segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Os Blogs, os Blogueiros e o Anonimato




Quando assumi o comando da CIT Ltda, os blogs estavam nascendo no Brasil. O quente era o YouTube e o Orkut. Enveredamos, com a herança deixado pelo Zé Carlos, para o lado da computação gráfica, reforçamos nossa equipe, vieram as crises, reduzimos nossos quadros e passamos a atuar como blogueiros. O espírito e o objetivo de todos era o mesmo, ênfase em nossa terra natal, Bom Conselho, senso de humor em primeiro lugar, e o reconhecimento de que não existe nada mais sério do que o humor bem utilizado.

Surgiu o Blog da CIT. A primeira postagem mostrava nossas origens. Um filmezinho que ainda está no YouTube, “C... Na Chuva” em fevereiro de 2008. Depois de discussões acaloradas e vendo que a computação gráfica era incompatível com a idade média do grupo, só em outubro daquele ano voltamos, muito timidamente, a impulsionar o blog. Mas, podemos dizer que neste mês de fevereiro completamos 3 anos no ar, apesar do nosso primeiro texto, em letras, só sair em outubro de 2008 (veja aqui).

Tanto tempo passou, e, quando se fala das tecnologias modernas, 3 anos, parecem 3 séculos. A tecnologia blogueira mudou, e tudo mais em termos de comunicação. Nós seres humanos é que mudamos pouco, mesmo aprendendo e evoluindo em termos de tecnologia moderna, em termos de valores continuamos, muitas vezes, na idade da pedra. Digo isto para me referir à questão do anonimato, ou pseudononimato, a que me impus e impus como condição para aceitar o cargo de administrador de blogs.

Eu o defendo (o anonimato), e ainda não encontrei argumentos fortes para abandoná-lo. Um dos mais utilizados é que hoje, com toda nossa democracia, não há perigo nenhum em mostrar a cara. Pode até ser, mas isto é um problema meu, se não há perigo para mostrar, não deve ser perigoso não mostrar. Outro, é que ele é proibido pela nossa Constituição cidadã, em seu art. 5º. (O art. 5º da Constituição diz, no inciso IV – “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;”.). Eu já falei disto outra vez e repito. Isto depende do que se entende por anonimato. Uma coisa é o indíviduo se enconder no anonimato com objetivos, que ele próprio os considera maus, que ele não deve aparecer. Para assim agir ele necessita fazer toda uma operação abafa para que não se descubra sua verdadeira identidade. Outra coisa é aquele, que como D. Pedro I, se esconde atrás de um pseudônimo por uma boa causa, e não está preocupado em sua própria revelação ou não de identidade. Ou seja, sendo ele mesmo, seria mais difícil praticar o bem, do que como o pseudônimo. Alguém pode até levantar o argumento, de que “o que é bom prá mim, pode não ser bom prá você”. Isto é um fato, mas ficar com os meus valores é um direito que tenho, e isto, algumas vezes só pode ser feito dentro do anonimato. Eu sou a favor do anonimato no disque denúncia, e não acho que o denunciante deva ser enquadrado no artigo 5º, desde que ele esteja dizendo a verdade. Isto é reconhecido pela própria justiça brasileira, quando recomenda, com as devidas cautelas, o uso de informações anônimas para coibir ou descobrir autores de delitos graves.

Surgiu um argumento, que trato aqui porque foi levantado por pessoas de nossa terra que merecem toda nossa consideração: O Edjasme Tavares e o Luis Clério. Óbvio que eles quando citam os problemas que surgiram em Bom Conselho por causa do anonimato estavam se referindo ao que poderíamos chamar o “mau anonimato”, como tentei explicar acima. No entanto, quero dizer que, com o avanço dos nossos meios de comunicação, é impossível coibir a prática. Tentemos então usá-la para o bem e todos entraremos nos reinos do céu, mesmo que tenhamos que nos identificar para São Pedro.

Outra coisa que falo sempre, é sobre o Estado de Direito que existe quando se tem um arcabouço constitucional em operação. O Estado de Direito, não é uma expressão abstrata que gera cidadãos abstratos, direitos e deveres abstratos. Tenho todo direito de considerar que alguns dos nossos diplomas legais caducaram e outros já nasceram caducos. Eu, se as tivesse, não deserdaria uma filha minha porque ela perdeu a virgindade, mesmo que a lei (caduca) me desse este direito. Eu tento mudá-la. E o que tento fazer ao tentar mudá-la, é agir dentro dos meus valores, o máximo que possa, até que se diga a qual tipo de anonimato a Constituição se refere. Eu acho que é muito diferente do que pratico: O “pseudonominato”. Este é o que chamo de “bom anonimato”, não porque ele só faça coisas boas, mas, porque é muito fácil saber a identidade de quem o pratica. A justiça já pode fazer isto, porém, espero que eu só tenha que me identificar com São Pedro. Outros anônimos se identificarão com o Lúcifer.

Ainda mais, se o anonimato é permitido para fazer o bem ou coibir o mau, nos casos privados, por que vedá-lo em casos de corrupção, ineficiência e outros tipos de sem vergonhice dos agentes públicos?

Vou citar agora um anônimo, e como concordo com seus argumentos, eu não fico aqui perguntando quem foi que disse, e sim lendo o que ele disse e procurando fazer disto um instrumento para o bem social, tendo o título “Dane-se a Constituição, eu gosto do anonimato” (leia aqui o original).

