quinta-feira, 31 de março de 2011

José Alencar



Todos choram a morte do José Alencar. E o que mais vi chorar foi o meu conterrâneo Lula. Não poderia ser diferente. Sem José Alencar, tenho absoluta certeza, o Lula não teria sido eleito em 2002, e, provavelmente, não teria chegado a 2010, como presidente.

Transcrevo abaixo apenas uma das opiniões do relacionamento político e suas consequências entre José Alencar e Lula. Não concordo com tudo que foi escrito no Blog do Alon, mas, concordo com o título: “Um exceção”. Leiam e eu volto lá em embaixo:

“José Alencar merece as homenagens. Por ter sido um patriota. Principalmente por ter dedicado toda a vida útil empresarial à indústria. Um caso raro de empresário brasileiro que percorreu integralmente a trilha da construção do sucesso dedicado a produzir coisas tangíveis

José Alencar morreu ontem depois de atravessar os últimos anos em público de mãos dadas com o câncer, ou cânceres. Foi uma opção consciente. Alencar sempre dizia que como vice-presidente não tinha o direito de guardar para si as circunstâncias e efeitos da doença.

Dizia que o câncer do Zé Alencar era assunto privado, mas o do vice-presidente era assunto de todo o Brasil.

Há um debate permanente no jornalismo sobre os limites da exposição de alguém com face pública. Para o meu gosto, valeria aqui a norma dita americana.

Tudo que é da vida do político é assunto de interesse público. O ex-vice-presidente seguiu essa regra. E reforçou, com a atitude, sua imagem e seu capital político, bem como o capital de Luiz Inácio Lula da Silva.

É bastante provável que mesmo sem Alencar na vice Lula tivesse vencido as eleições que venceu. Há também algo de exagero na tese de que Alencar foi decisivo para reduzir as resistências empresariais a Lula em 2002.

Elas arrefeceram após a Carta aos Brasileiros, em que o então candidato disse estar comprometido com as grandes linhas macroeconômicas do governo anterior. E caíram a zero com a condução que Antonio Palocci deu ao Ministério da Fazenda entre 2003 e 2006.

Alencar atravessou o primeiro mandato de Lula arremetendo contra a taxa de juros e contra Palocci. E contra o Banco Central.

Recolheu espaços na cobertura jornalística mas não conseguiu influir de fato na política econômica. O ministro Palocci contou com a confiança irrestrita de Lula até cair. Depois, a função de elo com o mercado foi ocupada por Henrique Meireles.

O ex-vice-presidente falecido ontem nunca deixou de ser um outsider, mesmo dentro do governo. Uma fraqueza que ele transformou em força. Dizendo coisas que talvez Lula quisesse ele próprio declarar, não fossem os limites impostos pela realpolitik.

Como na polêmica das relações entre o Brasil e o Irã. Ali, Alencar expressou a compreensão que ia pela mente de boa parte do governo brasileiro. Disse que uma eventual bomba atômica iraniana seria um elemento de dissuasão. Para evitar que o Irã virasse um Iraque.

Disse porque podia dizer. E ficou por isso mesmo. Teve um efeito nos bastidores, mas publicamente, nada.

Se Lula era a expressão da metamorfose ambulante, vangloriando-se por mudar de posição e discurso conforme a necessidade, Alencar fazia o contraponto. Com o estoicismo e a coerência. O agravamento do câncer apenas potencializou o perfil.

A aceitação de Alencar pelo PT lá atrás não foi pacífica, mas com o tempo, com as crises e diante da lealdade dele ao presidente e ao partido o vice foi aceito como um petista, na prática. Mesmo sendo do PRB, legenda que ajudou a criar quando deixou o PL (hoje PR).

Alencar já vinha sendo homenageado em vida e será mais ainda agora.

Mereceu. Por ter sido um patriota. Não só pelo que fez na política. Mais por ter dedicado toda a sua vida útil empresarial à indústria. Um caso raro de empresário brasileiro que percorreu integralmente a trilha da construção do sucesso dedicado a produzir coisas tangíveis.

Entre nós não é pouca coisa. Num país nascido e desenvolvido sob a marca do anti-industrialismo, da colônia à República, definitivamente não é pouca coisa.”

É muito difícil não concordar com tudo, a este nível de generalidade, mas, quando descemos um pouco aos detalhes e relembramos 2002, sentimos que naquela época, o José Alencar, e não só a Carta aos Brasileiros, incutindo ou apenas expressando as ideias liberais na cabeça do pseudo-socialista (na época) Lula e nas cabeças da caterva petista, levou-o à vitória.

O próprio José Alencar não era um liberal convicto, mesmo sendo um empresário. Suas opiniões sobre taxa de juro (que é um preço) eram estranhas no ninho tanto na época Palocci quanto na época Meirelles. Ele apenas refletia seu interesse de classe, nesta questão. Todo empresário adoraria que a taxa de juros fosse zero, com exceção dos banqueiros. Que também, para ser justo, em certa época também não eram os culpados, pela política econômica adotada.

O que não resta dúvida, é que depois daqueles depoimentos da Regina Duarte, que sumiu da propaganda política, e quejandos, dificilmente o Lula teria sido eleito, se não fosse a firmeza e apoio gerados pela presença do José Alencar em sua chapa. Vou além e digo, mesmo tendo sido eleito, sem ele, o Lula não passaria de 2005 na crise do mensalão, onde a lealdade do vice foi fundamental para sua permanência. Eu tenho minhas dúvidas se, com o vice que hoje tem a Dilma, ela suportaria outro mensalão. Sei lá se suportará a Erenice!

No mais, concordo com a articulista em tudo. Morreu um patriota e um empresário, que por não ter querido ser banqueiro sempre foi contra aos juros altos. Contudo, ele sabia porque estava falando dos juros altos, e sabia que quando o governo mete o pé na porta da economia, tentando resolver os problemas, a partir do Estado, não há como não conviver com taxas de juros vergonhosas como as nossas. Para os bancos, que hoje fazem conluio com o governo para intervir diretamente na iniciativa privada (como está sendo o caso escabroso da Vale do Rio Doce), apesar de todos os banqueiros comparecerem para as últimas homenagens, não deviam ter muita simpatia por quem só lidava com coisas tangíveis, como diz o Alon.

Mas, uma coisa é certa, o Lula vai chorar muito, e estará sendo sincero, pois serão necessárias muitas lágrimas para se comparar ao que ele deve politicamente ao José Alencar. O Brasil ficou mais pobre em termos de homens públicos.

Zezinho de Caetés jad67@citltda.com

P.S.: Vi hoje na Coluna do Sebastião Nery uma frase que reforça tudo de bom que foi dito sobre José Alencar, que transcrevo:

"Os discursos contra os juros, o nacionalismo autêntico de empresário vitorioso, a verdade afirmada, deram-lhe a credibilidade nacional raríssima:

"- Não posso negar o Mensalão. Ficou provado. Foi um sacolão enorme". "


ZC


2 comentários:

Altamir Pinheiro disse...

EM QUE PESE SER UMA FIGURA SIMPÁTICA E BONACHONA ELE FICOU DEVENDO ALGUMAS COISITAS MÁS. EIS O QUE ESCREVEU NO DIA DE SUA MORTE O JORNALISTA “BATEU LEVOU”, CLÁUDIO HUMBERTO: “QUASE CANONIZADO EM VIDA, JOSÉ ALENCAR MORREU RECUSANDO O GESTO QUE SE ESPERA DE TODO HOMEM QUE NÃO É CANALHA: FAZER EXAME DE DNA EM AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE. RENEGOU A FILHA MAIS VELHA E INSINUOU QUE A MÃE, ENFERMEIRA DE CARATINGA, ERA PROSTITUTA.
P.S.: - A família proibiu da suposta filha participar do velório em Brasília em razão de morrer de medo da imprensa detectá-la e tocar fogo no circo!!! Morra-se com um silêncio desse...

Zezinho de Caetés disse...

Foi uma boa informação, e nova para mim esta faceta da personalidade do nosso vice-presidente. Todos temos nossos deslizes, e não posso negar que este é um dele. Eu agora fico mais com o empresário. Obrigado.

Zezinho de Caetés (Blog da CIT)