sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Preconceito e As Caçadas do Pedrinho




Já tenho tido brigas homéricas aqui e alhures por causa de preconceitos. É a pior coisa de que pode se acusar alguém é de preconceituoso. Usa-se tanto esta palavra que acaba-se perdendo seu sentido. Vou citar aqui um dicionário, ou “pai dos burros” para esclarecer.

Preconceito

substantivo masculino
1. qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico
1.1. idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão
2. atitude, sentimento ou parecer insensato, esp. de natureza hostil, assumido em conseqüência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância
Obs.: cf. estereótipo ('padrão fixo', 'idéia ou convicção')
Ex.:
3. conjunto de tais atitudes
Ex.: combater o p.
4. Rubrica: psicanálise.
qualquer atitude étnica que preencha uma função irracional específica, para seu portador
Ex.: p. alimentados pelo inconsciente individual.”

Ninguém de sã consciência pode dizer, que em qualquer destas acepções, haja algo de bom, quando o termo é usado. Vamos à acepção 1. É um exemplo da campanha eleitoral que passou. Em sua maioria, o que se dizia dos candidatos, quer favorável ou desfaravelmente, era dito sem nenhum exame crítico. Exemplos. “Dilma sempre acreditou em Deus”, “Serra é anti-nordestino desde criancinha”, “Dilma vai implantar o comunismo”, “Serra é bonito”, “Dilma está com um corpinho lindo”, “Dilma é lésbica”, “Serra obrigou a mulher fazer aborto”, etc. Todos eles também envolvem a acepção 1.1. Então, preconceito envolve, calúnia, mentira, injúria e outros crimes, menos banais.

A acepção 2 é a mais adequada para definir a opinião da moça de São Paulo contra os nordestinos e a reação de algumas entidades blogueiras ou não, para puni-la. Disto eu falei em artigo anterior (veja aqui). A acepção 3 apenas junta tudo no mesmo saco de maldades. Como por exemplo, o cara é preconceituoso, e inventa que alguém está sendo preconceituoso, porque tem o mesmo preconceito. Um exemplo muito claro disto é dizer: Lucinha, você insinuou que a Dilma é lésbica. Eu odiei. Se ele ou ela pensasse que ser lésbica era uma coisa normal, não levantaria nem a hipótese, se realmente odiasse. O que se está fazendo neste caso é apontar para os outros, olha a Lucinha chamou fulana de negra então é preconceituosa. O certo é “afro-descedente”, ai todos estariam livres do preconceito. Me poupem!

Mas é da rubrica 4, por se referir á psicanálise ou psquiatria, na qual queremos nos fixar. Isto porque, ela é a única adequada para mostrar o absurdo que li ontem em artigo do Zezinho (que aconselho, leiam sempre, pois o cara é bom, apesar de alguns seus conterrâneos). O Ministério da Educação está pretendendo proibir ou censurar o Monteiro Lobato. Vamos um à história.

Inicialmente eu não acreditei e fui no “pai de todos os burros”, que é a internet hoje, para ver se o “Tião” segundo não estaria delirando. Não não estava. Eram manchetes ou notícias em quase todos os jornais. Uma dizia, “Livro de Lobato pode ser banido por racismo”, outra “Caçadas de Pedrinho censuradas pelo MEC” e outras. Sem querer fazer injustiça, o Ministro da Educação, que me parece ser um petista sensato, o que são poucos, outras manchetes já davam conta de que ele não concordava com a decisão do CNE (Conselho Nacional de Educação) e queria revogar sua decisão.

Até que hoje pela manhã eu vi uma manchete que mostrava algum grau sensatez: “Livro de Monteiro Lobato sem Censura”. Somente para ilustrar o caso eu cito toda a matéria do Dia Online:

“MEC rejeita veto de conselheiros de Educação a obra em escolas

Rio - O ministro da Educação, Fernando Haddad, rejeitou o veto do Conselho Nacional de Educação (CNE), que determinou a proibição do livro ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato, em todo o País. O MEC vai devolver o parecer ao órgão, pedindo que a decisão de banir a obra em escolas públicas de Ensino Fundamental seja revista.

Em decisão publicada na semana passada no Diário Oficial da União, o Conselho alegou que a obra tem conteúdo racista. Em um dos trechos, Tia Nastácia é comparada a “uma macaca”. Para que um parecer do colegiado passe a valer, precisa ser homologado pelo MEC. “Recebi manifestação de educadores recomendando que a linha que o ministério defende sempre (de não restringir ou censurar as obras) seja mantida nesse caso”, comentou Haddad. O ministro disse que, pessoalmente, não vê racismo, nem “motivos suficientes” para que a obra seja retirada das escolas. “Há formas de abordar o problema sem mutilar a integralidade da obra”, disse.

Está aí o que acontece quando não se tem coisas mais importantes para fazer e se tenta mostrar produção vendo chifres em cabeça de cavalo. Uma relatora do Conselho, Nilma Lino Gomes, deu o seguinte parecer:

“Nos termos deste parecer, à vista do disposto no Parecer CNE/CP nº 3/2004 e na
Resolução CNE/CP nº 1/2004, é essencial considerar o papel da escola no processo de
educação e (re)educação das (e para as) relações raciais, a fim de superar o racismo, a
discriminação e o preconceito racial. A despeito do importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, o qual não se pode negar, é necessário considerar que somos sujeitos da nossa própria época, porém, ao mesmo tempo, somos responsáveis pelos desdobramentos e efeitos das opções e orientações políticas, pedagógicas e literárias assumidas no contexto em que vivemos.

