quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MEDO DA MORTE





Vejo o Porfírio andando cabisbaixo pela Rua Princesa Izabel no Recife. Passos lentos e amparados por uma bengala entrando no Bar Princesa Izabel. Como fazia muitos anos que não o via, fui ao seu encontro sentado na mesa entre uma cerveja. Aproximei-me e ele não me reconheceu de primeira vista. Depois de fitar-me com os seus óculos de grau sorriu e deu-me a mão em cumprimento. Sentei-me e ele olhou para o garçom e pediu um copo americano.

Quanto tempo, hein?

Há muitos anos que não nos vimos. A última vez faz mais de vinte anos, quando nos encontramos no Mercado da Encruzilhada, acrescentei sorrindo.

E, os outros companheiros? Perguntei. Tens vistos eles?

Faz muito tempo que não vejo nenhum apesar de vir aqui no Bar Princesa Isabel, com freqüência, respondeu tirando o óculo colocando-o na mesa.

Pois é, disse ele, enxugando a testa com um lenço branco, estou tomando esta cerveja de enxerido. Não posso mais beber, tomo um comprimido passado pelo Doutor que descobriu que eu estava com mal do pânico, antigamente isto se chamava “doideira”

Tenho medo da morte. Estou com setenta e dois anos, e a luz de alerta já acendeu. Ando por ai a esmo. Penso a cada instante, deixar este mundo de meu Deus, será um sofrimento para mim com tantas atrações e beleza. O mar, o céu, o sol, a lua, as estrelas, os rios, as arvores e as florestas não mais serão visto por mim, que dentro de pouco tempo estarei em algum lugar incerto. Sei que estarei morto e levado para o cemitério em um caixão e lá eu deitado com flores ao redor e algumas pessoas juntas olhando para cadáver que já foi gente. Outros conversando animadamente, apesar do lugar ser de tristeza, mas comentando, os acontecidos da vida dele, o Porfírio. Alguns exaltando as virtudes, outros criticando e explorando os defeitos da sua vida. Como será este momento. Isto me atormenta e fico em pânico ou doido quando penso nisto. Pode crer companheiro.

Olhe Taveira, não sei como nasci, apareci e somente depois de algum tempo dei conta de que eu existia. Bem assim vai ser quando eu morrer vou chegar a algum lugar e depois darei contas onde eu estou.

- Tudo isto me apavora.

Tomou um gole da cerveja e pediu mais uma. O garçom trouxe outra bem geladinha, trazendo novos copos.

Eu ouvia toda esta lamentação e de vez em quando ele me perguntava, não é verdade? A música de Nelson Gonçalves tocava em um radio, no lugar de antigamente, na prateleira, “A Flor do Meu Bairro”. Recordamos a boemia que fazíamos antigamente, naquele mesmo local e deslocando-se para o Bar Savoy na pobre e decadente Avenida Guararapes, nos dias de hoje.

Moro ainda, em Beberibe, no mesmo lugarzinho e na mesma casinha. Eu com esta doença do medo e a minha mulher com várias doenças, diabete e pressão alta. Só vive no médico. Os meus filhos moram todos longe, um em São Paulo e outro em Salvador.

Aposentei-me com uma pensão “mixuruca” que mal dá para comprar a alimentação e os remédios ficam a cargo dos meus filhos, que mandam uma “mereca” todos os meses. Eles também não ganham lá essas “coisas”. O que fazer? Aposentado não pode fazer greve por melhores pensões. Para o Governo são uns “parasitas” só dão despesas e nada mais. A produtividade foi para o “beléléu”.

- O que fazer?
- Pergunto a você, amigo Taveira?

No caso do aposentado se revoltar em não receber a sua pensão, será até bom para o Governo, que aplicará este dinheirama no sistema financeiro e com este ato ganhará juros para o cofre público e crescer a sua mordomia e, o aposentado que se “lasque”. Outra alternativa para o Governo é fechar o cofre, e o aposentado morre, o que seria o holocausto dos aposentados, por idade e por deficiência física, não é verdade?

- E tu, como vais? Perguntou ele com o copo na mão.
- Eu vou levando a vida como diz o Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar”, respondi. E assim vou vivendo neste mundo de meu Deus. E acrescentei continuo morando lá em Jardim Atlântico, em Olinda, na mesma casinha.
- Lembras onde é? Tomamos aquela cervejinha no terraço com tira gosto de galinha e lingüiça defumada assada para depois seguir para o centro de Olinda e brincar o segundo dia de Carnaval. Pois é lá que continuo morando e, somente saio de lá para o Amaro Bocão.

