terça-feira, 30 de novembro de 2010

A revolução de Caetés - 3




“Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo
que o desejo dos outros fizeram de mim.”
(Atribuída a Álvaro de Campos.)



Sérgio Murilo Santa Cruz foi um brilhante advogado criminalista. E um dos políticos mais sérios que Pernambuco já teve. Seus ascendentes são da cidade paraibana de Monteiro. Mas Sérgio Murilo é de Carpina (PE), onde fez política com P maiúsculo. E fez advocacia criminal, em Pernambuco e fora deste, com muita seriedade e humanismo. - Sempre tinha um horário para receber pessoas pobres, que não podiam pagar honorários advocatícios. E nada cobrava dos que não podiam pagar. Fazia isso por prazer. E morreu pobre. Um exemplo de advogado criminalista sério e honrado.

Sérgio Murilo foi o nosso Sobral Pinto. - Seu defeito foi ter a paixão pela política. Mas não teve sorte com esta. Porquanto, era muito humano, destemido e dotado de espírito cívico.

Faço esse preâmbulo, porque prometi falar de duas campanhas políticas da década de 80, aqui em Pernambuco. Pois, nessa peleja com o Zezinho de Caetés, ele me acusa de endeusar os candidatos do meu gosto e crucificar os do outro lado.

Vou falar do político que todos endeusavam, até que o governador Eduardo Campos o destronou: Jarbas Vasconcelos.

Vamos ao primeiro episódio: Em 1985, o Dr. Sérgio Murilo Santa Cruz resolveu sair candidato a prefeito de Recife. Foi sua primeira e última disputa majoritária. Ele era do MDB, depois PMDB, juntamente com Jarbas Vasconcelos e outros tantos. Mas Jarbas também quis ser candidato a prefeito, naquela eleição. Jarbas não abria mão. Então, os amigos de ambos propuseram uma prévia para decidir qual dos dois seria o candidato.

E foi aceita essa proposição. Nisso, Sérgio Murilo venceu as prévias e tornou-se o candidato oficial do PMDB. Jarbas não aceitou a derrota e pulou nos braços do Dr. Miguel Arraes de Alencar. Entrou para o PSB, só para se candidatar contra o companheiro de partido, Sérgio Murilo. Jarbas queria parecer um rebelado. E alegava que Sérgio Murilo não tinha legitimidade, porque havia apoiado a Aliança Democrática, que levou Tancredo Neves ao Colégio Eleitoral.

Essa foi a desculpa da ambição, da deslealdade e da prepotência de Jarbas Vasconcelos. Porque Sérgio Murilo lutou por Tancredo, ao lado de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela e muitos outros nomes respeitados no PMDB da época, quando não havia os Sarneys, nem os Renans.

Começa a campanha e Sérgio Murilo Santa Cruz estava liderando as pesquisas. No desespero, a coordenação da campanha de Jarbas Vasconcelos, com o aval deste, mandou Carlos Lapa para a televisão contar uma história fantasiosa, tentando manchar a honra de Sérgio Murilo e levá-lo à derrota. Conseqüentemente, seria a vitoria de Jarbas. E foi o que aconteceu. Carlos Lapa, também de Carpina, era inimigo político do Dr. Sérgio Murilo.

Vejamos o fato escabroso: Carlos Lapa acusou Sérgio Murilo de haver matado um cidadão em Carpina, em 1970. E trouxe para chorar na televisão, uma mulher que se dizia ex-esposa do falecido. E ela culpava Sérgio Murilo pelo seu infortúnio. Além disso, milhares e milhares de panfletos apócrifos foram jogados na cidade de Recife, dando conta do "crime praticado" por Sérgio Murilo.

Ora, em 1970, Sérgio Murilo estava cassado pelo regime de chumbo e com os direitos políticos suspensos por dez anos. Posto que, em 1964, ele era deputado estadual. Foi cassado por "subversão da ordem". E nem os generais de plantão sabiam desse homicídio que Carlos Lapa trouxe à tona.

O regime de chumbo havia mandado Sérgio Murilo à cadeia, onde passou cinco meses preso, sendo acusado de subversivo. E só porque ele defendia, legalmente, os presos políticos. Isto é, os prisioneiros torturados pela ditadura de 1º de abril de 1964. – E, depois de solto, foi detido cerca de 13 vezes para humilhações. Pelo mesmo motivo: defensor de presos políticos.

Ao recuperar seus direitos políticos, elege-se deputado federal em 1974. Foi apontado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) como um dos dez deputados mais influentes da Câmara daquela época. Foi reeleito em 1978 e em 1982, pelo PMDB, que antes era o MDB.

Mas Sérgio Murilo, destemido e coerente, nunca se dobrou aos militares. – As denúncias de tortura no Brasil estavam nos jornais do mundo inteiro. Temendo a repercussão negativa, o general Ernesto Geisel veio a Recife apurar as denúncias verdadeiras da prática de tortura. Geisel tinha certeza de que, naquelas condições de presos entregues às feras, ninguém iria dizer-lhe que foi torturado. E veio empanturrado de pompas.

Na 2ª Cia. de Guarda (do Exército) os presos estavam enfileirados, cabeça erguida. Inclusive Sérgio Murilo Santa Cruz. Geisel os interpelou sobre as torturas. Com medo de mais torturas, eles realmente negaram. MENOS Sérgio Murilo, que já estava em dias de ser solto. Então, Sérgio Murilo Santa Cruz protestou e disse ao Geisel: “General, mande examinar costas, braços, bocas, dentes e pés de alguns desses presos. Faça isso e confirmará a prática da tortura.” Desse modo, foi confirmada a tortura. E foi total o constrangimento do general Geisel. Mas Sérgio Murilo foi contemplado com uns dias a mais de cadeia.

Foi esse o homem que Jarbas Vasconcelos aniquilou, com mentiras e artifícios mesquinhos, para ganhar uma eleição. O mesmo Jarbas que se dizia “contra a ditadura e defensor das liberdades democráticas”. - Jarbas sempre teve ódio no coração.

Quanto ao crime de Carpina, imputado ao Dr. Sérgio Murilo, a Justiça já o tinha absorvido por falta de provas. Mas, com a estreiteza de espírito de Carlos Lapa e de Jarbas, este ganhou a eleição para prefeito de Recife, por pequena diferença de votos. Não havia segundo turno, na época. Os votos de Sérgio Murilo haviam migrado para um candidato "olímpico" e espertalhão, de nome João Coelho, que ficou em terceiro lugar. - Não sei se houve o morto. Se houve, não sei quem o matou. Mas sei que aquilo não era, nem é proposta para quem quer administrar um município, seja lá de que tamanho for.

Concluindo: com aquela manobra suja, Jarbas liquidou o leal companheiro de partido. E, terminada a apuração, voltou para o PMDB! Mais: pouco tempo depois estava aliado ao PFL (ex-Arena) e a outras forças ultraconservadoras deste estado. Cadê a coerência desse cidadão Jarbas Vasconcelos, que se diz liderança de Pernambuco? - Como é que eu posso falar de bem desse cidadão, seu Zezinho? – O outro episódio, conto na próxima. – É ISSO./.

José Fernandes Costajfc1937@yahoo.com.br

EM TEMPO: - Aviso ao Zezinho de Caetés que não corrigi nada do conteúdo do meu texto anterior: “A revolução de Caetés – 2”. Apenas pedi aos leitores que substituíssem uma vogal e um algarismo. E só. - Assim, o que ele diz em breve texto, cai no vazio./. – JFC.

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