sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dilma, Lula e a Crueldade




Ontem eu vi o meu conterrâneo Lula assoprando as velinhas de 31 anos do PT. Tudo era alegria. Nunca vi tantos processados juntos. Processados, injustamente, segundo meu conterrâneo, que agora diz ter sido o “mensalão” uma tentativa de golpe contra ele em 2005. Sendo ou não isto verdade, bastava olhar para aquela alegria incontida, para ver quanto de crueldade ela carregava.

Vi também o primeiro pronunciamento da presidenta Dilma. Presidenta, porque escrevo num blog que segue aquilo que a maioria decidiu, no caso, adotar a sugestão da Lucinha Peixoto de chamar apenas a Dilma de presidenta, e o resto seguir o costume linguístico, que é importante na comunicação. Soube que a Marta Suplicy está comandando uma cruzada para, no Congresso, todos adotarem o mesmo princípio. Ela deve ter se comunicado com a Lucinha, para falar de plásticas e botoques. Chamou atenção até do Sarney e não sei se ele vai obedecê-la. São os ridículos da política nossa de cada dia.

Voltando ao pronunciamento da nossa presidenta, eu fiquei pasmo. Foi só sobre educação. E ainda se fala que temos que propiciar 100 dias de cortesia a esta senhora, que agora nos governa. É muito tempo. Nestes 100 dias ela pode até levar o povo a acreditar nela. A campanha continua, agora num nível mais alto, porque o pano de fundo é um palácio. Eu duvido que alguém encontre ali algo que não tenha sido prometido durante sua campanha, e dito da mesma forma. Sem nenhum dado concreto. A proposta do Protec, o PROUNI do ensino técnico, que virou Pronatec, seria uma novidade se não tivesse sido alardeada pelo seu opositor Serra, durante sua campanha. O resto é pura crueldade com esta país carente de educação.

Enquanto isto, o Serra, que teve quase metade dos votos das brasileiras e dos brasileiros continua “twittando” e lançando novos mandamentos, para que não haja discordância na oposição. O erro do nosso novo Moisés é pensar que oposição é algo monolítico e não discordante. Muitas vezes uma crítica uma discordância é mais salutar do que um encontro eterno entre amigos. Como não criticar o Rodrigo Maia que disse serem os cortes orçamentários um prelúdio da seriedade e austeridade do governo do poste, sem olhar tudo o que isto implica para o país, e que ele (o poste) não pode falar, pois se o fizer, ela e o meu conterrâneo não passam deste governo? Que os cortes são uma declaração do grande poder de compra de votos exercido pelo governo de Lula, (que agora estão chamando de governo de Ludilma, e o atual de Dilmula) para levar o poste até o Planalto?

Pouco tempo atrás não se falava em cortes nem arrocho. E o próprio Lula reclamava de que o aumento salarial do presidente e parlamentares não o atingiria. Além disto prometia aos trabalhadores que o salário mínimo teria uma ganho real este ano. Vem um deputado da oposição, porque seu partido se diz liberal, e elogia os cortes orçamentários, sem tugir nem mugir . O 11º Mandamento deveria ser que a oposição deveria fazer oposição. Isto não significa que não se deve criticar o correligionário, mas, criticá-lo ou elogiado quando ele está certo.

Eu, como liberal que sou, estou de acordo com todas as restrições que foram adotadas pela Dilma, o que eu não acredito é que isto seja para valer. Vamos ver o que acontecerá. Não se pode ser otimista com o estilo petista de governar. Daqui a pouco as emendas parlamentares terão seus recursos aprovados, e o governo terá mais uma vitória. As centrais sindicais receberão seus quinhões e os trabalhadores ficarão com o seu mínimo de cada dia. Entretanto, chegou a um ponto que a coisa não depende mais do Planalto, como dependeu no governo Lula. Temos o monstro da Inflação rondando o povo brasileiro, e nem sempre o Plano Real dará certo. Lembrem dos Planos Cruzados.

Transcrevo abaixo um texto, retirado do Blog do Alon, que ele intitula de “Um detalhe cruel”. Ele pinça de forma magistral os pontos chaves do imbróglio em que o meu conterrâneo nos meteu, e que agora vem, não em detalhes, mas em forma de crueldade das grandes, pois eleição só em 2012. Aqui em Recife o João da Costa já lançou um plano para as pessoas se movimentarem. Tem até teleférico para os morros, quando hoje eles não tem nem escadarias. Ele está desembestado. Leia o texto abaixo. Eu não volto.

