quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eleições: política e politicagem





“Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria!”
(Álvaro de Campos.)


Política partidária sempre foi sinônimo de coisa ruim. Já vi e li muito sobre esse tema. Basta reportarmo-nos aos idos de 1928/30 para cá. Do tempo em que João Pessoa, então presidente da Paraíba, provocou o seu assassinato, o que deu lugar ao golpe de 1930. O advogado João Dantas foi o autor do homicídio. À época, Getúlio Vargas se aproveitou e depôs Washington Luís. Com isso, pôs fim a eleição de Júlio Prestes. E quis perpetuar-se no poder autoritário. Deu no que deu. Mas, ao suicidar-se, em 1954, Getúlio também já estava deposto. Não havia mais condições de tomar as rédeas do governo.

João Pessoa havia humilhado Dantas, seu inimigo político, até mais não querer. E iria continuar humilhando, se não houvesse sido por este assassinado. Contudo, a morte de João Pessoa motivou o degolamento de Dantas e do cunhado deste, engenheiro Augusto Moreira Caldas. Quando degolados, ambos estavam presos na antiga Casa de Detenção de Recife. E a matança se deu a mando dos que dominavam a cena política, mas, principalmente, dos familiares e dos aliados de João Pessoa. Achando pouco, também mataram a tiros, no Rio de Janeiro, o deputado federal João Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna. Ariano tinha três anos de idade. Depois, foi a vez de matarem por envenenamento a noiva de João Dantas, a professora Anayde Beyriz.

São coisas da politicagem ambiciosa. De então para cá, a história política pouco mudou. Mudaram alguns procedimentos, com o avanço da tecnologia. Mas, quanto aos costumes, quase nada é diferente. As pessoas são outras. Mas os modos e falta de modos são os mesmos. Só os tempos é que são outros.

Hoje temos a internet, que é grande aliada no muito que fazemos. Porém, nessas eleições que ora terminaram, a internet serviu quase só e unicamente para o mal. Pessoas que torcem pelo “quanto pior, melhor”, fizeram de tudo para tirar a Dilma Rousseff do páreo. Com calúnias, injúrias e difamações. Espalharam todo tipo de terror, via e-mail. E continuam mandando coisas más, ignóbeis.

De outro modo, estou muito satisfeito com as eleições em Pernambuco, tanto no âmbito estadual, quanto no federal. Satisfeito porque o nosso governador Eduardo Campos fez barba, cabelo e bigode do seu adversário odiento. Eduardo teve 82,83% dos votos válidos. E ainda mandou Marco Zero (à esquerda) Maciel pra casa. E também fez penteados, unhas, axilas e cantinhos de umas candidatas proporcionais pretensiosas. Isto é, que queriam uma vaguinha na Assembléia Legislativa. Estou satisfeito, igualmente, porque Luciana Santos, Wolney Queiróz e Isaltino Nascimento foram eleitos, além dos dois senadores da chapa governista. Com esse expressivo resultado que o governador obteve, tenho certeza de que Bom Conselho vai sair ganhando muito. E todo o estado ganhou.

E o intragável Roberto Freire? Um dia, Freire alimentou a esperança de que Jarbas derrotaria Eduardo e aquele voltaria a ser governador de Pernambuco. Com isso, Roberto Freire assumiria a cadeira de Jarbas no Senado, por ser suplente deste. – Mas, sabedor antecipado da derrota de Jarbas, Freire, o nefasto, resolveu ser deputado federal por São Paulo. Isso não nos admira. Porque São Paulo, que se diz o estado intelectualizado e que carrega o pernosticismo, já elegeu de tudo. Daqui de Pernambuco, já elegeu até uma ilustre desconhecida, Aline Corrêa, filha de Pedro Correia. Este caiu em desgraça, por corrupção: envolvimento com a máfia dos combustíveis etc. Mas foi cassado por outro crime. – Aí então, Pedro Corrêa caiu nos braços de Maluf, elegeu a “filhinha” em São Paulo.

E estou satisfeito em nível nacional, porque Dilma Rousseff ganhou o pleito. Com coragem, enfrentando todas as agressões e hostilidades jogadas sobre ela. Questionaram até a natureza sexual da candidata. Pessoas que tanto pregam a não discriminação por raça, credo, opção sexual etc., saíram-se com esse mote. O curioso é que tais pessoas, ao sentirem-se atingidas por essas discriminações, invocam logo, em contestação, o art. 3º da Constituição Federal.

