terça-feira, 9 de novembro de 2010

POETA AUGUSTO DOS ANJOS






Remexendo as minhas antigas agendas que coleciono deste de 1977, onde coloco as minhas anotações sobre os compromissos comerciais e pessoais. Folheando a agenda do ano de 1980, no mês dezembro, encontrei uma anotação entre tantos outros escritos, esta que me chamou a atenção me lembrando de um acontecimento que presenciei em João Pessoa na Paraíba. Era e ainda é costume meu anotar todos os dias algum relato, um compromisso, na minha agenda, apesar de não trabalhar em nenhuma empresa, mas o vicio continua e é salutar para quem age desta forma, pois, em algum tempo ressurgirá um pensamento, uma visita, uma viagem, um compromisso que lhe foi agradável.

Enquanto lia esta anotação que fiz em 1980, comecei a meditar das minhas viagens semanais a Capital e interior dos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e o Rio Grande do Norte, onde a Ingerssol Rand atuava com filial em nossa capital pernambucana, o Recife.

A narrativa que se segue deu-se no elegante Restaurante no bairro de Cabo Branco, em João Pessoa. A nossa companhia dava valor aos seus colaboradores, mandando-os se hospedar e se alimentar nos melhores hotéis e restaurantes da cidade, pois, a Diretoria, em São Paulo achava que este processo daria maior visualidade para os clientes, nos encontros e no trabalho.

Saímos do centro da cidade de João Pessoa, mais ou menos ao meio-dia. Estava visitando a firma Duarte. Convidei o diretor desta empresa para me acompanhar no almoço, o que aceitou de bom grado e apanhamos o carro e nos dirigimos para o bairro de Cabo Branco.

Chegamos por volta das 12h30min. Encontramos o estacionamento lotado e depois de certo tempo conseguimos estacionar. Ao descer do carro olhamos para o primeiro andar e lá no terraço com vista para o mar, se encontravam algumas pessoas tomando algum aperitivo. Falei para Duarte: Veja você, deve estar havendo alguma confraternização, pois, é o mês de Dezembro e sempre acontecem estes encontros. Subimos e realmente, lá estavam os funcionários de alto nível do Governo da Paraíba. Uma mesa em forma de “U” no meio do salão forrada com linho branco, cercada de cadeiras com o encosto branco.

Falamos com Moises, o garçom que sempre nos servia as vezes que tínhamos ido lá. Informou com delicadeza que somente tinham duas mesas, afastada, perto do terraço que poderia nos servir o que aceitamos de imediato.

Sentamo-nos pedimos um aperitivo, pois o calor era grande, enquanto observava as pessoas que iam chegando, alguns de paletó e gravata, para os homens, enquanto as mulheres vestiam roupas leves devido o calor reinante, poucos com a roupa esporte.

Pouco a pouco chegavam casais, eram recebidos com abraços e apertos de mãos. Era mais ou menos as 12h30mim quando chegou um casal vestido esportivo, sendo recebido com uma salva de palmas, o Governador da Paraíba. Tomaram mais alguns drinques e conversavam no terraço, alguns rindo olhando para o mar verde e um sol tostando a terra. Fez-se um pouco de silencio e os convivas tomavam seus lugares na mesa. O Governador, a frente com a sua bela esposa sentava-se e um garçom vinha ao seu encontro procurando saber se podia servir o almoço. Com permissão do Governador, os garçons começaram a servir. As conversas se tornaram mais animada depois de uma hora, pois, muitos já tinham se servido de bebidas e tornavam-se mais afoitos.

Estávamos sentados observando tudo. Outro cliente chegou e ocupou a outra mesa defronte a nossa. Chamou o garçom e pediu um aperitivo e ao mesmo tempo a refeição.

No calor dos afagos e risos, os comensais começaram apostar no conhecimento de algum fato que enobrece a Paraíba. Cada um deles falava e perguntava alguma coisa, outros riam quando a resposta não era satisfatória e assim iam dialogando alegremente, alguns já exaltados pelo efeito dos aperitivos.

Naquele momento um membro da mesa levantou-se e perguntou aos demais:

Quem de nós pode recitar ou declamar um poema do grande poeta paraibano AUGUSTO DOS ANJOS. Em seguida, olhando para os demais, fez outra pergunta: Onde ele nasceu e qual o dia e o ano? Quando morreu? Quantos livros escreveu?

Todos pararam e ficaram mudos. Alguns ainda embolsaram reação. Mais o silencio pairou no ar. Ninguém se lembrava destes fatos, nem mesmo o que fez a pergunta, quando inquirido por alguns que se encontravam na mesa.

O colega que estava na mesa em nossa frente levantou-se e foi até a mesa grande, pedindo licença a todos e falou:

- Se os Senhores e Senhoras me derem permissão eu responderei as perguntas que o ilustre amigo deixou no ar.

Todos se entreolharam espantados com aquela intromissão. Então perguntou, o Senhor sabe alguma coisa do nosso poeta Augusto dos Anjos?

- Claro que sei, não somente dele mais de alguns grandes poetas brasileiros.
- Então vamos deixar o Senhor à vontade. Pode falar e ao mesmo instante perguntaram:
- Não atrapalhamos o seu almoço?
- Claro que não, pois já tinha terminado, estava apenas descansando o almoço com mais um aperitivo, o licor de cacau.
- E todos ficaram esperando em silencio, inclusive, nós que estávamos na mesa, tomando um cafezinho.
- Ele começou, falando, citando uma pequena biografia do homenageado:

- Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, era o seu nome, dado pelos seus pais Dr. Alexandre, que era um homem culto, diplomado pela Faculdade de Direito do Recife e de idéias abolicionistas, republicanas e positivistas. Nasceu em 20 de abril de 1884, no Engenho do Pau-D’arco, na então província da Paraíba, morrendo em 12 de novembro de 1914, com pneumonia após uma gripe forte. Antes de morrer, já sem forças para escrever, ditou a um farmacêutico seu amigo o soneto “O último Número” que eu declamarei daqui a pouco. Seu corpo está sepultado em Leopoldina. Augusto dos Anjos escreveu um único livro, O EU que foi publicado em 1912, com uma tiragem de mil exemplares promovida pelo autor, com 58 poemas.

Todos na mesa em forma de “U” ficaram espantados com tal revelação, de um desconhecido que aparecera naquela hora inoportuna para declamar poemas de um paraibano e, eles filhos da terra quase nada sabia ou não sabia nada, sobre o poeta.

O Josué, depois soubemos o seu nome, bem como morava no Recife no bairro da Encruzilhada, se empertigou e com a voz grossa cadenciada, falou para os presente, vou começar com um bonito soneto intitulado “SONETOS”, que ele dedicou a seu pai, na primeira estrofe “A meu pai doente”, na outra estrofe “A meu pai morto” e, começou declamando e como sabia declamar:

I

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E, tu gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai? Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

- Seria a mão de Deus? Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

II

A meu Pai morto

Madrugada Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o oficio da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei, cuidei que ele dormia,
E disse á minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, Mãe, dormir primeiro

E sai para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu

III

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra,
Eu seus lábios que os meus lábios osculam
Microorganismo fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis aos que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!..

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

Palmas se ouviram. Alguns se levantaram para cumprimentá-lo. Os cochichos e os olhares para o Josué foram muitos.

Novamente se ajeitou e pigarreou e disse esta é a última declamação. Todos se ajeitaram nas cadeiras, alguns tomaram um gole do aperitivo que se servia e alguns já não davam tanta atenção.
Vou declamar o ultimo soneto escrito pelo Augusto dos Anjos, antes da sua morte.


“O último Número”

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A Idéia estertorava-se... NO fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o Último Número cansado

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora a sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Incriado:

Bradei: - Que fazes ainda no crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “É tarde, amigo”

Pois que a minha ontogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa
Não te abandono mais! “Morro contigo!”

Mais palmas e apertos de mão se sucederam. Era mais ou menos 15h30min. O salão se esvaziara, um a um cumprimentando o Josué. E os garçons ficaram a recolher os pratos, copos e taças.

Sentou-se Josué de Almeida, este era o seu nome, ao nosso lado, e ficamos tomando alguns aperitivos, pois tínhamos perdido à tarde desta sexta feira, que começava naquele momento para nós. Saímos por volta das 20h00min. Fui direto para o hotel e ficamos de nos encontrar as 22h00min, na Praça Cem Reis a fim de conversamos e depois jantar.

Todos nós ficamos espantados com o acontecido, pois o povo da terra nada sabia sobre o grande poete Augusto dos Anjos, falamos depois já no Ponto Cem Reis.

Nota-: Os sonetos e a pequena biografia de AUGUSTO DOS ANJOS foram extraídos do livro POEMAS – AUGUSTO DOS ANJOS – Seleção de José Paulo Paes – Global Editora e Distribuidora Ltda. – 1986


José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

Nenhum comentário: