destes casos extremos, e mais, se alguma outra pessoa for flagrado ajudando alguém que faz um aborto também é criminalizado, é cúmplice. Era contra isto que Dilma bradava, e bradou por vários vezes, junto com o PT que era a favor de uma legislação que descriminalizasse o aborto. E penso eu, o Serra dificilmente pensaria diferente, pois fez normas internas, quando Ministro na Saúde, para ajudar mulheres que chegavam aos hospitais públicos como vítimas dos aborteiros e carniceiros de plantão. Hoje Dilma diz apenas que pessoalmente é contra o aborto, mas, quem não é? O que ela estar é tergiversando e mentindo sobre a luta pela descriminalização, que, se ela for eleita ficará no limbo por pelo menos quatros anos de seu governo, se ela mantiver a palavra com os religiosos. Quem quiser que acredite nisto, mas não abusem do trabalho dos meus dois neurônios.

E agora tem o problema das mulheres que não votam em Dilma. Que o machista de Olinda chama de machistas porque elas vão votar num homem, como eu vou. Como é que as mulheres do meu país, vão votar na mentirosa da Dilma, só porque ela é mulher? Elas votaram em Marina que não era uma mentirosa, agora votam em Serra, por que mente menos do que a Dilma, e principalmente, não se comprometeu como chefe de Estado, a não enviar legislação nenhuma ao congresso que pelo menos minimize as dores que o aborto causa.

Para terminar, e não trucidar as sinapses cerebrais do tal de Einstein, que ao contrário do físico famoso, não junta dois mais dois, eu poderia citar uma advogada (Laís Amaral Rezende de Andrade de São Paulo), sobre o aborto, que apenas aperfeiçoam o que falei em outro comentário sobre o tema: “Tenho claro que a discussão sobre a interrupção da gravidez indesejada deve se afastar de afirmações genéricas e levianas, que turvam o princípio substancial da isonomia, ao igualarem doutrinariamente os direitos do feto – uma vida hipotética – e da mulher – uma vida concreta; posições que procuram dar caracteristicas de emancipação ao feto, quando afirmam que este se utiliza temporariamente do útero da mulher para aperfeiçoar-se. Devemos tratar condignamente o feto, devemos tratar condignamente a faculdade da mulher em recorrer ou não ao aborto, devemos assumir o mais possível de humanidade.”

Não sou advogada, mas sou mulher, e gostaria também de ser ouvida pelos candidatos como tal. A Dilma me ouvia, como mulher, agora só ouve os religiosos, por motivos puramente eleitorais. Eu sou religiosa também, mas, como ela mesmo disse uma vez “num segundo momento, mulher”. Por isso, vai dar com os burros n’água. Neste segundo turno, por estas e outras “Mulher só vota em homem”, não porque são homens, mas, porque neste caso temos do outro lado uma mulher frouxa, que não honra as saias que veste, mentindo todo o tempo, para ganhar a eleição.

Lucinha Peixoto (Blog da CIT)

P.S.: Caro Roberto, fique tranquilo que não me incomodarei se você não publicar este tão longo comentário. Sei que alguns como o Einstein, não lêem mais do que 4 linhas, e seria exigir muito esforço deste gênio recifense. Por isso, tentarei convencer meus pares a publicá-lo também em nosso Blog, embora saiba que no seu será mais lido e as mulheres do Agreste Meridional, mesmo sendo do nordeste, votarão em Serra. A elas termino dizendo: Devemos ser religiosas, mas não devemos ser ovelhas, como hoje a Dilma é. Se ela pensasse como antes talvez até eu votasse nela, mas, depois da Carta ao Povo do Diabo, nem pensar.






Lucinha Peixoto - lucinhapeixoto@citltda.com

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