Por outro lado, caminho diariamente, no calçadão da Praia de Casa Caiada para manter a forma por aconselhamento médico. E nada de “depressão”, pois sou uma pessoa da “antigas” e esta doença somente ataca as pessoas “modernas” que arranjaram esta expressão para sair do “aperreio”.

Rimos.
Olhei para o relógio, 17h30min. As luzes já acessam na rua e nas vitrines e alguns fregueses já estão chegando para tomar o seu drinque do final da tarde.
Olhei para o Porfírio e disse para ele não temer a morte, pois ela é inevitável para o ser humano. Mais cedo ou mais tarde, querendo ou não querendo, perecemos. Não adianta esta preocupação.
Contei-lhe um fato que há muito tempo, o inesquecível Padre Alfredo, em Bom Conselho, contou para minha querida mãe, Nedi, em uma das suas visitas a nossa casa na querida Rua do Caborje, onde ele mesmo morava, o Padre. E, assim narrou:

“Certa noite, jantando em sua residência, com um Padre que visitava Bom Conselho, ele saiu com essa:
- Padre Alfredo, o Senhor tem medo da morte?
- O porquê desta pergunta? Falou o Padre Alfredo.
- É porque este assunto vem me atormentando há vários dias, respondeu o Padre visitante.
- É claro que todos nós temos receio da morte, mas temos que acreditar na vida eterna que tanto pregamos e acreditamos. Por isso nada a temer deixe acontecer.
- Pois é Padre, desejaria ter esta sua fé que vem me escapando entre os dedos da mão.
- Padre Alfredo sorriu. Tomou um gole do café com leite pegando uma fatia de pão assado na manteiga por Dona Julia.
_ Padre eu queria fazer uma proposta, mesmo que o Senhor ache absurdo, disse o Padre visitante.
- Qual é? Respondeu o Padre Alfredo limpando a boca com um guardanapo ao seu lado e olhando diretamente para o seu interlocutor.
- Ninguém até hoje veio a terra para dizer, depois de morto, o que encontrou no outro lado da vida. Por isso proponho, por mais absurdo que o Senhor possa achar, se um de nós morrermos, o que morreu virá dizer o que aconteceu e acontece após a morte.
- Certo? E riu.
- Padre Alfredo, olhando de soslaio, e ajeitando o cabelo que lhe caia na testa, falou. Tudo bem, apesar de não concordar, pois a “morte” é um mistério que ninguém pode desvendar, eu vou pecar aceitando este desafio.
- Tomou mais um gole do café, enquanto se levantava da mesa, se dirigindo para a sala de visita.
Após algum tempo em silencio, o Padre visitante, falou para o Padre Alfredo: Padre vamos desfazer este trato é besteira de minha parte.
- Claro. Fica o dito por não dito.
- Após o momento de oração, foram para o seu quarto.

Passado alguns anos, sem que se lembrasse do acordo, mesmo desfeito, o Padre Alfredo soube da morte deste ilustre visitante e, se lembrou daquele acordo feito naquela noite fria de Bom Conselho. Não se incomodou, rezou pela alma daquele presbítero naquele momento de dor enviando um telegrama aos seus familiares.

Certo dia, sentado na sacristia no silencio da Igreja com o seu breviário na mão, numa tarde fria, sentiu certo desconforto, como se alguém ali estivesse, levantou a vista e olhou para trás e na porta da saída para a sua casa, sentiu uma sombra ou vulto apenas balançando a cabeça, num gesto de negatividade, e desapareceu.

Naquele momento, o Padre Alfredo se lembrou daquele acordo feito naquela noite com o padre visitante e verdadeiramente creu no mistério da morte. Rezou pedindo “perdão a Deus por aquele momento de fraqueza em sua vida espiritual.”

Porfírio arregalou os olhos e disse: vou-me embora que esta história me tirou de tempo. Tomou um aperitivo apertou a minha mão e saiu em direção ao ponto do ônibus, esquecendo de pagar a conta.

Neste momento me lembrei da musica de Nelson Gonçalves, “hoje quem paga sou eu”.


José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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