quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

OS AVISOS DO CÉU




As moradias equilibradas em morros sem confiança. Pobres construções de barros e de vidas. As águas volumosas se esparramam pelas encostas que servem de tobogã para a descida, soterrando vidas de crianças a idosos, sem consideração alguma para com os sonhos que morrem com eles.

A enxurrada e as chuvas em exagero multiplicam gritos de horror, lágrimas em rostos, olhares diminuídos, sofrimentos em fraturas expostas nas almas que não sabem se sobem ou descem.

As pessoas sem tranqüilidade, as autoridades tardiamente procurando nos escombros de si mesmas as providências soterradas com o lixo. O lixo apodrecido, enegrecido, embalado em sacos pretos puxados pelos dentes caninos das escavadoras dos morros, em busca de esperanças. A esperança é encontrar, pelo menos, os corpos inertes daqueles que conviveram por ali, numa escalada dolorosa de quem procura um céu que se engana.

Nem se conta mais os vitimados da tempestade ensandecida. Alude-se que tudo depende do homem que não sabe lidar com a prevenção, nem atende aos apelos de quem entende de previsões contra as calamidades naturais. Correto. Só que os evadidos da pobreza de outros rincões desta Pátria-Continente, ao deixarem os torrões de origem, principalmente o nordeste, não têm escolha para se estabelecer, a não ser nas paisagens dos morros já superlotados de gente que luta pela sobrevivência.

Esse mito de encontrar o milagre no sul-sudeste é antigo. O êxodo atualizado de gente sem nada, catando a terra prometida sem nunca encontrá-la, simboliza coragem de fugir dos pastos escassos em direção a empregos, a negócios e outras ofertas que assegurem, pelo menos, o pão de cada dia.

A realidade é cruel com seus sinais de morte imprevisível, de ribanceiras tidas como incólumes a despencarem. Crateras vulcânicas se abrindo em pleno asfalto. Órfãos, viúvos e viúvas. Famílias sepultadas vivas. O luto de quem luta.

Os fios de lágrimas escorridos nos rostos atônitos nunca secarão a dor que se abre nos corações despedaçados. Fendas que jamais serão fechadas. A queda do ser humano. O Rio de Janeiro vira um mar revolto e cruel. As montanhas desabaram. A terra dissolveu-se e transformou-se em lama

Todos nós terráqueos vivemos em estado de alerta ao que pode acontecer no planeta terra. Há tempos que o Céu envia-nos sinais claríssimos de possíveis tragédias. Nós é que fechamos os olhos para o óbvio: o perigo iminente que nos espreita, portador de outra desgraça a cair lá do firmamento.

As causas propulsoras dessas conseqüências são oriundas da insensatez dos que se dizem donos do mundo e do destino da pobre humanidade. Que Deus nos salve.



Maria Caliel Siqueira - mcaliel@hotmail.com

3 comentários:

Lucinha Peixoto disse...

Amiga Maria Caliel,

Você some. Quando já nos preocupamos com isto. Você reaparece, e em grande estilo. Dos textos que li sobre esta tragédia do Rio, e que pode se repetir em boa parte do país, nenhum tem o poder do seu para emocionar, com sua prosa mansa, bela e contundente. Seja bem-vinda, amiga. E não suma mais por tanto tempo. Precisamos dos seus textos. Um abraço

Lucinha Peixoto

Eliúde Villela disse...

Querida Caliel,

Meu objetivo é escrever como você. Quem sabe um dia. Agora estou como secretária biblog, já que não sou bilíngue. Estou escrevendo pouco, e escrevi sobre o Rio também, só que escrevi como um “cachorrinho”, ou seja, “quem não tem texto bom, caça com o cachorrinho”. Parabéns pelo belo artigo.

Eliúde Villela (Blog da CIT e A Gazeta Digital)

Eliúde Villela disse...

Como não temos mais nosso Mural para publicar textos curtos, usarei os comentários para publicar o e-mail abaixo da amiga Maria Caliel, já agradecendo pelo sua generosidade.

“Prezadas Lucinha e Eliúde,

No dia em que enviei OS AVISOS DO CÉU, o meu computador pifou. Acho que foi o efeito da enxurrada lá do Rio. Houve um problema
na placa mãe. Nessa hora deveria ser "placa madrasta". Mas, já solucionou e só hoje (04/02/11) que pude ver os comentários das minhas
Amigas. Foram tantos elogios que não sei como agradecer.
Lucinha, reconheço que estou demorando muito para enviar mais artigos. Apesar de não ter tanta inspiração como você, vou novamente
entrar na luta, mesmo porque, o seu incentivo me força a isso.
Eliúde, li o texto do CACHORRINHO e gostei muito. Como sempre é recheado de recordações, o que marca o seu estilo. Você já criou o
seu gênero, não tem mais o que aprender.
Agradeço imensamente as palavras carinhosas de vocês.
Meu fraterno abraço e muito agradecida.

Maria Caliel”