sexta-feira, 25 de março de 2011

Aprovar ou não aprovar, "that is the question"



Continuando ainda na minha veia de avó, e ainda curtindo a chegada das coleiras infantis, li um texto, no Diário de Pernambuco, de um médico pediatra, o Dr. Fernando Azevedo, falando sobre o tema, atualmente discutido, de reprovação das crianças na escola, sua pertinência, e valor para a sociedade, em contrapartida da ideia de uma aprovação automática.

Tanto em minha época como na de meus filhos, esta discussão não existia. Era, vacilou, não estudou, pau e repetição de ano. Ficava com dó dos meus colegas e até dos colegas dos meus filhos, quando eles se separavam da turma, por terem “levado pau”. Era uma verdadeira tristeza para a família (quase dizia enlutada) quando chegava a notícia: “Fulano levou pau!”. Isto representava, além de tudo, um custo para eles e para a sociedade. Meus filhos levavam “pau” em casa para não levar na escola. Graças a Deus nenhum foi reprovado. Dei uns cascudos em um que ficou numa tal de “recuperação”, e ele se recuperou bem.

Entretanto, na época de meus netos, a coisa é diferente, e o dilema quase shakespeariano “reprovar ou não reprovar” merece uma reflexão. Antes de começá-lo, leiam a ideia do pediatra, Fernando Azevedo:

“Dois encontros num fim de semana me estimularam a escrever esse artigo. No sábado com um querido amigo de infância e juventude, e do basquete do Náutico. Perguntou-me: - Ainda estás trabalhando? E respondi: - Muito. - ´A maior besteira que eu fiz foi não ter me formado. Há 20 anos não faço nada!` dizia-me ele com certa amargura. No dia seguinte, domingo, encontro-me com um querido Professor de matemática ainda de belo porte nos seus 89 anos, mas infelizmente confuso pelo mal do alemão. Devo a esse homem as minhas sofridas aprovações em seguidas segundas época em matemática nos colégios Osvaldo Cruz e Padre Felix, e lembro-me das palavras sinceras sempre ditas à minha mãe. - ´Dona Lulinha ele não sabe nada`. E não sabendo nada ia continuando aos trancos e barrancos. O meu amigo junto com o irmão que era meu maior parceiro em molecagens infanto-juvenis e mais um primo abandonaram os estudos desestimulados pelas reprovações apesar de inteligentes e capazes. Entraram no mercado de trabalho. Eu fui de expulsão em expulsão (garanto que todas por motivos fúteis) até completar seis colégios no meu currículo, chegando ao fim do científico.

Quando uma moça dizia estar namorando um filho de Dr. Rinaldo Azevedo, perguntavam logo. Qual deles? Eu sofria uma coisa terrível chamada discriminação. Entrando no terceiro ano científico, chegava a hora de decidir minha vida. MEDICINA. Risadas quando tornei pública a decisão. Tranquei-me em casa por um ano, fazendo o Curso Pernambucano pela manhã e estudando a noite no Leão XIII, excelente colégio no curso diurno, e facilitador no curso noturno repleto de adultos, comerciários etc. que queriam voltar aos estudos. Excelente proposta. Entendi que não sabia nada mesmo, mas como querer é poder obtive o sexto lugar entre os aprovados e fui o aluno laureado da turma de 1964 na Faculdade de Ciências Médicas E se fosse reprovado no colégio como meus amigos? O aluno reprovado se desenturmava e era olhado pelos novos colegas como quase um marginal.

Quando leio sobre o tema que tem sido tão discutido ultimamente por grandes estudiosos da pedagogia me decido firmemente pela aprovação automática com enorme convicção, pois entendo que cada criança ou adolescente tem seu tempo de maturação. O meu foi tardio. Ninguém é igual. Em toda coletividade existem os certinhos, orgulho familiar, e os dispersos. Hoje tenho certeza que seria enquadrado entre os TDAH e teria tomado quilos de Ritalina. Não, eu era apenas diferente e só gostava das aulas que me eram agradáveis embora nunca tenha desrespeitado um Professor que ainda hoje trato com reverência e muita estima, mas pulava a janela ou era expulso de sala. Música era outra coisa que me deleitava e desde os seis anos tocava piano e poderia ter sido um grande pianista não fossem os preconceitos da época, que piano era pra moça e violão pra boêmio e cachaceiro. Acompanhei meus filhos na vida escolar e nunca vi no colégio um descobridor de talentos, só a rotina irritante de sabedorias inúteis e competitividade extrema. Criança não tem infância. Agora aprendem mandarim. Os Psiquiatras infantis aumentam sua clientela ao verem crianças sem sorriso.”

Não sei nem o que é TDAH, mas penso não ser coisa boa. No entanto concordo inteiramente com o médico quanto a dar o tempo necessário à criança, pelas suas diferenças. Um revés sempre é ruim do ponto de vista social, mas, do ponto de vista individual pode ser um aviso de que algo não vai bem e precisa ser mudado, quanto aos planos que temos para nossas crianças.

Meu neto parece adorar automóveis. O pai quer que ele chute bem e que se interesse por futebol. A mãe odiaria se ele tivesse a profissão do pai. Quase igual no meu tempo. Só que hoje, na condição de avó, eu quero mesmo é que ele seja feliz. Se o que ele fizer no futuro me deixar infeliz, por exemplo, se tornar um Carlinhos Bala, eu vou aceitar, pela felicidade dele. Como mãe não fui assim, e até hoje não sei dizer se agi certo ou errado, mas, felizmente, deu certo para mim. Como avó eu pergunto: “E para eles?!”

E dentro desta polêmica eu quero mesmo, igual ao pediatra, é que meu neto dê suas risadas. De preferência sendo aprovado, com distinção e louvor na escola, mesmo que ainda queiram fazer a maldade de reprová-lo. Por isso, o meu desejo é que se aprove a lei, decreto ou portaria, proibindo a reprovação de crianças até 12 anos. Mesmo assim, se a mãe do meu neto der uns cascudinhos, de leve, porque ele só quer jogar bola e não quer saber dos livros, juro, eu não darei um pio.

Lucinha Peixoto lucinhapeixoto@citltda.com

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