quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Governador e a Morte do Boi






Ontem “twittei” que havia ido à exposição de animais, no Cordeiro, com o meu neto. Lá chegando encontrei o Governador, D. Eduardo. Passou num carro preto luxuoso, aliás dois, um só com os seguranças ou guardas do palácio. Nos vidros do exuberante veículo, uma película tão escura que o governador poderia até ser assaltado lá dentro e ninguém veria. Um perigo. Não deu prá ver nem que com roupa ele estava.

Eu fiquei pensando se isto tivesse acontecido uns dias atrás antes da eleições. Tenho absoluta certeza do seu aceno para esta pobre eleitora que lhes escreve. Talvez até o meu neto fosse agraciado com um colo como Mussolini, Hitler e Getúlio, faziam com as crianças do seu tempo. Talvez o D. Eduardo depois nem precisasse passar um lenço nas mãos, pois o meu neto estava bem limpinho.

Continuei pensando sobre o que hoje significa socialismo, pelo menos o que está no nome do PSB. Fui ler o seu estatuto e o seu manifesto. Quase me deu vontade de abandonar a política, porque ali eu vi que, ou aquilo que lá está não é socialismo ou eu nunca entendi o que vem a ser isto, meu Deus que salada! Eu diria que seria o socialismo mais capitalista de que ouvi falar. Por isso ainda acho que o D. Eduardo está no caminha certo, em termos gerais. Depois da queda do Muro de Berlim, defender socialismo de Estado, seria uma dose muito forte. Hoje talvez os únicos, no Brasil a acreditarem nisto são o Chico Buarque, por conveniência, e o Oscar Niemeyer, por coerência.

Em seu estatuto, o PSB, no § 3º do Art. 1º, inciso III promete “socializar os meios de produção considerados estratégicos e fundamentais ao desenvolvimento, social, cultural e da democracia, e a preservação da soberania nacional;” e isto seria tocante se eu encontrasse alguma coisa no estatuto que me dissesse o que eram estes meios de produção estratégicos. Será que aquele automóvel em que o D. Eduardo se movimentava, e que eu realmente só soube que ele estava lá dentro com certeza, quando vi fotos hoje dele nos jornais, seria um destes meios? Se eu soubesse deste item do estatuto eu teria logo pedido uma carona, e não colocado a vida do meu neto em risco, andando no carro do meu marido. A cadeirinha dele nos foi doada por uma amiga que teve muita boa vontade, e por isso ele estaria seguro com ela. O problema é o banco do carro de meu marido, como está velho coitado! Qualquer acidente e o banco vai junto com a cadeirinha.

É claro que o governador, sendo neto de quem é jamais negaria uma carona a uma mulher com seu neto no colo. Socialista é Socialista, e como vi o Hugo Chávez gritando num vídeo: “Socialismo o muerte!” E aí chegamos ao segundo ponto de nossa conversa.

Eu presenciei, ou melhor, iria presenciar se não me afastasse com meu neto, uma cena dantesca. Meu neto estava com medo dos bois, desde que ele foi ver os bodes, e um deles deu um berro que o apavarou. Ora, se um bichinho tão pequeno conseguira dar um berro tão grande imagine, um bichão como aqueles bois. O coitadinho do meu neto tinha razão em ficar com medo. Ao passar num dos estandes bovinos vi uma movimentação diferente, quando pegaram um boi, laçaram suas pernas e o derrubaram. Eu, inocentemente, perguntei a um senhor que estava a meu lado, o que estava ocorrendo. Ele me respondeu na maior calma:

- Este vai prá panela, senhora, ou melhor, prá brasa!

Eu gelei enquanto tirava meu neto daquela cena horrorosa. Eu não sei se é ilegal fazer isto em plena exposição de animais. Matar um boi para comer!? Era demais para minha sensibilidade humana. Confesso que até hoje, não comi carne ainda. Como o homem pode se animalizar a tal ponto? Sei que sou humana e bruta como os outros, e amanhã ou depois já estarei saboreando um churrasco sagrando, mas, pelo menos não conheci o defunto como aquele garrote amarelado que quase vi matarem na exposição.

É por essas e outras que ao ler o estatuto do Partido Socialista Brasileiro, em seu inciso VIII, do mesmo artigo citado, que um dos seus objetivos é “lutar contra todos os tipos de privilégios, em especial aqueles patrocinados em causa própria, em qualquer nível”, eu fiquei pensando naquela música do Geraldo Vandré, Disparada, que perdeu da Banda do Chico Buarque num dos antigos festivais de música popular brasileira que diz:

“Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...”

Eu pergunto: Será diferente mesmo? Eu só saberia se o governador me desse uma carona naquele seu meio de produção preto e bonito, que ao invés de quatro patas tinha quatro rodas.

Relembre vendo e ouvindo a música do Geraldo Vandré no vídeo abaixo, já que eu não pude salvar o boi da exposição:






Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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