quarta-feira, 17 de novembro de 2010

As Aventuras do Super-Cara - Episódio de hoje: O Início





Eu gostaria muito de ser um desenhista. Não, não é um sonho de menino. Comecei a desejar isto quando a Lucinha, me apresentou a história dos quadrinhos sobre a vida do Lula, já o chamando de Super-Cara. Então eu imaginei mil estórias daquelas que vi nos gibis, ainda antes dos filmes começarem no Cine Rex. Mas, fui logo dizendo a ela que de desenho eu não juntava uma roda com um triângulo, com um lápis ou com outro qualquer material.

Ela, insistente como ela só, disse: “Já que não desenha, por que não escreve um roteiro de estória, quem sabe exista alguém esperando para desenhar?!” Respondi que iria pensar e aqui estou contando o fato e pensando no que vou escrever.

Era uma vez, num planeta chamado Kripton, existente na galáxia G4223B, que é quase do tamanho da nossa Via Láctea. Nasceu um menino filho de Zorel e Lindinalva. Este corpo celeste estava sofrendo os efeitos finais da devastação causada pelos seus habitantes, que de tanto o explorarem, seu solo esturricou e estava prestes a explodir. Pressentindo o desastre, ele pegou o menino, mesmo antes de batizá-lo, e o colocou numa nave espacial programada para pousar na Terra diretamente no Monte Sinai. O programador da nave cometeu um engano e a enviou para Garanhuns, por causa de um hotel que havia lá com o mesmo nome.

O lançamento da nave, fora este engano, foi perfeito. Entretanto, o conhecimento tecnológico não permitia prever com precisão o local da queda. Perguntado por Zorel, o programador, chamado Haddad, disse que a nave poderia cair num ponto até 100 quilômetros além daquele que fora programado. Então o menino poderia desembar tanto no centro de Garanhuns, como na Praça Pedro II em Bom Conselho. Graças a Deus ele desembarcou em Caetés.

Em meiados da década de 40, naquela região, ouviu-se um estrondo terrível, com a queda de um objeto que deixou um rastro de fogo no chão. Um casal acorreu ao local e viu, no meio de uma nuvem de fumaça, uma criança com a pitoca de fora, sentado e coçando o saquinho. Eles já tinham outros filhos e ficaram preocupados com o que fazer com aquela criança. Resolveram levá-la prá casa dizendo aos filhos que a cegonha havia trazido aqueles meninos sem eles esperarem. Todos acreditaram, pois o nível de informação infantil era muito pequeno, na época. Aos vizinhos e outros parentes foi dada outra explicação, que não vem ao caso.

Foi batizado e começou a usar o sobrenome da família que o adotou: Luiz Kent. Desde criança mostrou uma inteligência privilegiada e resolvia questões que os pais e seus amigos eram incapaz de fazê-lo. Conta-se que saiu com um amigo de infância, a quem ele chamava de Zezinho, para uma caçada a uma onça que rondava por perto de casa. Era uma jaguatirica daquelas grandes, e o Zezinho quase se borrou todo quando ficou frente a frente com ela. O Lula, como o chamavam, no entanto, ficou ali firme, e quando a bicha deu o bote, ele pegou um canivetinho e a enfrentou ferindo-a de morte. Mesmo assim, antes de morrer a onça comeu um dos seus dedos da mão esquerda. Sangrando e com dor enquanto o Zezinho, dizia, olha Lula, se sangue fede eu estou acabado, ele ainda tirou o coro do animal e o levou como um troféu pela caatinga.

Desde aí todos da região sabiam que aquele menino franzino e com os pés nos chão tinha poderes especiais. Diga-se, de passagem, que ele mesmo não sabia disto. Parecia uma criança comum, inclusive com o comum hábito de não gostar de ir prá escola, tinha uma preguiça danada de estudar. No entanto, seus pais sabendo que aquilo era importante para o futuro dele mesmo, insistiram até quanto puderam.

Sem muitas condições de sobrevivência naquela sertão sofredor, terra de mulher e homem trabalhador, o pai que não era do ramo do trabalho nem da ética, embarcou para São Paulo, deixando sua mãe com os filhos. Ela resolveu segui-lo e aí começa a saga daquele menino, que um dia todos conheceriam pelo Super-Cara.

Lula Kent teve uma vida normal em São Paulo, inicialmente, sem muitas emoções que indicassem os seus poderes especiais. Mesmo sem gostar muito de estudar, a necessidade de sobrevivência o fez se formar como torneiro mecânico. E como tal começa sua primeira aventura.

Um certo dia, os donos da fábrica onde ele trabalhava resolveram demitir mais de 50% dos empregados. Foi um verdadeiro chororô, diante daquela situação. Ao saber da situação o Lula dirigiu-se ao escritório da empresa e pediu prá falar com os donos. O que poderia fazer aquele simples torneiro mecânico diante de tantos ricos e sábios homens. Ele, tal qual Jesus no templo, em frente daquelas pessoas ignorantes dos seus poderes, perguntou, com uma voz rouca e clara que seria conhecida e ouvida em todo o mundo, no futuro:

- Vocês tiveram mãe, não tiveram? Claro, todo mundo tem uma. Se vocês continuarem com esta ideia de demissão, eu vou dizer a mãe de vocês.

Os donos se entreolharam e um silêncio se ouviu no salão. Todos estavam boquiabertos com aquela pergunta inusitada. Pediram licença e saíram para uma sala ao lado. Quando voltaram disseram apenas o seguinte:

- As demissões estão suspensas, até segunda ordem.

Nem mesmo o Lula Kent parecia esperar aquela vitória tão fácil. O que havia acontecido lá dentro da sala? Até hoje ninguém sabe ao certo. Apenas rumores apareceram de que o Lula já havia ligada para a mãe de todos eles sobre a situação antes da reunião, e a ida à sala foi um mero despistamento para os patrões falarem com elas para não apanhar em plena reunião. O Lula começava ali com os seus poderes especiais e cada dia mais aprendia como lidar com os patrões. Ele aprendeu que patrão só sede com palmada na bunda. Embora a palmada tenha que ser das mães.

Ao sair da sala e juntos aos seus companheiros ele foi saudado em prosa, verso e cachaça. Ali começava a história do Super-Cara, como líder sindical. Ali ele começou a enfrentar a ditadura, e, a cada dia seus poderes cresciam mais e mais. Porém, suas aventuras estavam só no começo. Não percam no próximo episódio, o Lula Kent enfrentando os milicos com uma greve de lascar, e saibam da chegada quase na mesma época da Mulher Kriptonita, que será a principal vilã destas aventuras.


Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com

Nenhum comentário: