terça-feira, 22 de março de 2011

BARTÔ, O ATEU



Conheci Bartolomeu em uma tarde festiva na mesa do bar Savoy, no final dos anos 70, na Avenida Guararapes, o coração do Recife, hoje, alquebrado, feio e sujo. Estávamos reunidos bebericando e jogando conversa fora, e através do nosso amigo Nilo freqüentador assíduo, que já o conhecia lá prá bandas do Alto de Santa Terezinha, zona Norte do Recife nos apresentou. Dali prá frente quase todos os sábados lá estava conversando animadamente. O Nilo, em uma ocasião, falou que o Bartô era ateu. Todos nós ficamos admirados com aquela noticia, pois, todos nós acreditávamos em Deus, mesmo não participando das liturgias das igrejas, com freqüência.

Num certo dia que o Bartô apareceu no Savoy, Henrique, grande boêmio, falou para que todos ouvissem:

Bartô você é mesmo ateu? Você não tem nenhuma religião? Como é?

Não acreditas em Deus? Como é isso? Conta-nos

Bartô deu uma risada e disse,

Realmente não acredito em nada. Para mim Deus não existe. Isto tudo em que vivemos é uma mentira, nós chegamos neste lugar sem saber como chegamos, apenas abrimos os olhos depois de certo tempo e vamos voltar fechando os olhos sem saber para onde vamos. Tudo vai se evaporar. Tudo se tornará pó ou cinzas, como queira vocês interpretar. Nada vale, somente é valido este momento que aqui estamos o resto e banal.

E como você apareceu e vive? Este espaço que nós habitamos, este ar que respiramos, a natureza, os animais, e a vida em sim, como apareceu, se não foi um SER superior que a criou? Jamaci perguntou arregalando os olhos em sua direção.

Eu não sei explicar apenas este o meu pensamento e com ele vou até o fim. Mas vamos parar por aqui, não gosto de discutir este tipo de coisa, cada um tem a sua preferência e eu tenho a minha e não gosto que ninguém se intrometa, ok. Ainda, digo mais, mulher, futebol, religião e política não se devem discutir cada um tem a sua opinião e preferência, e vocês fiquem na sua e não me incomode, disse já aborrecido.

Ficamos todos atônitos, olhando um para o outro tentando compreender aquele colega de bar.

Encerramos o assunto, e passamos a jogar “porrinha” disputando garrafas de cervejas e tira gosto. Quem quisesse ver o Bartô danado começasse a falar de religião, ele se retirava irritado e para irritá-lo o Melo muito gaiato, quando chegava o Bartô na mesa, ele falava alto chegou o nosso ateu. Bartô já mostrando irritação, dizia. “aqui não é o meu lugar” e começava a se retirar enquanto os outros colegas de mesa, dizia, “deixa de besteira, Bartô, puxa a cadeira e senta-te, pois esse cara só quer te apoquentar”, apontando para o Melo que ria descaradamente.

Certo dia, uma sexta feira, ás treze horas, Maguari, trabalhando como despachante na Receita Federal chegou ao Savoy espavorido, com suor escorrendo pelo rosto, com a sua pasta na mão. Puxou uma cadeira e pediu ao garçom Careca, uma cerveja bem gelada, dispensando uma que tínhamos pedido há pouco instante. Solveu um copo de uma só vez, limpou a boca na manga da camisa. Olhou para todos nós e falou; Meus amigos não sei como começar, mas tenho uma bomba atômica para contar a todos vocês!

Todos nós ficamos na expectativa, olhando um para o outro aguardando a noticia bomba que o Maguari tinha para falar. Demorou um pouco tomando fôlego e tomou mais um copo de cerveja.

Fale, diga o que ocorreu que lhe deixou desta forma, pois, todos nós estamos curiosos para saber do acontecimento.

Na mesa, se encontrava os companheiros, o Nilo, Jamaci, Maia, Melo, Guilherme, Nelsinho, e Marcio Bessa, Zé Maria e o que escreve este pequeno artigo.

Maguari tomou mais um copo de cerveja e disse: “o que vou lhe falar vocês não vão acreditar”, percorrendo com um olhar todos nós, na expectativa da noticia.

Todos nós já estávamos impacientes aguardando o Maguari falar e, ele disse:

Vocês sabem quem eu encontrei na Basílica da Penha, na missa das 11h30min, recebendo a benção de São Felix?

Ficamos calados.

Pois é, disse Maguari, Bartô, o ateu na fila para receber o óleo na testa.

Naquele mesmo instante, me belisquei, fechei os olhos pensando que estava sonhando, mais era o próprio Bartô, ali em pé, na fila, aguardando a benção que os frades capuchinhos dava aos fieis. Fiquei admirado e o aguardei na saída da igreja.

Assim que ele passou o abordei e disse: Tu sempre apregoaste que é ateu, de que não acreditavas em Deus e em mais ninguém, como é que estais aqui recebendo a benção de São Felix e assistindo a Santa Missa?

Olhou admirado para mim e disse:

Eu nunca fui um ateu convicto, apenas para me vangloriar, dizia “que era ateu”, pois, assim me destacava na roda da mesa do bar, onde todos me olhavam com espanto por esta afirmação. Questionavam. Ficavam perplexos. E, eu ficava empolgado. Apanhei uma doença na urina, mijando sangue, e minha mulher muita devota de São Felix fez uma promessa para a minha cura, e eu prometia ela que cumpriria a promessa. Estou curado, apenas tomando alguns remédios, no entanto a doença desapareceu e desta forma estou cumprindo a promessa, e estou me dando bem com as palavras proferidas pelos padres capuchinhos.

Eu desapareci estes tempos dos nossos encontros no Savoy devido à doença e o tratamento receitado pelo “doutor” que aconselhou que eu não tomasse nenhuma bebida que contivesse álcool. E, completou: “Já viu alguém, como eu, boêmio inveterado, chegar numa mesa de bar e não tomar nada, nem uma “lourinha suada” é demais não é amigo? Brevemente e quem sabe no próximo sábado estarei no Savoy para agüentar as gozações de todos, mas o que fazer? Menti e, toda mentira merece uma “paulada”.

Um abraço. Dê lembranças minhas aos demais companheiros boêmios.

Seguiu pela Praça Dom Vital para apanhar o ônibus para sua casa na Avenida Guararapes.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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