Nesse sentido, a literatura em sintonia com o mundo não está fora dos conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais nas quais o trato à diversidade se realiza. São situações que estão presentes nos textos literários, pois estes fazem parte da vida real. A ficção não se constrói em um espaço social vazio.”

Resumindo, se consumiu um tempo enorme para que uma pesquisadora denunciasse As Caçadas do Pedrinho como contrárias às normas estabelecidas pelo MEC quanto à questão racista, e do jeito que o Pedrinho caçou, não dava, pois tia Anastácia tinha os lábios grossos. Tem que haver uma orientação para dizer que naquela época o racismo era mais presente. Só faltou dizer que hoje não existe mais isto. É claro que ainda existe racismo velado, como existia antes lá em Bom Conselho, que quando um negro passava, algum branco de sua janela dizia: “Aquele é um negro, mas tem a alma branca”. Era racismo até na alma. E hoje ele ainda se faz presente em nossa sociedade, bastando verificar e comparar a distribuição dos empregos entre negros e pardos, formados entre brancos e pardos, nível de renda entre brancos e pardos. Digo pardos, porque o IBGE me perguntou se eu era negra ou parda. Eu me acho parda mas acho meu pai mais bem escurinho. Negro só Pelé.

É este tipo de preconceito que é importante e devemos combater e não é proibindo As Caçadas do Pedrinho, que é possível fazer isto. Também sou contra a tal políticas de cotas raciais, que só fazem jogar pardos contra brancos, em detrimento dos primeiros, pelo que já ouvi de alguém, que num futuro próximo não vai a nenhum médico negro, porque ele entrou na universidade pelo sistema de cotas, e portanto não era nem tão capaz como os médicos negros antigos e quanto mais como os brancos. Por isso, eu não tive a honra de concluir curso superior nenhum, mas estudei, sou uma mulher da vida (no bom sentido é claro), mas tive minha boa formação em escolas porretas, de D. Lourdes Cardoso e no Ginásio S. Geraldo, e estudei em colégio público aqui no Recife, e se algum dia quiser entrar na Universidade, mesmo tendo direito, não entrarei pelo sistema de cotas.

Aí está o remédio ideal para o racismo e para superação das desigualdades de cor e outras no país: Escola Pública de Qualidade. Ao invés de investir, como fez o apedeuta-mor em universidades, para mostrar ao FHC que não gostava de estudar mas sabia construí-las, ele deveria ter investido na educação básica, para pobre, ricos, negros, brancos, enfim, para todos. Tenho certeza que numa escola onde se desse oportunidade de estudo igual para todos, como previa o Senador Cristóvão Buarque, que saiu do Ministério por telefone, saiu do PT decepcionado e foi forçado pelo seu partido a dizer que votaria em Dilma Rousseff, mas, ainda bem que o voto é secreto, retomo o fôlego, creio que numa escola assim os meninos pretos e brancos leriam com prazer o Monteiro Lobato, e caçariam e cavalgariam juntos aquele hipopótamo, rindo da Emília e dizendo, tu estás por fora boneca de pano, agora a moda é ter os lábios da tia Anastácia. Vai cheirar teu pó de pirlimpimpim lá no Sítio do Pica Pau Amarelo.

Se alguém conseguiu chegar até aqui, gostaria de dizer que ontem fui procurar os livros do Monteiro Lobato que os meus filhos leram. Fui direto às Caçadas do Pedrinho. Comecei a ler e me lembrar que meu primeiro incentivo à leitura veio da Biblioteca do Ginásio S. Geraldo, onde havia uns poucos livros de Monteiro Lobato: Entre elas “Os 12 Trabalhos e Hércules”. Li e gostei tanto que nem me lembro se o Hércules era preto, branco, amarelo, mulher ou mesmo gay. Se naquela época, lá houvesse as Caçadas do Pedrinho, eu teria tido o privilégio que pude dar às minhas filhas de acompanhá-lo na caçada da onça, junto com a negra Anastácia. Ao ler ontem não tive os meus olhos de menina, mas os olhos de velha (não tanto), chamados a atenção pelo seguinte trecho, escrito depois que a turma caçou a onça:

“Aproximaram-se os heróis. Penetraram no terreiro. Narizinho, de longe, gritou:
- Adivinhe, vovó, o que matamos!
Dona Benta respondeu:
- Uns danadinhos como vocês são bem capazes de terem matado alguma paca...
A menina deu uma risada gostosa.
- Qual paca, nem pêra paca, vovó! Suba!
- Então, algum veado – lembrou a velha, começando a arregalar os olhos.
- Suba, vovó!
- Porco-do-mato, será possível?
- Suba, suba!
Dona Benta principiou a abrir a boca.
- Então foi capivara...
- Vá subindo, vovó!
A boa senhora não sabia como subir alem duma capivara, que era o maior animal existente por ali. Narizinho, então, chegou-se para ela e disse, fazendo uma careta de apavorar:
- Uma onça, vovó!
O susto de Dona Benta foi o maior da sua vida – tão grande que caiu sentada, com sufocação, exclamando:
- Nossa Senhora da Aparecida! Esta criançada ainda me deixa louca...
Mais corajosa, a negra aproximou-se, viu que mesmo onça e:
- O mundo está perdido, sinhá – murmurou, de mãos postas. – É onça mesmo...”

Meu neto lerá As Caçadas do Pedrinho no original e não se tornará racista como meus filhos também não se tornaram. Tenho noras e genros de todas as cores, e o meu netinho tem um pé na cozinha. Realmente, tia Anastácia o mundo ainda está perdido.


Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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