“Governo e Congresso associarem-se num megarreajuste salarial para deputados, senadores, presidente da República e ministros semanas antes de promoverem o arrocho do salário mínimo e das aposentadorias, e o massacre do orçamento, é coisa de quem está se lixando mesmo, para valer

O corte orçamentário faz sentido. Afinal, é preciso combater a inflação. Como também faz sentido aumentar os juros para conter a demanda. Aperto monetário é para isso mesmo.

Faz sentido o governo arrochar o salário mínimo para aliviar as contas da Previdência. É a fórmula tradicional de quem precisa exibir aquele sempre exigido -pelos mercados- propósito de austeridade.

Outra coisa que faz bastante sentido é o megarreajuste autoconcedido pelo Congresso Nacional a suas excelências, os parlamentares. Eles mereciam mesmo ganhar mais. Ganhavam pouco.

Igualmente merecido foi o reajuste ainda maior no salário da presidente da República e dos ministros.

Mais sentido ainda fazia o discurso do então presidente, quando garantia que não conduziria a economia brasileira com a bússola da eleição. Diferentemente do que, segundo ele, haviam feito os antecessores.

Até para não deixar ao sucessor uma herança maldita como a que, segundo ele, recebera em 2003.

Todas essas coisas faziam e fazem sentido, se tomadas isoladamente e analisadas apenas no plano do discurso. Juntas, ainda mais quando confrontadas com a realidade, formam um mosaico fantasmagórico, pintado com as tintas do nonsense.

O megacorte orçamentário executado pela presidente Dilma Rousseff é o reconhecimento de ter recebido uma pesada herança negativa.

A herança combina inflação em alta, juros ainda mais altos (e com tendência a subir), gastos públicos descontrolados, moeda supervalorizada, comércio exterior pouco saudável, dependência vital de investimento externo (venda de ativos, desnacionalização).

Em certo aspecto a herança é menos complicada que a de 2003. Uma coisa boa são nossas reservas cambiais. Mas elas carregam um custo altíssimo, pois o governo troca dívida barata por dívida cara.

Noutros pontos a herança é certamente mais complicada. Quem diz é o governo. Pois o aperto orçamentário agora é bem maior que o de oito anos atrás.

Dilma tem o desafio de combater a inflação e, ao mesmo tempo, desvalorizar a moeda. Não trivial. Ou pelo menos impedir a valorização ainda maior. A âncora cambial já parece ter chegado ao limite, um real ainda mais valorizado é impensável. E não há suporte interno para abrir ainda mais a economia, ao contrário.

O governo terá portanto dificuldade de escalar o uso de uma arma adequada nas batalhas antiinflacionárias: acelerar a importação.

Outra dúvida é se o corte orçamentário terá sido suficiente.

É uma encrenca e tanto, com consequências diretas sobre a base social do governo. Se um cenário assim tivesse que ser tratado por um presidente do bloco PSDB-DEM-PPS o PT certamente deflagraria a guerra santa, sob as bênçãos de todas as igrejas -religiosas ou laicas- autodenominadas antineoliberais.

Como o governo é petista, a dificuldade de mobilizar gente contra o governo será imensa. Pois a esmagadora maioria das máquinas de mobilização -sindicais, sociais, empresariais e ideológicas- estão no governo ou apoiam politicamente. As que não apoiam o governo são devotas desse tipo de austeridade.

Ou seja, a base social vai ficar a ver navios.

O Planalto espera enfrentar a situação com o capital da presidente recém eleita e com a disciplina da maioria parlamentar (motivada pela perspectiva da redistribuição de cargos governamentais, ou atemorizada pelas possíveis retaliações). É hora de queimar gordura e mostrar autoconfiança.

Política tem dessas coisas, desses momentos.

Mas crueldade tem limite, inclusive no plano simbólico. Governo e Congresso associarem-se num megarreajuste salarial para deputados, senadores, presidente da República e ministros semanas antes de promoverem o arrocho violento do salário mínimo e das aposentadorias -e o massacre do orçamento federal- é coisa de quem está se lixando mesmo, para valer.

Talvez estejam mesmo. Ou o poder é contido de fora ou vai desembestado. Parece ser o nosso caso.”


Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

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