Outros puseram na internet um falso vídeo, onde dizem tratar-se do “estupro” da colombiana Ingrid Bettancourt, pelos guerrilheiros das Farcs etc. Estupro que NUNCA existiu. Pois o dito vídeo são cenas de um firme pornô, feito por uma produtora desse tipo de filmes bestiais, sem nenhuma categoria. RESTOU PROVADO QUE O VÍDEO É FALSO. Mas os adeptos do Serra fizeram uma montagem e espalharam na internet, tentando mais achincalhar com a Dilma. – Tanto que no fim da exibição, eles perguntavam: “Você quer isso para o Brasil?” - E por que a pergunta? - Para tentar vincular a Dilma e o PT àquele grupo violento e criminoso da Colômbia.

Fiquei satisfeito também porque não temos mais um canalha como Arthur Virgílio no Congresso Nacional. Ao menos por enquanto. Também, desta vez, o “capitão” arrogante, Tasso Jereissati, com aquela cara de pão dormido, fica fora do Senado. São alegrias de uma eleição.

Sobre o Serra, expresso um voto de pesar. Pela sua figura apagada. Pela sua campanha reticente. Pelo preconceito que ele exala com relação ao Norte e Nordeste. Pela sua aproximação com os nazifascistas etc. O Serra, quase em tudo, é igual ao Alckmin, representante do Opus Dei, que foi eleito governador de São Paulo. Por extensão, ambos são iguais ao Fernando Henrique, o presunçoso. Aliás, vindos de São Paulo, esses espécimes não me espantam. Os paulistas e paulistanos elegem e reelegem Paulo Salim Maluf para qualquer cargo, com estrondosa votação. Assim como elegeram Enéas Carneiro e outros tipos de menor valor do que Enéas.

E já que elegem e reelegem Paulo Maluf, por que não Tiririca? Ao menos Tiririca, se chegar ao Congresso, chega com a ficha limpa. É possível que a sua ficha saia de lá suja. Até porque, supõe-se que ele deve ficar no Parlamento só por um mandato. Mas, quem sabe? E sobre o Tiririca, se ele é analfabeto, e mesmo assim teve o registro da candidatura aceito, a culpa é toda do TSE. Pois a nossa Justiça é caolha e MUITO ruim. Por isso, os votos dele estão sub judice. No entanto, como eu já disse, ele vai chegar ao Parlamento com a ficha limpa. O que não ocorre com muitos dos que estão voltando pela burrice e maldade do nosso povo. – Por mais que essa Justiça cega queira fazer, não é fácil impedir que o Tiririca entre no Parlamento como deputado. E para sair de lá, só pela decisão dos seus pares, que são quase todos piores do que ele. Isso, se ele for condenado por falsidade ideológica, no que não acredito. Entretanto, NUNCA podemos comparar o Tiririca ao Paulo Maluf

Mas, voltemos ao Serra. Este nunca se aproximou de nenhuma religião. De nenhuma igreja. Agora, na campanha, virou coroinha. E foi visto, com as mãos em posição de súplicas, levando uma baita reprimenda do padre de São Francisco do Canindé, no Ceará. Ele, o intragável “capitão” Jereissati, e mais outros de igual desvalor. Foram admoestados, com a solicitação de não atrapalhar mais a missa. Não satisfeito com a “chamada” que o padre lhes deu, o “capitão” Jereissati quis agredir o vigário celebrante, no que foi impedido. – O Brasil que pensa, rejeita esses “capitães” do mato.

E agora o Zé Serra deu uma de Fernando Henrique. Saiu daqui e foi falar mal de Lula e da política externa do Brasil no exterior. Em Biarritz, França, levou um “chega pra lá”, de um membro da Fundação Zapata, do México. Como fez o rei Juan Carlos com Hugo Chávez, o manifestante perguntou ao Serra: “¿Por qué no te callas?” E o Serra ficou com aquela cara de perereca, vendo a banda passar.

