terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O que virá após Lula?




Recebi imeio de um senhor que se diz chamar Albino Costa. Antes de transcrever a mensagem eu gostaria de esclarecer alguns pontos, a pedido dos que fazem a CIT e seu Blog, quase todos gozando as delícias das festividades natalinas. Antes de todos se ausentarem, por vários motivos, fizemos uma reunião na qual foi discutida a abertura de comentários às postagem neste Blog. Desde o início as pessoas questionam, com boas ou más intenções, que não há blogs sem comentários. Achamos este um comentário válido, embora não correto, pela vida que levou o nosso Blog da CIT, pois encontramos um meio de sanar este problema, criando um Mural, onde alguém pudesse controlar os comentários a todas as postagens. Reconhecemos que a ideia foi boa enquanto durou.

Durante o processo eleitoral muitos dos comentário dirigidos ao Mural, não foram publicados, pois eram muito chocantes. Alguns talvez até levassem à vitória do Eymael. Estamos pensando, na volta dos que se divertem pelo Rio Grande e outras plagas, ou mesmo por vídeo conferência, em reunir novamente, e falar sobre a questão. Até então não estamos publicando mais no nosso Mural. Aqueles que tiverem matérias para publicação como uma postagem normal nos enviem, e o processo continuará com antes.

Depois desta, não me venham com críticas que quero bancar o Diretor Presidente, pois foi ele que me autorizou a dizer isto. E, voltando ao imeio acima mencionado, o publicaremos aqui, porque o achamos importantes, pois é uma crítica, e nesta atividade aprendemos até a ser masoquistas e amar e perdoar os que nos criticam, esperando o mesmo deles quando metermos o pau. Vamos ao imeio do Albino Costa:

“Tanta parra e nenhuma uva. Acabei de ler o seu blog e fiquei indisposto não me sobrando intelecto suficiente para escrever outro comentário que não seja este..Tanta parra e nenhuma uva. Indispõem-me os artigos que apenas querem dizer mal e que utilizam um pseudo conhecimento de "camarada" de percurso para justificar uma argumentação que nem argumentação chega a ser já que carece de fundamento. Não sendo apoiante da nossa presidente Dilma, uma vez que a considero um mal menor, e sendo frontalmente contra o neoliberalismo praticado pelo nosso presidente Lula e seguido e mantido por Dilma, conforme as suas próprias declarações, não espero de Dilma nenhum milagre revolucionário que traga saúde para todos, melhor educação, mais segurança, habitação, trabalho com direitos ou sequer um daqueles milagres, só ao alcance das estatísticas, que melhore substâncialmente a distribuição de renda pelos brasileiros. Espero apenas que a situação não piore. Como vê, as minhas expectativas são diminutas. Mesmo assim não consigo tolerar este "dizer mal" porque está na moda, porque "eu sei" e os outros não. Acho de muito mau gosto, para não dizer que estamos perante um pobre e debilitado intelecto.

Cumprimentos

Albino Costa
- albino.orcamento@yahoo.com.br

As únicas coisas com que não concordo na mensagem acima é que eu sempre “digo mal” e o “eu sei” e outros não. Quanto à Dilma, o “digo mal” é verdade, mas não, e nem sempre sobre o governo do meu conterrâneo Lula. Quanto ao “eu sei” e os outros não, o que o senhor Albino queria? Que eu começasse dizendo que todos estão certos e eu errado? Mas, muitas vezes confessei meus erros, por exemplo, de ter acreditado que Lula seria o meu Padim Padre Ciço Romão Batista. Outro exemplo, é que concordo com a última frase do imeio do senhor Albino, quando aplicado à sua mensagem: “Acho de muito mau gosto, para não dizer que estamos perante um pobre e debilitado intelecto.”

Outro exemplo, de que, muitas vezes penso que os outros estão certos, é o texto que transcrevo a seguir, escrito pelo Marco Aurélio Nogueira, no Estadão.com (leia aqui), com o título: “Nada será como antes”.

“Nunca antes na história deste País houve um presidente como Luiz Inácio Lula da Silva. Encerrada sua dupla presidência, nada será igual. O País que ele nos deixa é outro, para o bem e para o mal. Nem melhor, nem pior, simplesmente diferente. Lula fez e desfez, aconteceu, circulou e apareceu, mudou o discurso do poder e o modo como a opinião pública se relaciona com seus governantes, pacificou e articulou os mais distintos interesses sociais, a ponto de sair de cena como uma espécie inusitada de glória nacional. Deixou marca tão forte na política, na administração pública e no imaginário popular que será preciso um tempo para assimilarmos sua ausência.

Lula não teve a grandeza fundacional e paradigmática de um Vargas, verdadeiro artífice do Brasil moderno, que ele forjou mediante um padrão de intervenção estatal e um “pacto” ainda hoje vigentes. Não trouxe o charme nem o dinamismo de JK, com sua fantasia industrializante de recriar o País, fazendo 50 anos em 5. Nem sequer seria justo aproximá-lo de Fernando Henrique Cardoso, cujo refinamento intelectual fazia com que conhecesse a estrutura do País que pretendeu administrar.

