quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Ética e a Lipoaspiração de Textos




Alguns dizem que “o pior cego é aquele que não quer ver”, eu digo que, pior ainda, é aquele que bate com a bengala nos filhos. Não sou a favor de castigos físicos para as crianças e nem para adultos. Sou contra a pena de morte, tortura, terrorismo ou quaisquer “ismos” que envolvam violência.

Por isso admiro o D. Helder Câmara, Gandhi e outros que repelem a violência como meio de se atingir algum objetivo. O dito, não me lembro por quem agora, que “a violência é a parteira da história”, pode até estar certo se fosse apenas uma constatação, e nunca uma bandeira de luta política.

Entrentanto, isto não significa que discordemos veementemente daquilo que não achamos correto, transformando a violência física na força da palavra que nos distingue dos outros animais e que nos faz evoluir, com a graça de Deus, como sempre diz o Diácono Di. Não pode haver uma ética da concordância total, a não ser do ponto de vista dos dominadores, exploradores e falaciosos. Por um motivo simples e banal. Só é ético, aquilo que eles acham correto. Para que esta ética existisse deveríamos ter uma sociedade robotizada, padronizada e programada para agir. Deus, em sua suprema sabedoria, não fez isto. Por que alguns, mesmo sentindo-se deuses, não reconhecem que a dádiva do livre arbítrio foi dada por Ele, para que possamos discordar?

O normal do homem é a discordância. É uma forma que ele vem usando há milênios para evoluir. A harmonia, a concordância eterna pertence ao mundo dos fracos ou dos mortos. A religião, a ética e a moral estão muito relacionadas, pois elas existem desde que o primeiro homem ganhou uma consciência. Ele se viu numa situação, talvez ainda existente, de explicar o mundo e viver no mundo. Então se perguntou: O que devo fazer para viver ou para sobreviver? Sentindo-se sozinho, ele disse, Deus é uma solução, com ele nada me faltará. Vendo os seus semelhantes disse, o que tenho que fazer para aguentar esta “gentalha” que me rodeia. E criou regras morais, que definem uma ética de cada povo e de cada época. A ética não é algo fixo e perene no tempo ou no espaço. Há pessoas que julgam absolutamente ético apedrejar pessoas até a morte, como o Lula e o Almadinejad, já outros, como eu e a Dilma Roussef, não concordamos. Quem é o correto? Para mim eu, para ele, eles.

É ai que entra a força das comunicações. Hoje o mundo é global. As éticas estão se digladiando pelo mundo afora. E, quanto mais diálogo, menos violência. Quanto mais proibições e repressão maior será ela. O absolutismo da ética é o paraíso das ditaduras, como o é das religiões que se distanciam de Deus, e agora dão mais ênfase à burocracia do catecismo, do que à felicidade terrena, muitas vezes esquecendo-a. O relativismo ético está na própria definição do ser humano. E isto não significa dizer que tudo é permitido porque não existe Deus. E sim reconhecer que o próprio Deus nos levou a ele pelo livre arbítrio, e que, a sociedade que criamos, exige normas, leis e costumes para que sobrevivamos, mas, sem estagnação.

Nesta evolução até a linguagem está envolvida. Eu vivi num tempo em que pronunciar um palavrão na frente de pessoas mais velhas era motivo de castigo, e eu levei muitos croques ou cascudos por isto, quando dizia, por ouvir minhas colegas dizerem “merda”. Hoje a “merda” dá no meio da canela e eu acho até engraçado quando meu neto fala isto, mesmo com uma ponta de vontade de reprimir e dizer: “Isto é feio, meu filho, diga cocô.” Minha filha nem liga. Só o faz quando, ensinado pelo tio, ele manda ela ir prá “pqp”. Eu digo, cruzes. Mas, vejo que é impossível coibir certos hábitos linguísticos, sem isolar a criança numa redoma de vidro.

O mesmo acontece com a literatura e outros tipos de arte. Eu considero uma novela uma obra de arte. Arte popular moderna. Não me venham com movimentos armoriais e resgatadores da cultura dos povos, a não ser que se viva também o presente. Não somos e nem podemos ser o João Grilo, nem o Jiló do Ariano Suassuna. Hoje tendemos mais para os personagens loucos de Insensato Coração. Aquela adolescente que ao completar 18 anos, quer perder a virgindade, comparando o ato a extrair um dente, não está restrito ao sudeste e sul do país. Ela está espalhada pelo país inteiro. Se isto é bom ou ruim cabe a cada um julgar, entretanto, não se pode deixar de mostrar a realidade, porque ela é ruim ou boa, por um motiva até banal: Ninguém assistirá. Qual a solução então? Proibir a exibição ou publicação de obras que tratam do assunto, ou, educar as moçoilas de hoje para que elas vivam melhor, seja lá qual for o conceito que nós tenhamos do que seja melhor?

