terça-feira, 23 de novembro de 2010

A TRAIÇÃO





Vivia viajando pelos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e o Rio Grande do Norte. Era supervisor de uma grande empresa de cosmético radicada em São Paulo, mantendo uma filial em Recife. Tinha alguns vendedores, mas precisava de sua presença nas Capitais e cidades destes Estados nordestinos. Viajava durante quinze dias e os outros no escritório em Recife, revendo os relatórios, os pedidos para encaminhar para a Sede da Empresa. Morava no Rosarinho numa boa casa, com terraço em “L” com um gramado verde por toda área e ladeado por canteiros de flores coloridas. Gostava de receber os amigos, no dia de sábado ou no domingo, para um pequeno churrasco ou mesmo somente saborear uma cerveja Antártica bem geladinha servida em copos de vidros finos, trazido por Dona Violeta, sua esposa, bonita e elegante, sempre com aquele sorriso bonito e de belo porte, ficava muitas vezes fazendo sala, enquanto a empregada trazia alguns tira gosto.

A musica era as mais diversas desde samba até as melodias de antigamente, anos 30, 40 em diante. Lá para tantas, extinguia o som da vitrola, e os cantores de ocasião começa a solfejar as melodias que lhe vinha à cabeça acompanha por Zeca do Cavaquinho, o violão de João, o tambor de Mauricio e o ganzá do amigo Mauricio.

Lá para as 20h00min era servida uma sopa de legumes e de carne, todos saboreavam acrescidos da cerveja “saideira”, que nunca saia somente quando o estoque acabava e com a musica bem penosa de Augusto Calheiros encerrando à tarde/noite, com o canto:

“Cai à tarde tristonha e serena / nesta hora de suave langor / despertando no meu coração / a saudade do primeiro amor / Um gemido se esvai no espaço / nesta hora de lenta e agonia / quando o sino saudoso murmura / badaladas da Ave Maria”, e continuava o cavaquinho quase chorando acompanhado pelo violão, deixando todos tristes e saudosos do tempo idos.

Saiamos e íamos para a Avenida Norte completar a tarde noite, no Bar da Ostra, onde encontramos outros cantores e assim até a meia noite, quando nos recolhíamos para as nossas casas.

Era assim a vida deste nosso amigo Frederico, boêmio de primeira ordem e de conversa fácil e risonha. Gostava de freqüentar os bares do centro da cidade, principalmente, o ponto certo dos boêmios recifenses o Bar Savoy.

Certo dia, num sábado pela manhã, estava reunido no Bar Savoy, sendo servido pelo garçom Careca, quando chegou um colega de mesa e disse:

- Tenho uma novidade para contar a vocês. É um assunto quente, que é preciso manter segredo, em caso contrario não contarei, observou, puxando uma cadeira para sentar.
- Todos nós ficamos curiosos para saber deste assunto.
- Cada um olhava um para o outro sem nada entender.

Este amigo sentou-se, colocou a pasta embaixo da mesa e acendeu um cigarro, contrariando alguns que não fumavam. Não adiantou a reclamação, pois, em bar todos fumam e quem não fuma vai embora.

Empertigou e abrindo uma caixa de fósforos que se encontrava na mesa tirando três palitos, pois, estávamos jogando porrinha desejava participar.

Depois do impacto que sentimos na ocasião deste segredo que seria contado, todos se concentraram na jogo de palitos, pois, a disputa era de três cervejas em jogo. No intervalo do jogo, vieram à cobrança para revelar o que teria visto que necessitava segredo de todos. Éramos mais ou menos seis boêmios na mesa, e todos estavam ansiosos para saber deste segredo com a promessa de não passar esta noticias a ninguém. Será que todos guardariam e ninguém contaria aquele noticia que esperávamos?

Ficou a pergunta no ar.

Ajeitou-se mais uma vez na cadeira, trazendo-a para mais perto da mesa e pediu o máximo de segredo, pois o negocio era serio e podia, quem sabe, haver um tumulto muito grande e ocorrer até morte.

- Todos arregalaram os olhos.
- Os palitos na mesa e os copos de cerveja se esvaziando, cada um levando-o a boca.
- Todos nós ficamos esperando a noticia nefasta trazidos por este notívago da tarde. Ajeitou-se e colocou os cotovelos na mesa e disse baixinho:

Vi, com estes dois olhos que terra irá comer Dona Violeta de amores com um homem no shopping. Estavam em uma mesa, sentados e de mãos dadas. Fiquei olhando de longe a atividade do casal. Não me reconheceu, pois foram poucas as vezes que fui a sua casa no Rosarinho. Acabaram de lanchar e saíram abraçados, como estivessem sozinhos naquele ambiente.

- Oh! Oh! Oh! Murmuramos.
Assim saudamos aquela noticia vagabunda.

Mais quem diria? A mulher que o Fred tanto ama e respeita “largando um par de chifres” nele em pleno centro comercial, durante o dia. Agora peço que não se fale nada com ele, o Fred, quando ele estiver conosco, pois, se alguém falar ou cochichar eu nego tudo, ouviram?

Ficamos estupefato com a noticia e a tarde toda ficamos a comentar e procurando detalhes sobre este lastimoso assunto.

Passaram mais ou menos seis meses, sem que o Frederico comparecesse ao Bar “A Portuguesa” ou mesmo no Bar Savoy. Nós já tínhamos esquecido este caso, pois, o tempo apaga qualquer noticia que não esteja em evidencia.