“Quase todo Troll tenta se esconder por trás de termos como “liberdade de expressão” e “direito ao anonimato”, mas não entendem que macaquear os EUA nesse caso de nada vale. Anonimato é vedado pela Constituição Federal. Está lá, Artigo V, parágrafo 4:

É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
Isso reflete uma tendência de nossa sociedade. Adoramos uma fofoca, queremos saber quem está por trás dos pseudônimos. Conheço gente que sabia de cor todos os pseudônimos do Fernando Pessoa.

Nelson Rodrigues mal conseguia escrever com seu pseudônimo Suzana Flag. Stanislaw Ponte-Preta idem. Nos anos 90 a moda era saber quem era Tutty Vasquez. Aqui no Rio todos queriam saber o que significava o B. do B. Piropo, colunista do caderno Gato, Celular, Câmera Digital & Etc, d’O Globo. (é Benito)

Nos blogs temos um conflito de interesses. O sujeito começa um blog com um pseudônimo, faz sucesso, todo mundo quer saber quem ele é. Como colher os louros (ou louras, se não for blogueiro de Campinas ou Pelotas) sem colocar a cara a tapa?

Não dá. Não existe Mr M blogueiro.

Quem tem uma identidade secreta precisa aprender a conviver com ela. Se você tirar a máscara, uma de suas vidas vai acabar. Ou seus fãs perderão o interesse, ou seus amigos, colegas e chefes o olharão de lado. Um blog anônimo muito popular fatalmente despertará opiniões passionais.

Eu não faria um blog anônimo, mas já tive vontade de começar vários. Acho que quando bem usada a identidade secreta é um recurso bem legal. Um blog delicioso de ler era o EOTA, o “Eu Odeio Trabalhar Aqui”, de um cara ralando em uma firmeca de webdesigner lidando com todos os tipos clássicos das tiras do Dilbert. Se assinasse com o próprio nome, seria demitido na hora.

Notem, não estou defendendo a denúncia anônima, a calúnia, a difamação. A empresa era igualmente mantida no anonimato.

Há blogs com pseudônimos que não existiriam de outra forma. Temos o blog do Saddam Hussein, o delicioso blog da Regina Duarte, Meu Nome é Regina, o blog fake do Steve Jobs ou mesmo A Companhia, pois tenho informações de fonte segura que Grande Líder da Silva é um pseudônimo. Seu nome verdadeiro seria Grande Líder de Souza. Aguardem o desenrolar dessa revelação bombástica.

Curiosamente deve ser a criatura da face da Terra que menos se interessa pela real identidade de blogueiros, colunistas ou autores. Nunca tive interesse nem em imaginar a aparência dos locutores de rádio. Acho que é a minha cultura de leitor de quadrinhos, sempre entendi bem a necessidade da máscara, da identidade secreta. Para citar Watchmen, a obra-prima de Alan Moore, “A Honra, como o Falcão, às vezes precisa de um capuz”.

Eu não quero ficar fuçando até descobrir a identidade de um blogueiro que gosto, somente para com isso inviabilizar o próprio blog que me fez fã, pra começar.

Não quero saber quem é o Copiador Descarado, não tenho interesse na identidade de ninguém que ande na linha. O pseudônimo é parte da cultura hacker, seja você o Cereal Killer, Captain Crunch ou mesmo o Neo. Céus, eu não queria saber nem quem era o Garganta Profunda… (só o do Arquivo X)

Isso tudo, claro, deixa de valer quando o anonimato é usado para o Mal. Trolls são desmascarados, terão IPs revelados, sites denunciados e muito mais. O Bem que o bom uso de uma identidade secreta pode trazer é muito grande, grande o suficiente para não merecer ser ameaçado por meia-dúzia de baderneiros abusando de sua liberdade.”


Todo este nariz de cera para falar um pouco do I Encontro de Blogueiros de Bom Conselho, dos quais eu me sinto um antigo e genuino participante. O fato de o Cláudio André, organizador do encontro, ter esquecido nosso blog na primeira lista, me atingiu um pouco, embora menos que à Lucinha Peixoto. É compreensível pela sua dedicação ao blog, com mais entusiasmo do que eu, certas horas. Mas, que foi uma falha, isto foi.

Apesar de tudo, eu irei ao Encontro, embora não tenha visto ainda a programação do evento, que já foi prometida muitas vezes pelo Cláudio. Eu não poderei participar pessoalmente, e aí está o que é ruim nos anônimos e pseudônimos, mas já falei com o Zé Carlos para ele representar nosso blog, pois a Lucinha, até agora, diz que não vai. Estarei lá, ouvindo e aprendendo com todos. Será uma grande oportunidade para serem discutidos, não só os blogs, mas os meios de comunicação em geral em Bom Conselho. Esperamos tanto tempo pelo site da A GAZETA, que, a Lucinha impaciente como ela é, resolveu propor sua criação, e aí está a AGD, crescendo cada vez mais. Sinto que falta ainda a participação das pessoas, como ainda não vejo muitos comentários no nosso Blog, porém, tudo tem começo, meio e fim. Estamos no começo, e nem vemos o fim ainda.


Diretor Presidente – diretorpresidente@citltda.com

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