quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Gazeta 275 - Editorial: Sonhando com a História




Desde que escrevo neste Blog, o nome do Jodeval Duarte, sempre esteve presente. Não só por ser meu conterrâneo, ou por ter sido o primeiro, em seu blog, que deu atenção ao Blog da CIT, na cidade de Garanhuns, mas sim, por ele ser o que ele é, um jornalista de mão cheia e um grande cidadão com ideias próprias consistentes e coerentes. Com isto, não quero dizer que as vezes em que seu nome entrou nesse blog, foi só para ser apoiado e louvado. Sempre tivemos nossas diferenças (minhas, e não do Blog), no que diz respeito à política, principalmente, desde que, sem saber que era ele o escritor, critiquei um editorial da A Gazeta, por ele “escantear” minha candidata, a Marina, nas eleições presidenciais (veja aqui). Eu estava tão certa, que ele ainda teve que engolir o Serra no segundo turno.

Mas, voltemos ao presente. Ontem tive acesso à A Gazeta de número 275, comprada em uma banca aqui no Recife, pois o Zé Carlos, ainda não apareceu aqui este mês. O que fui ler primeiro foi o Editorial, que o título, neste número era: “Um novo capítulo da História”. Ele começa de uma forma lírica e bela citando a mineira Mietta Santiago, pseudônimo de Maria Ernestina Carneiro, como tendo sido a primeira mulher a votar na história deste país. Cita ainda, e eu o transcrevo abaixo, o poema homenagem àquele gesto cívico do nosso gênero, de Carlos Drummond de Andrade:

“Mietta Santiago
loura poeta bacharel
Conquista, por sentença de Juiz,
direito de votar e ser votada
para vereador, deputado, senador,
e até Presidente da República,
Mulher votando?
Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?
O escândalo abafa a Mantiqueira,
faz tremerem os trilhos da Central
e acende no Bairro dos Funcionários,
melhor: na cidade inteira funcionária,
a suspeita de que Minas endoidece,
já endoideceu: o mundo acaba”

É óbvio, que partindo do Jodeval, este era um bonito nariz de cera para referir-se à eleição de sua candidata, a Dilma Roussef. A partir daí ele começa a delirar. Diz que Dilma saiu do nada e foi crescendo, crescendo até chegar à presidência da república. Não sei o que ele quer dizer com “saiu do nada”. Quer compará-la ao Lula? Não, ela sempre foi riquinha. Quer dizer que a guerrilha é o nada? Não, a guerrilha não foi um nada, houve crimes brutais, escondidos atrás de bons propósitos para ela. Por que era é mulher? Também não. Pois mulher sempre foi alguma coisa, mesmo antes da Dilma. O que é o “nada”, Jodeval?

Como não poderia deixar de ser ele associa a eleição da Dilma à popularidade do Lula. Isto é inegável, mesmo assim, ele teve que suar muito a camisa para carregar o poste até a vitória.E como suou, o “cara”!

A partir daí entra Jodeval, o otimista. “Não parece que teremos pela frente qualquer turbulência.”, diz ele e tenta explicar o porquê desta frase prevendo céu de brigadeiro. Eu não vou repetir aqui tudo o que foi dito pelo nosso editorialista . O bom seria que, enquanto o Jodeval deu um descanso no seu Blog (que pena!), ajudasse o Luiz Clério a fazer o Blog da Gazeta, para citarmos apenas o link da matéria. Mas, enquanto este dia não chega, ou seja, a promessa que foi feita pelo Luiz Clério não for cumprida temos que digitar textos. Mas, pelo menos, eu fiz a Escola Pratt com o professor Di Tavares. Ao trabalho Lucinha!

“Dilma Roussef vai assumir o poder num clima institucional (sic) e com os melhores indicadores econômicos e sociais jamais recebidos por qualquer presidente. A economia estável, temos reservas em dólares superiores à dívida externa, a inflação controlada, o índice de desemprego está muito abaixo de quando Lula assumiu, gozamos de prestígio e respeito internacional como uma nação emergente que foi capaz de superar, como nenhuma outra, uma das maiores crises da economia mundial em um século.”

Respiremos e comentemos. Voltamos ao clima de “nunca dantes neste país”. Enquanto os nossos dólares derretem no Banco Central, nossa indústria passa pelos seus piores momentos, a dívida interna vai aos píncaros, com taxas de crescimento médias medíocres quando nos comparamos com outros emergentes, o déficit comercial chegando ao limite, enquanto os brasileiros, esperam a última ceia barata, com produtos importados de todo canto, a fila de brasileiros da nova classe média bringando pelos últimos assentos nos voos para Miami. Até quando aguentaremos o céu de brigadeiro que o Lula deixou? Nos indicadores sociais tivemos avanços inegáveis. Hoje existe um Brasil menos pessoas abaixo da linha de pobreza. E aqueles que a saltaram foram levados a acreditar que tudo isto se deve ao Lula, e votaram em sua candidata.

Cito aqui o Olavo de Carvalho, do qual discordo algumas vezes e outras concordo, igual como ocorre com o Jodeval (veja aqui o texto completo):

“Neste país, a ânsia de bajular é uma paixão avassaladora, inebriante, incontrolável. Sobretudo nos dias que se seguem à revelação do nome de um novo mandatário, ela bloqueia por toda parte o uso das faculdades racionais, rompe as comportas do mais elementar senso da realidade, dando vazão a arrebatamentos de entusiasmo laudatório que raiam a idolatria e a psicose.
.....
O Brasil está em 73º. lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, abaixo do Peru, do Panamá, do México, da Costa Rica e de Trinidad e Tobago.

Segundo dados da mesma ONU, entre quarenta e cinqüenta mil brasileiros continuam sendo assassinados por ano (o equivalente a duas guerras do Iraque), fazendo deste país um dos lugares do universo onde é mais perigoso cometer a imprudência de andar nas ruas ou, pior ainda, a de ficar em casa.

O Brasil é o único país da América Latina onde o consumo de tóxicos está aumentando em vez de diminuir.

Nossos estudantes continuam tirando persistentemente os últimos lugares em todos os testes internacionais de aproveitamento escolar.

A universidade que a mídia unânime proclama ser a melhor do Brasil, a USP, ficou em 210º. lugar no ranking das instituições universitárias calculado pelo London Times.

Há várias décadas o Brasil não tem um único escritor que se possa comparar aos dos anos 60 ou 70, exceto os nonagenários e centenários que sobraram daquela época. A alta cultura simplesmente desapareceu deste país, ao ponto de já ninguém ser culto o bastante para dar pela sua falta, quanto mais para enxergar algo de grave nesse fenômeno, inédito mesmo em nações paupérrimas.

Os índices de corrupção cresceram mais durante o governo Lula (inclusive no ministério de Dona Dilma) do que ao longo de toda a nossa História anterior, tornando, por exemplo, o uso eleitoral da máquina administrativa do Estado um direito consuetudinário contra o qual é inútil protestar.”

O Jodeval vai além e diz que tudo parece um céu de brigadeiro, pois temos governabilidade, pré-sal, e que a presidenta eleita, ao assumir o discurso da continuidade, o “que pode ser visto como o dado mais positivo de sua eleição: o País não tem por que temer mudanças bruscas e tudo parece tão igual se não seria surpresa se continuasse ‘o time que está ganhando’, como se costuma dizer, com o mínimo de especulações, de perda de tempo em continuar as obras fundamentais para o nosso povo, principalmente para os nordestinos, que demos a maior de todas as contribuições para a vitória de Dilma Roussef.”

Meu Senhor do Bonfim, protegei-nos de afirmações como esta. Amém. O Editorial confundiu campanha eleitoral com governo, e embaralhou tudo. Não tenho como não citar outro artigo, agora da Miriam Leitão, que tem o título: Verdades ocultas. Para que me esforçar nas teclas se tudo que quero dizer foi já escrito tão bem.

“Foi apenas o fechar das urnas, e as verdades começaram a aparecer. A CPMF reaparece com a presidente eleita e alguns governadores falando dela com uma sinceridade que lhes faltou na campanha.