Não posso responder a esta pergunta aqui. Pois, quando sentei para escrever, meu objetivo era apenas apresentar o texto abaixo, da grande escritora Tereza Halliday, que se diz artesã de textos, e tentar seguir o que ele preconiza. O título do artigo dela é: “Lipoaspiração de textos”. Vejam que beleza de prosa. Eu fico triste, mas tenho que admitir “quem nasceu prá Lucinha nunca chegará a Tereza”. No entanto, espero que o Twitter e textos como estes me levem a lipoaspirar um pouco os meus.

“Atento leitor e amigo pergunta se eu estou sem tempo ou com preguiça de escrever mais. Notou que meus artigos nesta página encurtaram. Preguiça e falta de tempo eu tenho para fofocas e conversa de mesa de bar sobre a situação nacional.

Meus artigos encurtaram porque obedeço às diretrizes do novo projeto gráfico do Diario: fontes/tipos maiores, dando maior conforto à leitura. Basta observar as colunas de Luce Pereira, João Alberto, Miriam Leitão, Marisa Gibson. Muito maior legibilidade. Na era dos blogs e twiteiros, os artigos desta página devem ser enxutíssimos. Agora, o limite máximo é 35 linhas, fonte Times New Roman, tamanho 11. Assim, os temas são expostos sem recheios nem desvios, equilíbrio nem sempre conseguido por articulistas tendentes a circunvoluções no dizer por escrito.

É a segunda vez, nesta década, que requisitam uma lipoaspiração nas matérias dos colaboradores. O primeiro arroxo inspirou-me o artigo ´Em prol da Palavra Enxuta` (DP-10/08/2000, p.A-3), hoje disponível no site www.terezahalliday.com Agradeço ao jornal por esse treinamento compulsório que me ensinou a escrever sem derramamentos nem redundâncias. Continuo defensora de textos claros, concisos e elegantes - metas a cumprir na criação ou editoração de um texto, a fim de comunicar bem.

Como ´escrevente`, faz-me bem o desafio de podar aqui, burilar ali, reescrever, reescrever, reescrever até conseguir um produto final enxuto. Artesã de textos com muitas horas de voo nas rotas da palavra escrita, ´trabalho com as palavras como o
carpinteiro e o ourives com a madeira e o metal`, na explicação lapidar de Thiago de Mello. Para adequar-se às novas regras, mesmo o mais verboso dos escritores nesta página, não mais cometerá este desperdício: ´O que eu queria dizer é que...` - sete palavras inúteis. E somos instados a evitar penduricalhos como ´bastante significativo` e ´sem dúvida alguma`. O poeta Bastos Tigre acertou em cheio: ´nada mais fácil do que escrever difícil. Na simplicidade está a grande complicação que dificulta o ofício`.”


Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

2 comentários:

Ilha de Pala disse...

Bons dias, “desengordada” Lucinha!
Não acredito que você tenha desengordado naquele maravilhoso rincão “Gramado” por todos os lados de vinhos e chocolates. Eu me refiro a desengordar o soma, quanto à psique acabei de constatar que a “lipoaspiração” é fato. Como no meu conceito desengordar é o biggest, para os dois corpos, eu também quero “lipoaspirar” a minha psique e, assim, ser capaz de fazer textos como este: “A Ética e a Lipoaspiração de Textos”.
Fala(e) sério: que curso você fez lá pelos pampas gaúchos? Foi com o Erico Veríssimo, o Fabrício Carpinejar, a Lia Luft ou foi diretamente com Ele, o Criador? Quero saber. Como seu correligionário (“marineto” de primeira hora) eu tenho esse direito. Vou até começar a assistir “Insensato coração”, só para poder prosear-mos mais. Não vou esperar por Lucinha/2012, quero mais essa Lucinha “lipoaspirada”. ESSE (texto) VALEU!!!
Abração e lembranças ao neto,
Roberto Lira

Lucinha Peixoto disse...

Roberto,

Pensei que você já estivesse vendo Insensato Coração. Não chega a ser um Caminho das Índias mas parece melhor do que a que passou, a qual só serviu para aprender algumas palavras em italiano, e fazer comparações políticas. Obrigada pelos elogios ao meu texto. Perdão meu Deus, vaidade das vaidades tudo é vaidade. Zé Carlos me disse que agora você tem um blog, mas não nos despreze, mande seus texto ou para o Blog da CIT ou prá AGD. Você é de casa. Um abraço da amiga

Lucinha