segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Partindo para a ação, locupletando-me do ridículo e do irrelevante




Desde sexta-feira eu escrevo sobre a família Lula. Espero não estar atrapalhando suas férias. Locupletei-me de vários textos para abordar um assunto que tenho em alta conta. A confusão que muitas vezes é feita entre o que é público e o que é privado. Num regime republicano não há nada mais importante para o seu funcionamento do que uma linha clara e precisa que divida esta duas coisas, e ao mesmo tempo um conjunto de fatores culturais e legais que façam esta divisão funcionar.

O melhor exemplo, guardando as devidas proporções, que me ocorre, para esclarecer esta divisão, é a vida num condomínio. Num condomínio, temos as coisas que pertencem ao condomínio e as coisas que pertencem às unidades ou residências privadas. Podem ficar certos, que, alguém como eu, que morei quase toda minha vida em prédios de apartamentos, já descobriu que o lugar ideal para se morar é aquele onde todos os condôminos sabem distinguir o que é de todos e que de cada um, sem necessidade de normas, regimentos e avisos do síndico. Tudo é mais duradouro, mais limpo, mais silencioso, menos poluído, mais civilizado.

Eis que senão quando, chega um morador, normalmente um inquilino (embora não necessariamente) e começa a colocar um som alto, estacionar na garagem do vizinho, deixar a torneira vazando e muitas vezes dizendo que ele é quem manda, pois paga o aluguel em dia, e como as coisas comuns não pertencem a ninguém, por que não pertencer a ele? Ou mesmo o síndico, que, depois de exercer o cargo por 25 anos aprende que sua popularidade de 87% no prédio já lhe dar o direito de usar a luz do condomínio para iluminar só sua garagem ou usar a água para lavar seu carro todos os dias.

Minha dúvida foi sempre se devemos esquecer tudo isto, em prol de minha paz ou falar com eles e dizer: Olha, incivilizados e mal educados, vocês precisam corrigir seus comportamentos sob pena de eu acionar o regimento contra vocês, em qualquer instância na qual impere alguns resquício de valores “republicanos”. Resolvi ficar com a segunda opção e por isto ainda escrevo sobre o tema. E ao fazê-lo, locupleto-me de mais um texto, hoje da Mary Zaidan, que tem como título: Ridículo e Irrelevante.

“É incrível como dois simples adjetivos podem dar a completa dimensão da esgarçadura dos tecidos moral, legal e ético do país.

Sem maiores explicações, o ministro da Defesa Nelson Jobim considerou “absolutamente ridículas” as críticas às mordomias concedidas ao ex-presidente da República, que, ao lado da mulher, filhos e netos, goza férias no Forte dos Andradas, no Guarujá, pagas pelo Exército, ou melhor, pelo contribuinte. E disse isso sem nem mesmo enrubescer.

Merecedora de escárnio também é a declaração de Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, que considerou “irrelevante” a discussão sobre a concessão de passaporte diplomático para dois filhos e um neto de Lula 48 horas antes de o ex-presidente trocar a faixa com Dilma Rousseff e descer a rampa do Planalto.

Garcia colocou na voz o gesto top-top com que será lembrado pela história. O tema tem tamanha relevância que os filhos do ex, depois de serem cobrados pela mídia e pela OAB, dedicaram várias linhas no twitter a promessas de devolução do documento. Afirmam que nunca usaram a regalia e, de quebra, que a culpa de tudo é da imprensa golpista.

Integrantes do time de elite do ex e da atual presidente, Jobim e Garcia foram e são mais do que amigos leais. São mantenedores de uma acintosa apropriação do público pelo privado, algo que Lula semeou e adubou com maestria e enorme sucesso. A ponto de se sentir à vontade de, como ex, perpetuar os abusos.