Numa bela tarde ensolarada de sábado, alguns já tinha ido para casa, enquanto outros iam tomar a saideira no “Bar A Portuguesa” na Rua Diário de Pernambuco, quando ouvíamos a musica de Aguinaldo Timóteo na radiola de fichas,

“Amor só se dá / Se amor se ganha também / Quem dar sem ganhar /Pensa que tem mais não tem / Prá gostar de mim / É bom gostar como eu sou / Pois não sendo assim / Amor não quero e não dou /Amor só de um / Ver a saudade depois / Quem ficar vai chorar / Por dois / Quem será? Quem Será? / O amor que imagino eu./ Quem será? Quem será / amor para ser só meu./ eu só quero você se você me quiser também / Coração eu não vou / dividir com ninguém.

- Entra o Fred, com a mesma alegria.
Nós nos olhamos e ficamos em silêncio.
Fred pegou uma cadeira sentou-se ao nosso lado.

Coincidência ou não surgiu na radiola de ficha a musica cantada por Nelson Gonçalves - Boêmia, a musica de regresso de um boêmio ausente e que retorna a mesa do bar e das serenatas das madrugadas recifenses:

Boemia aqui me tende regresso / e suplicando eu te peço / a minha nova inscrição / voltei pra rever os amigos /que um dia eu deixei a chorar de alegria / sendo a vida do meu coração / Boemia sabendo que andei distante / sei que esta gente falante / vai agora ironizar / Ele voltou/ o boêmio voltou novamente / saiu daqui tão contente / porque razão quer voltar / Acontece que a mulher que floriu o meu caminha / de ternura, meiguice e carinha / sendo a vida do meu coração... E assim foi recebido o Fred em nosso meio.

Estávamos curiosos para saber do seu desaparecimento. Todos pensavam nas viagens que fazia, ou mesmo tivesse ficado desempregado ou doente, queríamos saber, e perguntamos:

- Onde tu estavas homem de Deus?
- Desapareceste e não deixaste rastro?
- O que foi que aconteceu? Tantas perguntas ao mesmo tempo, o Fred ficou embananado sem saber o que responder primeiro. Enxugou a testa com um guardanapo de papel, pedido ao garçom juntamente com uma cerveja. Despejou a cerveja nos copos secos e disse:
- Meu amigo boêmio aconteceu um trágico acidente particular em minha vida.
- Todos se entreolharam. E perguntamos. O que foi? Podes nos contar?

Não sabíamos se seria o caso de traição descoberto, ou outro caso que merecesse aquela entonação de voz. Ficamos a espera do seu pronunciamento. Mais uma vez, enxugou a testa com outro guardanapo, e disse:

- Vejam vocês, agente se casa para ter uma estabilidade social. Amamos aquela mulher que a gente pensa que ela nos faz feliz pra fazer parte da nossa vida. Trabalhamos feito um desgraçado, como eu, e vocês sabemos, para que as coisas saiam certas a fim de não passarmos aperreios na vida. E vocês sabem o que acontece quando agente age desta forma? Vem a decepção. Foi o que aconteceu comigo. Não gosto de esconder nada, porque nada se esconde e que não venha a ser descoberto. Tomando um gole de cerveja, continuou a narração:

Veja vocês, chego a casa, por volta das 16h00min da segunda feira. Não viajei como de costume para João Pessoa, e em seguida para Campina Grande e outras cidades, tendo em vista, que houve um contratempo no escritório, e adiei a minha viagem para o dia seguinte.

Pasme vocês, o que encontrei, quando abri a porta da casa? A minha querida mulher que tanto amava agarrada com um sujeito, já de meia idade, aos beijos e caricias no sofá da sala. Ela com roupa de dormir e ele sem camisa. Foi um choque e o coração acelerou com o que eu avistei naquele momento. Não sabia raciocinar e o que fazer naquele instante e eles ficaram tão perturbados que ela foi correndo em direção ao banheiro. O velho todo desconcertado e tremendo “feito vara verde” e olhando como se pedisse perdão para não morrer.

Eu fiquei estatelado naquele lugar entre a porta e a sala. Pensei matá-los, não o fiz. Pensei em dar uma surra com uma trave de madeira, tudo isto veio no pensamento. Lá esta o homem esperando sua sentença. Não se movia, olhava apavorado. Ela apareceu vestida de uma calça jeans e blusa azul, que eu tinha comprado em Natal. Refiz-me do susto e da surpresa, e pedi que saíssem o dois o mais rápido possível da minha vista, antes que perdesse o controle e fizesse uma besteira. Dei meia volta e avisei não os queria ver na volta, pois, aí a coisa seria diferente.

E sai.

Fui para um Bar na Encruzilhada, e ali fiquei matutando o que fazer? Se eu tivesse matado aqueles dois safados, nesta altura, eu estava fugindo e a policia atrás de mim. Era um crime e o crime tem o seu castigo, e ainda mais perderia a minha liberdade, estaria no presídio, passando quantos anos ali em um cubículo misturado com toda qualidade de marginais. Seria bom para mim? Perguntei a mim mesmo, varias vezes.

Quando voltei a casa estava escura. O homem já tinha ido embora ela, lá no quarto deitada chorando. Não falei nada, e me controlando peguei suas coisas e a mandei embora em prantos para junto do seu amante. Saiu pegou um taxi e já passaram seis meses e eu não sei o resultado.

Vendi a casa do Rosarinho e comprei um apartamento em Casa Forte, o que precisamos inaugurá-lo. Não quero saber de mulher no momento. Continuo viajando, e quando quero alguma mulher, é fácil e não falta em cada cidade que chego, sem compromisso.
Aplaudimos o Fred e gritamos:

É assim que se fala moleque!


José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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