Mas Lula foi diferenciado. A começar do estilo. Falastrão, debochado, emotivo, avesso a protocolos e a regras gramaticais, demarcou um território. Líder metalúrgico, filho humilde do Brasil profundo, encontrou uma fórmula eficiente de dialogar com as grandes multidões, valendo-se da exploração de uma espontaneidade que o levou a ser tratado como um brasileiro igualzinho a você, predestinado a promover a ascensão dos pobres graças à magia de uma identificação imediata. Por ter vindo “de baixo” e carregado a cruz do sofrimento, Lula saberia como atender os pobres. A precariedade da formação intelectual e a falta de gosto por leituras ou estudos sistemáticos seria compensada pela percepção intuitiva das carências sociais. Ponha-se nisso uma pitada de sagacidade e se tem a lapidação de um mito.

O estilo Lula de ser presidente caminhou sempre de braços dados com glorificação e a autoglorificação. Foi assim, aliás, que ele abriu caminho no PT. Soube usar a aura que o cercou no final dos anos 70, quando despontou como expressão de um “novo sindicalismo” que irrompia numa sociedade silenciada pela ditadura e disponível para se emocionar com a movimentação dos operários do ABC paulista. Criou-se assim o signo do trabalhador que se impõe a políticos, estudantes e intelectuais para fundar um partido diferente, uma política de outro tipo, um novo discurso, um distinto modo de deliberar e agir. O bordão “nunca antes na história”, na verdade, nasceu ali, colando-se a sua trajetória.

O estilo sempre esteve próximo da egolatria e da autossuficiência, combinadas com uma enorme vontade de agradar a todos. Lula nunca reconheceu erros ou cultivou a modéstia. Sua vida teria transcorrido numa sucessão de eventos positivos, modelados por seu discernimento, seu sacrifício e seu espírito de luta. Outros erraram, companheiros inclusive; ele no máximo foi enganado ou ficou imobilizado por perseguições e preconceitos.

Mas é impossível diminuir o tamanho real do personagem. Num País em que as elites políticas, econômicas e intelectuais, apesar de não terem conseguido governar com generosidade, nunca largaram as rédeas do governo, a irrupção de um metalúrgico no Planalto deve ser compreendida sem ira nem ressentimento. Tratou-se de um fato excepcional, desses que podem efetivamente sinalizar que algo novo começou a trepidar no chão da vida cotidiana.

A chegada de Lula ao poder não foi obra do desígnio divino, nem derivou exclusivamente de seu carisma ou mérito pessoal. Muita gente se empenhou para isso e a operação exigiu algum sacrifício. O PT, por exemplo, trocou sua identidade operária pela possibilidade de projetar um operário na cúpula do Estado. Depois de ter se recusado a jogar o jogo da redemocratização do País, o partido passou a defender as regras formais e informais do sistema político. Afastou-se dos compromissos de esquerda. Depurado de combatividade e eixo, ficou refém de seu mais conhecido expoente. Alguma semelhança com o papel desempenhado por Luiz Carlos Prestes no velho PCB não é mera coincidência.

A estratégia foi auxiliada pelos fatos da vida. Houve o governo FHC, que venceu a inflação e lançou a plataforma de uma sociedade mais educada para a racionalidade econômica e mais sensível à necessidade de centralizar a questão social. Lula beneficiou-se, também, da consolidação democrática, da expansão da economia internacional e do que isso trouxe de espaço para o crescimento da economia brasileira. Tudo ajudou as políticas públicas a ganhar nova preeminência e incluir o combate às zonas de miséria e pobreza que devastam a sociedade.

Exagera-se muito na avaliação que se faz de Lula. Na apreciação do que há de positivo em seu governo, nem sempre se dá o devido valor à equipe técnica e política que o assessorou. O bloco de sustentação e a amplíssima coalizão de interesses que montou não se deveram a uma incomum habilidade de negociador, mas sim à recuperação do Estado como agente, à disseminação de práticas generalizadas de composição parlamentar e a uma “racionalidade” dos próprios interesses, que pactuaram para ganhar um pouco mais ou perder um pouco menos. Uma “nova classe média” apareceu, impulsionada pelas facilidades do crediário, pelos programas de transferência de renda e pela impressionante mobilidade da sociedade. Mas não mudou a face do País.

A presidência Lula se completou com a eleição de Dilma Rousseff, sua maior criação. O “animal político” nascido no ABC mostrou que tem corpo e vontade própria. Já não depende mais de um partido para se afirmar e pode almejar ser fiador do novo governo.
Mas nada é tão simples como parece. Todo governante constrói sua biografia e a lógica da política o impele a buscar luz autônoma. Uma hipótese realista sugere que haverá um suave descolamento entre Lula e Dilma. Disso talvez nasça um governo mais ponderado e equilibrado, capaz de substituir a presença de um líder carismático e intuitivo pela determinação e pelo rigor técnico que são indispensáveis para que se possa construir uma sociedade mais igualitária.

Lula entrou para a galeria política brasileira. Mas não inventou a roda, nem começou do zero. Não fará tanta falta quanto imagina ou imaginam. Sua passagem para os bastidores do sistema, ainda que temporária, poderá propiciar uma lufada de oxigênio na política e na dinâmica social, ajudando-as a adquirir mais espontaneidade e a pressionar por agendas de novo tipo.

Nada será como antes, é verdade, mas ninguém lamentará nem se vangloriará disso.

Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política da Unesp e autor de o encontro O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política (Paz e Terra)”

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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