Ademais, Brasil afora, os preconceitos, a discriminação e os menosprezos afloraram com força. Lembro-lhes de que, nos muitos comentários aos quais ouvi, feitos por jornalistas do Sudeste, antes das eleições, o Nordeste quase não existe. Fernando Rodrigues, Merval Pereira, Mirian Leitão etc., nem sabiam existir votos no Nordeste. Mas agora estão sabendo. Para eles, só existe Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e o Sul do Brasil. Foi milagre eles haverem comentado, ainda que suavemente, que o governador eleito no Paraná, pelo PSDB, um tal de Richa (ou bicha), censurou as pesquisas. Censurou e os institutos tiveram de engolir a pílula. E os meios de comunicação ficaram impedidos de divulgar pesquisas para governador do Paraná, durante dez dias antes da eleição. Assim, quando um tribunal superior derrubar essa liminar dos juízes do Paraná, seu Richa já ganhou a eleição. Aí quem quiser que ponha as pesquisas na imprensa. Mas, pra quê?

Faço uma pequena ressalva para o âncora, Carlos Alberto Sardemberg, da Rádio CBN. No seu programa CBN Brasil, no dia 6.10, às 13h, ele entrevistou o governador Eduardo Campos. E começou dizendo: “Governador Eduardo Campos. O senhor que teve um caminhão de votos em Pernambuco etc., etc.” – E seguiu-se a entrevista por cerca de quinze minutos, abordando vários aspectos do segundo turno. Principalmente, indagando sobre para onde iriam agora os votos da Marina Silva. E Eduardo respondeu tudo, com muita segurança e toda a humildade que o caracteriza.

Sardemberg já havia entrevistado o governado eleito do Paraná, o dito Richa (ou bicha), no dia anterior. E este tentou justificar por que censurou as pesquisas. Mas não convenceu a ninguém. – Depois disso, vêm os oposicionistas e dizem que o governo Lula e o PT é que amordaçam a imprensa.

E com essa carga de preconceitos, vem uma estudante qualquer, de uma escola superior qualquer, Mayara Petruso, de São Paulo, e diz que “nordestino não é gente.” Instigação ao crime, ao completar: “Mate um nordestino afogado e ajude a SP.” Nem posso julgar essa moça. Soube que o pai da Mayara ficou muito magoado. Disse ele que tem muitos amigos nordestinos e esse ocorrido lhe dói. E disse ainda que, se ela errou, precisa pagar pelo erro. – Mas a onda pegou e “choveram” deboches preconceituosos, em cima dos nordestinos. – Não sei como reagiram os nordestinos que votaram no Serra. Mas, é possível que alguns deles tenham ficado satisfeitos com as palavras da Mayara. Aí é um problema de cada um. – Como eu disse: não quero julgar essa menina, nem ninguém. Não sei se aquela moça é vítima de algum sofrimento, que mexeu na formação da sua personalidade. Não creio que seja uma fera. Prefiro acreditar que ela tem muitos traumas e más companhias. – Porém, se a Justiça entender que ela cometeu crime, que a julgue e ela pague. Que receba como lição. Porque todas essas ofensas se espalharam depois da dela.

Muita gente de São Paulo gosta de muitos nordestinos. Eu tenho uma nora paulistana e outra paranaense. Ambas têm muita admiração pela nossa terra. Sempre que vêm aqui, voltam um tanto a contragosto. A paulistana morou aqui e fez muitas amizades. E só saiu por força do trabalho do meu filho. Mas saiu reclamando de ter de voltar para o frio e a poluição de São Paulo.

Por outro lado, eu poderia ter começado essa crônica parabenizando a Marina Silva. Mesmo sabendo que ela não sabe que eu existo. Não, por ela ter levado a eleição para o 2º turno. Mas pela votação que teve em todos os estados. Mas não dá para fazer elogios à Marina porque ela se apagou depois da vitória dos 20 mil votos. A Marina hoje é o pingüim da geladeira do PV. – Porque ela lavou as mãos. Se ela é a única liderança do PV, não poderia ter ficado em cima da geladeira.

Também porque a sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente não é isenta das más práticas administrativas no serviço público. – E ainda sobre a Marina, o Serra pretendia usá-la, nessa campanha, assim como foi usada a Heloísa Helena, na campanha de 2006, contra o Lula.

Agora, vejamos a campanha das igrejas e os votos dos “religiosos”. Para mascarar interesses inconfessáveis, a Igreja Católica entrou com o mote do aborto. E as evangélicas, que aprendem tudo com a Católica, seguiram na onda. – É MUITO oportuno destacar que estávamos elegendo um presidente da República. NÃO íamos eleger um padre, bispo ou pastor. Tampouco o papa. Sendo o Estado laico e sendo o aborto questão de saúde pública, é o Estado (Nação) quem deve olhar para esse grave problema. Porque a moral de todas as igrejas é muito duvidosa. Sempre faltaram condições morais aos papas para dizerem em quem se deve votar. E quanto ao papa atual, também não reconheço condições para recomendar aos bispos brasileiros que orientassem os padres para emitirem juízo de valor moral sobre as nossas eleições. – A cantilena da Igreja Católica é que defende a vida. Qual é a vida que os representantes dessa Igreja e as demais igrejas defendem? – A vida e os interesses deles mesmos. Com raríssimas exceções. É isso que eu vejo e sinto. – Mas, nem todos os padres aceitarem a receita pronta do papa e dos bispos.

Os papas, cardeais e bispos sempre viveram em conluio com os grandes mandatários: reis, rainhas e presidentes de nações. O Vaticano foi dado à Igreja Católica num acordo espúrio. Porque a Itália queria livrar-se das interferências da Igreja Católica nas ações do Estado. Para tanto, em 1871, o rei Vítor Emanuel II ofereceu ao papa Pio IX uma indenização. E assumiu o compromisso de aceitar aquele papa como chefe do Estado do Vaticano, que era um bairro de Roma. Porque o Vaticano já era a sede da Igreja Católica.

Então, Pio IX chantageou. Recusou a oferta do rei Emanuel. E considerou-se “prisioneiro” do poder laico. Ato contínuo, o papa proibiu os católicos italianos de votarem nas eleições do reino. Com isso, foi criada uma situação desconfortável entre o Estado romano e a Igreja Católica. Notem que a Igreja proibiu os católicos de votarem. Era muito poder que ela detinha. E ainda hoje quer manter esse mesmo poder! Mas já NÃO pode.

Esse imbróglio só teve fim em 1929, quando o fascista Benito Mussolini, junto com o papa Pio XI, assinaram o Tratado de Latrão. Por meio desse tratado, a Itália reconheceu a supremacia da Igreja Católica sobre o Vaticano, que foi declarado Estado soberano, neutro e inviolável. No acordo, também foi dada uma indenização em dinheiro ao papado, além de tornar o catolicismo a religião oficial da Itália. – É por tantas e quantas proezas da Igreja Católica que questiono a moral dessa Igreja. Assim como questiono as a moral dos Malafaias, dos Edis Macedo etc. As igrejas evangélicas também já nasceram pedindo dinheiro em troca de alguma coisa.

Essa polêmica sobre o aborto, segundo contam as revistas periódicas, foi porque a candidata Dilma dissera, há alguns anos, que era a favor da descriminalização do aborto. E o que há demais nisso? – Dª Ruth Cardoso também foi a favor da descriminalização do aborto, conforme dizem as mesmas revistas. Nem por isso, Dª Ruth foi excomungada. Nem deixou de ser uma grande mulher.

Mas o certo é que a Dilma foi eleita e será a nossa presidenta (*). E o Lula continua o mesmo. Quem não quer dar valor ao Lula, não dê. Quem não quiser a Dilma na presidência, não queira. NADA muda. Muito embora tenha gente pedindo a volta dos anos de chumbo. Isto é, querendo os generais de volta. Mas NADA disso vai acontecer.

Por fim, mesmo contra a vontade de vocês, eleitores do Serra, o Lula tem valor. Muita gente com outro quilate, e outros tantos que relincham, já tentaram desvalorizar o Lula. E continuam tentando. Porém, não conseguem tirar dele o que ele conseguiu fazer, no intervalo desde a sua meninice em Caetés, até governar o Brasil por oito anos. E ainda elegeu a sua sucessora. O Lula está na história, mais do que muitos que se dizem estadistas. Para chegar aonde ele chegou, é preciso ter valor. E ele tem. Gostem ou não gostem os seus críticos de plantão. E NÃO haverá terceiro turno. – É ISSO./.

(*) - Há pessoas questionando o substantivo feminino PRESIDENTA. Ele está em todos os dicionários de língua portuguesa. Inclusive no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras./.


José Fernandes Costajfc1937@yahoo.com.br

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