terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pela Barbas do Boff


O Leonardo Boff ataca outra vez. Atacou antes no tal encontro de artistas realizado no Rio para apoiar Dilma. Antes ele havia apoiado a Marina. Esta ficou em cima do muro e Lucinha e o Boff desceram. Ele para um lado e ela para outro. Ainda bem, pois vejam o que ele cometeu no Blog do Ricardo Noblat, tendo como título “Desafios para a presidente Dilma Roussef”, no dia de Todos os Santos que foi ontem, em vermelho e alguns comentários meus vão feitos com esta cor que agora uso, já começando a dizer que ele deveria ter esperado um pouco para publicar hoje, quando homenageamos os mortos.

Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff.

E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nivel indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados.

O que é que ele quer dizer com isso? Por que você desceu do muro? Para dizer isto? Diga logo que a campanha da Dilma foi uma das mais sujas que a história já viu, e que perto da de Serra, esta, a do Serra, se tornou uma procissão de pureza e bondade. Cai na real, Boff!

Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados.

O homem enlouqueceu de vez. Tenta livrar “a cara” da CNBB, e coloca o Papa no meio. É claro que você sabe, caro Boff, que antes de ser um chefe de Estado, o Papa é o líder da nação de católicos em todo mundo, e que tem todo o direito, como os seus bispos, de pregar sua doutrina onde e quando quiser, talvez, menos em Cuba, porque lá havia um bando de políticos, inclusive religiosos, presos, que todos admiradores de Fidel brigam para dizer que foram eles que influenciaram o Fidel a soltá-los, inclusive o apedeuta-mor. No caso da descriminalização do aborto, quem mentiu mais foi a Dilma, que era contra, virou a favor, virou contra de novo e quando PT quiser ela vai ser a favor outra vez. Mesmo dizendo outra vez que nenhum dos dois candidatos foi santo nesta questão, o Serra, outra vez mentiu menos do que a Dilma. E tu, oh Boff, ainda folgas também com a vitória dela?

Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff.

E se ela fosse esperta mesmo, o que não acredito, gostaria de estar a maior distância possível de opiniões como a sua. Senão vejamos.

Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituida.

Lula não mexeu com nenhuma privatização. Apenas se aproveito dela para dar esmola aos pobres. Porque quem deu estrutura à economia brasileira para permitir a minúscula redistribuição da renda que houve, foi o governo anterior. O governo Lula foi o mais liberal da história do país. No fundo ele fez o que nem o Collor conseguiu. E isto foi o grande diferencial do seu governo. Conseguir manter a estabilidade dando esmolas para o pobres e enganando os sindicatos, o MST e o PT, comprando-os com benesses mil.

Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura.

A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema.

E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras.

É isto aí Boff. Eu disse isto acima de outra forma e mais perto dos fatos: Neoliberalismo e esmola. É o binômio que historicamente caracterizará, o governo do meu conterrâneo.

Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.

Ora Boff! Aos ricos os bilhões e aos pobres a esmola, e ele levou uma França inteira a votar na Dilma para que ele e você celebrem alegremente.

Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação.

Para ser preciso, Boff, dizem os institutos de pesquisa que ele tinha 83% de popularidade. É uma pena que não conseguiu passar ela toda para Dilma, talvez, não por culpa dele durante todo o tempo, e sim da soberba que se apossou dele, pensando que poderia fazer o que quisesse neste país. E poderia mesmo, se nele apenas houvesse pessoas como você. Eu parabenizo o Lula por ter carregado o poste tanto tempo, e o levado à vitória, para o Boff celebrar alegremente.

Agora se coloca a questão: a Presidente aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?

Ele quer reconhecer que está dizendo bobagem atrás de bobagem, mas não pode parar. Pois se ele para, não pode festejar tão alegremente. Será que ele faz parte da melhor da inteligentzia brasileira? Ele não chega nem ao patamar da Dilma.

Estimo que, Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel Presidente compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva.

Eu também notei Boff. Na campanha do segundo turno ambos, Serra e Dilma, se tornaram verdes desde criancinha. O Serra porque já havia feito alguma coisa neste sentido em São Paulo. E a Dilma porque ficou perto de você naquele encontro de artistas, onde todos ficaram vendo a bando do Chico Buarque passar, e que estavam longe de pensar no Pedro pedreiro.

O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.

Os EUA são até responsáveis pela desvalorização do dólar e o Brasil não tem nada a ver com isso, não é Boff? Eu tenho medo é que, na ressaca desta alegria post festum, a Dilma chame você para ser seu assessor de economia. Eu preferia o Delfim.

Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias(“mensalão”).

Agora ele começou a descer do muro ou provando que não tem vocação para petista. Um petista com pedigree jamais diria uma coisa destas. Entre os espinhos tristes da babação de ovo da nova presidente, encontramos algumas rosas de verdade. Eu venho dizendo isto já a algum tempo. A agenda que elegeu Lula, que envolvia a ética e as reformas estruturais, foi quem me levou a seguir o meu conterrâneo por onde ele fosse. No meio do caminho, com as pedras do “mensalão”, de sua falta de vontade política em fazer reformas importantes, e mais o fato de não deixar de se vangloriar de sua falta de cultura, foi me afastando. Mas, o Boff está certo nesta.

As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido os interesses corporativos dos partidos, em grande parte, vazios de ideologia e famintos de benefícios.

Por que um político com 83% de popularidade não teve base parlamentar para fazer as reformas prometidas? Por um motivo muito simples, ele arranjou uma base parlamentar apenas para permanecer no poder por mais quatro anos, e vai fazer isto de novo com o projeto Dilma. Com ela, caro Boff, nenhuma reforma política sairá enquanto a esmola às classe populares estiverem rendendo votos. Isto dependerá de uma oposição consciente desta verdade que você disse nestes dois últimos parágrafos. De qualquer forma eu considero este dois parágrafos uma verdadeira “audácia do Boff”, parabéns.

A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.

O Lula prometeu isto, muitos anos atrás. Sem uma aguerrida oposição, formada com pessoas que desçam do muro prá valer, não iguais ao Boff, penso que nem nossos netos verão reformas.

Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidente deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica.

O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum.

Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a novel Presidente irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

Pode ficar certo, Boff, se não formarmos uma oposição forte e sem medo, morreremos todos esturricados, mas, o PT não largará o osso carnudo com que eles aprenderam a se deliciar no Planalto Central do país.


Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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