O governador do Rio entrou no STF dizendo que o sistema de partilha do petróleo prejudica o estado. O sistema é ideia de Dilma Rousseff, a quem Sérgio Cabral deu seu entusiasmado apoio.

Tenham compostura senhores e senhoras da política: nós não somos bobos. Quantas vezes vocês acham que podem nos enganar mudando de tom, discurso e propósitos entre o pré e o pós-urnas?

O banco PanAmericano estava quebrado antes das eleições, mas as informações sobre isso apareceram apenas alguns dias depois. O que torna o caso inegavelmente uma questão de interesse e dinheiro públicos é a compra extemporânea de 49% do banco pela Caixa Econômica Federal e a cegueira coletiva que atingiu comprador e fiscalizadores.

PT e PMDB, os dois maiores partidos da coalizão, começaram a se engalfinhar em público pelos cargos, como se fosse uma disputa do butim de uma batalha que eles venceram. Fica-se sabendo que o consumidor — e não as empresas como Itaipu e Furnas — é que pagará pelo custo do apagão que em 2009 deixou 18 estados sem luz.

Nove empresas receberam multas de R$ 61,9 milhões e recorreram. Ainda nenhum tostão saiu do caixa delas. Mas o distinto público que ficou sem luz pagará R$ 850 milhões a mais em suas contas em 2011.

O TCU informa que 32 obras de investimento do governo, 18 delas do PAC, deveriam ser paralisadas porque têm graves irregularidades e sobrepreço. Entre elas, algumas que foram exibidas na propaganda eleitoral da presidente eleita, como a Refinaria Abreu e Lima.

O financiamento do trem-bala não terá apenas dinheiro subsidiado, terá subsídio direto de R$ 5 bi nos primeiros anos. A lista das más notícias neste breve período pós-eleitoral é grande e está em várias áreas; em comum o fato de terem sido dadas em momento muito conveniente para o governo.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, não pode alegar que desconhecia que o sistema de partilha, as mudanças na Lei do Petróleo e as condições da capitalização da Petrobras prejudicam frontalmente o estado que governa. Ele até chorou por isso, em público, meses antes das eleições. Depois, tratou a questão como resolvida.

O prejuízo teria sido evitado por um suposto e mal explicado acordo entre ele e seus aliados do governo Federal. A nova regulação do petróleo, que foi toda formatada no gabinete da então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff — hoje presidente eleita —, prejudica o Rio. O estado que produz 80% do petróleo que se extrai no Brasil e que será também grande no pré-sal perde porque no sistema de concessão o estado recebe royalties e participação especial.

No novo sistema não há participação especial e ainda há o risco de se perder grande parte dos royalties. Perde também porque a União fez a transferência para a Petrobras, na chamada cessão onerosa, de bilhões de barris de petróleo do pré-sal que também não pagarão participação especial ao Rio.

Disso tudo o governador Sérgio Cabral sabia antes e durante o processo eleitoral. Por que nunca disse isso ao eleitor? Por que deixa para entrar no Supremo Tribunal Federal depois das eleições? Um governador tem que ter como primeira lealdade a defesa dos interesses do estado que administra e não a coalizão política da qual participa.

O advogado-geral da União, Luís Adams, disse que vai contestar a Ação Direta de Inconstitucionalidade do Rio. "Não vejo futuro nessa Adin", disse Adams. Pois é. O que ela tem é passado: o tempo em que o governo do Rio esperou para entrar com a ação.

A declaração da presidente Dilma em sua primeira entrevista de que não poderia ignorar a pressão dos governadores pela CPMF — assim, docemente constrangida a defender o imposto — foi espantosa.

Primeiro, porque ela nunca deu ciência aos eleitores de que estava sendo pressionada; segundo, porque os governadores disputando eleição ou reeleição também não disseram que estavam pressionando quem quer que seja pelo imposto. Terceiro, porque a arrecadação aumentou depois do fim do imposto pelo peso da elevação de outros tributos.

O P da CPMF quer dizer provisório. Foi criada em momento específico e com objetivo limitado. Era para atravessar o período da transição entre a hiperinflação e a estabilidade, quando havia risco de uma queda da arrecadação. Ela cria muitas distorções. Parece prejudicar apenas quem faz transações bancárias mas afeta, em cascata, todos os preços da economia. Por ser cumulativa, vai produzindo um peso enorme sobre as empresas, que o transferem ao consumidor. Aí o imposto fica regressivo, injustamente distribuído.