Análises mais elegantes explicam o comportamento de Lula como o de quem não consegue desencarnar do cargo. Verdade. Mas os adjetivos usados por seus fiéis escudeiros mostram que é mais do que isso. Lula se tem em altíssima conta; está convencido de que merece todas as regalias, mordomias e benesses porque foi o melhor, o mais popular, o mais povo. Ele, que já não tinha lá muito apreço pelas leis, não vai agora se satisfazer com regras que limitam seus mimos para o uso de no máximo oito servidores e dois carros.

Quer mais e terá. Afinal, como diz Garcia, as críticas são coisa “daqueles 3% ou 4% que consideram o governo Lula ruim ou péssimo”. Reforça assim a tese tão difundida durante a gestão de seu ex-chefe de que a popularidade vale mais do que a lei.

Pior. Dilma, ao que parece, alia-se a essa premissa. A presidente não disse uma só palavra. Nem mesmo deu um pequeno pito em seus dois ministros quanto à defesa da indecente emissão de passaporte vermelho ou da transformação da base militar em resort familiar. É de se supor, portanto, que ela comungue das mesmas idéias e dos mesmos adjetivos. Com isso, perdeu a primeira chance de erguer um governo substantivo.”

Eu já havia falado do nosso ministro da defesa o Nelson Jobim, que justificou a presença do Lulão e família num quartel no Guarujá em São Paulo, porque ele foi convidado pelo síndico que, nesta temporada, é ele. Óbvio, que se o Lula tivesse o mínimo discernimento do que era dele e do que era do condomínio chamado Brasil, teria tomado o convite como uma cortesia, agradecido e recusado, pois talvez não fosse mais presidente da república, para, ao invés de lhe agradecer, fazer como se dizia no quartel onde servi à pátria: “dar-lhe uma mijada”. Mas todos sabemos, e a nossa colega Lucinha Peixoto tem repetido várias vezes, que o nível de instrução de Lula e sua popularidade o tornou um ser inimputável, isto é, não pode mais ser responsabilizado perante a lei. Ele paira como um soberano monarca, e assim se considera.

Eu não havia falado do Marco Aurélio Top Top Garcia, que considerou irrelevante a discussão sobre os passaportes diplomáticos dados aos Lulinhas. Tudo isto é bem claro e bem escrito no texto anterior. E por que diabos eu o transcrevo aqui, e fico brincando de jogo de repetição? Simples, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, se a pedra não quebrar antes. E este é o objetivo, quebrar a pedra que existe em nosso caminho, que é a dificuldade de discernirmos os nossos direitos e deveres dentro de nosso sistema social.

Hoje, pela primeira vez neste país, temos uma síndica. O povo cansou dos machos e colocou uma fêmea. Isto deu certos em vários prédios em que eu morei. No entanto, pela minha experiência a novo síndica só está usando suas prerrogativas para punir seus inimigos do passado. Um general botou o som alto, ela chamou atenção e o general baixou o som. Um partido queria usar, sem pagar a taxa, o salão de festa e ela também coibiu. Mas, como diz Mary Zaidan, de outra maneira, ela perdeu uma grande oportunidade de se impor diante do condomínio, chamando atenção de seus subsíndicos que mantiveram os mesmos cargos de quando o síndico anterior ainda mandava, por eles falarem e fazerem besteiras, distribuindo benesses com a parentada deste síndico anterior.

Eu, que sou morador deste prédio desde que nasci, e já vi síndico de todas as espécies, e condôminos também, não posso admitir que, só porque alguém foi síndico e popular entre os condôminos, passe a usar o “quartinho” dos empregados para guardar sua muamba, nem beneficiar os seus filhos com passes especiais para usar as garagens e entrarem e saírem do prédio sem se identificarem.

Já convoquei uma reunião de condomínio, e lá botarei a boca no trombone, lançando a campanha: “Devolve o quartinho dos empregados e os passes livres”. Já estou distribuindo panfletos em todo o prédio. Faça isto no seu condomínio também.


Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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