Os governadores e os presidentes, eleita e em exercício, podem estar sinceramente convencidos de que sem a CPMF não é possível financiar a saúde — ainda que, como se sabe, ela pouco financiou a saúde — mas só poderiam tratar disso agora se tivessem defendido o imposto durante o processo eleitoral.

O Brasil tem um longo histórico de verdades ocultas durante o período em que encantadores candidatos tentam atrair o voto do cidadão pintando o mundo de cor-de-rosa e prometendo só alegrias. Por isso a CPMF é inaceitável. Só pode propor o imposto agora quem teve a coragem de defendê-lo quando estava no palanque.”

Ainda tem mais, me desculpem leitores pelo número de letras que terão de ler, por culpa do Jodeval, mas, isto é bom, dizem que é preciso ler 10.000 letras por dia para não ter o mal de Alzheimer. Portanto, leiam amigos. Só um pouquinho mais.

Eu ri quando ele fala em condições desejáveis de governabilidade, ri ainda mais quando lembrei que em sua resposta a minha crítica de não ter colocado Marina entre os candidatos, ele disse que não a considerava capaz de montar um governo, e gargalhei quando li as últimas notícias. É que todo este otimismo quanto à facilidade de governar, esquece que o Lula está saindo, e que já avisaram isto ao PMDB. A formação de um blocão de centro-direita para impedir o avanço do José Dirceu, em sua briga com o Palocci, não indica nenhum céu de brigadeiro para Dilma, mesmo dentro do seu próprio partido, a quem ela deve a maior parte da fatura. Mesmo os desmentidos posteriores da múmia Temer, soam tão verdadeiro quanto dizer que veremos a Dilma fazer outra vez o Sinal da Cruz, ou dizendo graças a Deus. Sobre isto vejam o que diz o jornalista Luiz Carlos Azedo, em sua coluna de hoje, que é intitulada de “Troca de guarda”:

“A maior dificuldade enfrentada pela presidente eleita, Dilma Rousseff, na atual transição de governo é a sua continuidade. Motivo: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o grande patrono da vitória da petista, mas não venceu sozinho. Todo o governo e os partidos da base se empenharam na eleição. Como garantir uma cara nova sem a ruptura com os partidos da base? Ora, defenestrando os atuais ministros sem abalar as alianças com os partidos que eles representam. Esse é o pepino.

É uma situação inédita, pois em todas as sucessões anteriores houve uma ruptura. Um determinado grupo político assumia o lugar do outro e ponto. Com a ressalva dos raros anfíbios que transitaram de um governo para outro. É o caso, por exemplo, do atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, que foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso.

A sensação de ganhar e não levar é generalizada na Esplanada dos Ministérios. Quais as consequências disso? Primeiro, alguns ministros mobilizam grupos de pressão para continuar no cargo, como Juca Ferreira, na Cultura, e Fernando Haddad, na Educação, que o fazem ostensivamente. Segundo, os partidos lutam para manter as posições que já ocupam mesmo trocando o ministro, o que acontece principalmente com o PMDB. Terceiro, digladiam-se internamente para promover a troca de guarda, característica sobretudo do PT, que abriga tendências organizadas.”

E dizer que o nordeste vai ser beneficiado porque votou no poste, é uma temeridade, se não tivermos aqui uma oposição forte para cobrar. Eu mesma, já comecei a cobrar as promessas do D. Eduardo para Bom Conselho. Espero que o Editorial de A Gazeta no próximo número faça coro comigo. Olho nos canos da água e nas promessas do D. Eduardo e de todos os políticos que com a ajuda do apedeuta-mor prometeram mundos e fundos ao nosso município. Assim o jornal, além do novo e bonito visual, fará jus ao seu lema: Informação com Responsabilidade, mesmo que seja do contra.



Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

P.S. - Se o Editorial não foi escrito pelo Jodeval, peço desculpas a ele. Aí então é só substituir o nome, pois o resto está correto.

LP

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